Sei que alguns carnavalescos ao lerem o título acima logo se revoltarão, mas gostaria que lessem toda a carta e depois refletissem melhor. Com a posse dos novos prefeitos, muitas cidades onde o carnaval é tradicional tiveram o mesmo cancelado sob a alegação de uso das verbas em saúde, educação, segurança e assistência social, principalmente. Também foi assim aqui quando do inicio do primeiro mandato do atual prefeito, mas, uma vez empossado e reeleito, a folia de Momo não só é confirmada ano a ano como a verba do carnaval aumenta, e em muito, como se nós também não tivéssemos muitos problemas com saúde, educação, segurança e assistência social.
De fato, o atual chefe do Executivo nunca escondeu o desejo de ver o Sambódromo revitalizado e fervilhando novamente no carnaval, e assim os gastos com a festa foram aumentando significativamente. Dos R$ 20.000,00 gastos em 2009, o valor chega agora em 2013 a R$ 582.896,00. A isto somem-se gastos com a infraestrutura do Sambódromo, como iluminação, pintura, água, banheiros químicos, limpeza e pessoal de serviço, sem contar a mobilização da polícia, ambulâncias e bombeiros.
Parece que estes R$ 583.000,00 são poucos em valores absolutos, por isso pensemos nele em valores relativos. A Prefeitura divulgou que vai repassar em 2013, em média, R$ 191,12 por mês para cada criança matriculada nas creches conveniadas, portanto, com a verba do carnaval daria para atender mais 254 crianças nas creches.
A Prefeitura também divulgou os gastos previstos com a Rede de Serviços Assistenciais para 2013, aprovados pela Lei 6.308/2012, e nela lemos, entre outros: atender 1150 adolescentes no Programa de Preparação para o Primero Emprego (Cips, Legião Mirim e Legião Feminina) com repasse de R$ 854,00 cada. Portanto, com a verba do carnaval daria para capacitar mais 680 adolescentes para o primeiro emprego; atender 305 jovens e adolescentes no Programa de Convivência e Fortalecimento de Vínculos Sócio-Familiares, com repasse de R$ 1.276,00 cada. Portanto, com a verba do carnaval daria para atender e acompanhar de perto mais 457 jovens e adolescentes rebeldes e problemáticos; atender 145 famílias no Programa de Erradicação do Trabalho Infantil, com repasse de R$ 1.724,00 cada, portanto, com a verba do carnaval daria para ajudar mais 338 famílias a retirarem suas crianças da exploração do trabalho e encaminhá-las à escolas.
A Prefeitura também divulgou que pretende repassar mensalmente a instituições que cuidam, tratam e recuperam dependentes químicos, em regime integral, R$ 1.000,00 mensais para cada recuperando, limitando-se a 50 por ano. Portanto, considerando prazo de 6 meses para cada tratamento, com a verba do carnaval daria para cuidar, tratar e recuperar mais 48 pessoas dependentes de drogas e álcool, isto é, dobrar o número de atendidos.
Bem, pode ser que os carnavalescos mais fanáticos argumentem que a verba da festa de Momo tem repasse da Secretaria da Cultura e não da Secretaria do Bem-Estar Social, ou da Saúde, ou da Segurança, nada tendo ver uma coisa com outra, o que é uma verdade relativa, pois sabemos que muitas pessoas "se perdem" durante o carnaval. Além disso, será que a alegria dos quatro dias de carnaval suplanta as dificuldades e necessidades do ano inteiro? Será que os carnavalescos estão plenamente atendidos e satisfeitos com os serviços de saúde, educação, segurança e assistência social oferecidos pela prefeitura?
Será que não precisam de mais creche para suas criancinhas ou de preparação para o primeiro emprego de seus adolescentes? Será que nenhum carnavalesco faz uso indevido da mão de obra de suas crianças? Será que seus jovens e adolescentes são todos obedientes, e que nenhum deles corre o risco de se perder para a maconha, a cocaína, o crack, o álcool?
Vale se vender pela verba de R$ 42.000,00 repassada a cada escola de samba? Diante de tantas necessidades básicas fundamentais obrigatórias do poder público, muito mais urgentes, o repasse de verba para o carnaval não seria mísero pão e circo para enganar o povo? Com a palavra os carnavalescos.
Silvio Gomes