O homem vivia 31 anos em 1900: o câncer era raro! Em 2005, facilmente se chegava aos 66, de acordo com a OMS, e o câncer era frequente! Quando machucamos ou deparamos com agentes infecciosos o organismo desencadeia uma resposta inflamatória para eliminar os agressores. A cada agressão tudo começa de novo.
Isto não acontece com as neoplasias malignas, também chamadas de câncer. Desde o nascimento somos bombardeados por agentes físicos, como as radiações, e químicos presentes no ar, alimentos industrializados, cosméticos, produtos de limpeza e medicamentos, sem contar os vírus oncogênicos, os envolvidos no aparecimento do câncer. Agente carcinógeno ou carcinogênico significa qualquer causa que contribui para o aparecimento do câncer: de forma direta ou indireta, leve ou intensa, isolada ou repetitiva.
Os agentes carcinógenos se somam no tempo, modificando silenciosamente os genes das células. Depois de décadas, algumas células podem ficar tão diferentes que suas filhas serão bizarras, agressivas e fora de controle. Justifica-se dizer: o câncer representa uma doença da idade avançada, embora haja exceções. Estes agentes pode ser comparado a um copo se enchendo gota a gota. Uma hora o conteúdo derramará, a não ser que se morra antes! A probabilidade aumenta a cada dia de vida.
Uma jornalista estadunidense se propôs a ficar um mês sem consumir qualquer produto chinês: não conseguiu e escreveu sobre o assunto. Se alguém propuser a viver 30 dias sem entrar em contato com carcinógenos, morrerá! Quase tudo que consumimos tem carcinógenos: pesticidas, corantes, aromatizantes, conservantes, antisséticos, produtos de limpeza, cosméticos, bebidas, remédios, alimentos, ar, plásticos, sem contar cigarros, drogas e álcool. Viver é o risco de ter câncer! A frase chega a ser romântica, mas é dramática ou tragicômica: é a vida.
Profissionais
Os profissionais da saúde eticamente não podem indicar, receitar, sugerir ou aplicar carcinógenos nas pessoas, com uma exceção. Se o agente promover benefícios para salvar a vida ou melhorar muito o padrão de vida biológica, calcula-se o risco e aplica-o de forma diretamente supervisionada. Exemplos: radioterapia, quimioterapia, certos medicamentos e imunossupressores.
Fora esta situação de risco calculado, o profissional de saúde não pode indicar, receitar, sugerir ou aplicar carcinógenos como: cigarros para que não apareça mais aftas, bebidas alcoólicas para acabar com a tristeza ou tomar sol para a pele ficar bonita.
Na medicina se pode usar de forma controlada agentes carcinógenos para fins terapêuticos e até cosméticos, mas é o profissional que aplica, protege, avalia e controla diretamente a situação. Quando erra, corre-se o risco de ser processado ou cassado!
A sociedade não conseguiria existir sem carcinógenos. Se proibisse a comercialização de tudo que tem carcinógenos, não existiria mercado. Viver no mundo industrializado implica em se expor a carcinógenos e você como cidadão é que decide viver mais ou menos exposto. Ao governo cabe orientar, divulgar e exigir rótulos esclarecedores, mas não decidir se você vai usar ou não!
Clareadores dentários
Os clareadores dentários se constituem de água oxigenada com nomes diferentes: peróxido de hidrogênio, peróxido de carbamida, peróxido de ureia e perborato de sódio. Se o profissional aplicá-los nos dentes protegendo as mucosas, não serão carcinogênicos. Os clareadores dentários cientificamente revelaram-se carcinógenos, mas muito menos que o álcool, tabaco, sol e HPV.
Se o paciente comprar e aplicar em casa o clareador dentário, em qualquer forma de uso, vai atuar nas mucosas como carcinogênico. Mas foi o paciente que comprou por iniciativa própria, tal como faz com cigarros, bebidas alcoólicas e alimentos com carcinógenos. Agora, se um profissional da saúde indicar, receitar ou sugerir o uso de carcinógenos sem controle para clarear dentes em casa, ele passa a assumir responsabilidades pelas consequências quando comprovadas.
Para reafirmar: clarear dentes pode ser seguro e deixa a boca muito bonita, mas é um procedimento que deve ser feito por profissional treinado e consciente em seu consultório. Pacientes não conseguem evitar o contato com as mucosas ou o engolir do clareador quando aplicam-no em suas casas, por mais habilidosa que seja a pessoa!
Alberto Consolaro éâ??professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC. Email: consolaro@uol.com.br