Bairros

Saber socorrer é tão importante quanto saber evitar

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 6 min

Saber como prestar socorro é tão importante quanto saber evitar o afogamento. Segundo a Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo e o Corpo de Bombeiros de Bauru, o ideal é que pessoas sem treinamento apropriado não tentem fazer salvamentos sozinhas com o próprio corpo, já que este tipo de ação pode ter efeito contrário, ou seja, o salvador pode colocar a própria vida em risco.

“Diante de um caso de afogamento, o mais adequado é fornecer para a vítima objetos que flutuem e que sirvam para ela se agarrar e ser puxada para a margem, como uma corda ou mesmo um galho de árvore”, ensina o tenente do Corpo de Bombeiros Cláudio Augusto Antunes da Silva, que conta já ter atendido a vários casos de duplo afogamento ocasionados por tentativas frustradas de salvamento.

Já a remoção da vítima deve ser feita pelas pernas e braços e, segundo as orientações da Secretaria de Saúde, jamais pode haver a compressão do abdômen. O ideal é colocar a vítima de lado, retirar a roupa molhada e aquecê-la até a chegada do atendimento profissional.

 

‘90% dos acidentes têm o exibicionismo como causa’

“Perigo”, “Risco de afogamento”, “É proibido nadar”... As placas existem nas lagoas e represas de Bauru, entretanto, sem grandes opções de lazer em dias quentes, as pessoas acabam ignorando os avisos e arriscam suas vidas em busca de diversão e alívio em tempo de calor.

Entretanto, o que é para ser lazer pode se transformar em acidente com a combinação perigosa entre o álcool e as brincadeiras de empurra-empurra na água. “É possível afirmar que 90% dos casos de afogamento foram desencadeados após as pessoas comerem e beberem demais e depois se exibirem na água, com brincadeiras de empurra-empurra, por exemplo”, aponta o coordenador da Defesa Civil, Álvaro de Brito.

Além disso, Brito ressalta que, mesmo a água estando parada, o fundo de lagos, lagoas, represas e rios está em constante dinâmica de movimento. Ou seja, um lugar que está raso hoje, pode estar fundo amanhã, e vice-versa.

“As pessoas dizem que conhecem o lugar e que podem nadar sem perigo, mas não é assim. Isso sem mencionar a contaminação da água. A lagoa da Quinta da Bela Olinda, por exemplo, é frequentada pelo gado dos sítios vizinhos. Há coliformes fecais, metais pesados...”, acrescenta.

Quem vive na região desde criança e já ouviu e viu muitos casos de morte por afogamento é a estudante Carla Elizabeth Franco. De acordo com a estudante, crianças e adultos abusam da sorte frequentemente: “Eles ignoram os avisos e muitos brincam com a própria vida”.


Atenção também vale para o risco de rompimento de barragens e enchentes

Além do perigo de afogamento, as águas também preocupam no verão por causa da intensidade das chuvas, que podem provocar o rompimento de represas e lagoas. Enchentes também tiram o sono de quem vive próximo a rios.

Em Bauru, os pontos que mais sofrem com o alagamento são as favelas localizadas em áreas de rios, como a São Manuel, a favela do Parque das Nações, Vila Santa Filomena, Parque Jaraguá e Jardim Andorfato, entre outros. Para Álvaro de Brito, coordenador da Defesa Civil de Bauru, as principais causas das enchentes são o lixo, o mau sistema de drenagem e a impermeabilização do solo.

“A água não tem espaço para se infiltrar. Os quintais estão ladrilhados, onde antes havia árvores frutíferas, agora há cimento. E quando chove, a água precisa correr para algum lugar. Ela tem três caminhos: se infiltrar no solo, correr, e evaporar. Quando impermeabilizamos o solo, a gente interfere em um destes caminhos naturais. A enxurrada corre com mais velocidade, não se infiltra e transporta os materiais (lixo) que vai encontrando pelo caminho”. 

Segundo o coordenador da Defesa Civil, para amenizar o problema, a cidade precisa ter mais pontos de infiltração de água, mais sistemas de drenagens (galerias limpas) e a população deve parar de jogar lixo em vias públicas e bueiros.

“Todavia, quando você está na várzea - como acontece com boa parte das localidades que sofrem inundações -, você está em um lugar de inundação natural do rio. Portanto, uma das formas de combater os danos é retirar as populações de tais locais, o que vem sendo feito há um tempo. O Jardim Cutuba já foi retirado de áreas de alagamento, assim como o Parque Real, Parque Vitória, Jardim Ivone, Jardim Maria Célia... E esse trabalho continua com o programa Minha Casa, Minha Vida”, afirma.

No caso das avenidas Nações Unidas e Nuno de Assis, completa Brito, foi o poder público quem ocupou as várzeas. Havia ali uma grande vegetação que alagava, e hoje temos prédios, residências e comércio.

 

Rompimento

Bauru tem ao menos 300 represas e lagoas. Até certo ponto, as principais delas estão seguras quando o assunto é rompimento, assegura Brito. Contudo, tal segurança é relativa, porque os problemas podem aparecer com uma chuva muito forte. E para reduzir o perigo, é fundamental manter o sistema de vertedouro sempre limpo e preparado para receber água.

O vertedouro é uma das partes mais importantes de uma barragem e funciona como um sistema de escape que conduz a água de maneira segura para córregos e rios, por exemplo. Tal sistema é capaz de manter o nível da represa em segurança.

“Nossas lagoas não correm um risco eminente, mas a limpeza dos vertedouros precisa ser constante. O trabalho que realizamos na lagoa da Quinta da Bela Olinda é um exemplo que, infelizmente, não é comum em propriedades privadas”.

Uma boa medida de segurança é reduzir a capacidade das represas em 20% no mês de novembro. Elas ficariam mais rasas, voltariam a encher no período chuvoso e, em meados de abril, estariam com seu nível normal novamente, explica Brito.

“Mas as pessoas não tomam essas medidas e muitas das represas da zona rural não têm ao menos um vertedouro. Por estarem em propriedades privadas, muitas vezes a gente não consegue acompanhar e fiscalizar, mas a Defesa Civil pode ser contatada para uma vistoria. Estivemos recentemente fazendo este tipo de trabalho na região de Tibiriçá”.

É importante lembrar que interceptar o curso de água é proibido por lei. Atualmente, o Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) do Estado de São Paulo é quem controla essa ação. Para fazer qualquer intervenção em cursos de água é necessário o acompanhamento do DAEE.


“Ciclo completo”

Ainda de acordo com Brito, o município conta com o chamado “ciclo completo” de Defesa Civil, que inclui, além da retirada de populações de áreas de risco, investimentos simultâneos em drenagem e alguns investimentos em órgãos como Departamento de Água e Esgoto(DAE), Defesa Civil e Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb) para melhorar a ação de socorro.

“Estão sendo construídos 30 quilômetros de galerias de grande diâmetro. Outra obra em andamento é o piscinão na região do Jardim Jussara e Vila Nova Paulista. É uma represa para reter a chuva muito forte e liberar a água gradativamente. Ou seja, a água que estaria correndo nas ruas vai ser represada ali momentaneamente”.   

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