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Tragédia de Santa Maria

Archimedes A. Raia Jr.
| Tempo de leitura: 3 min

Os últimos números divulgados pela imprensa dão conta que o incêndio na Boate Kiss, envolvendo muitos estudantes da Universidade Federal de Santa Maria, vitimou mais de 300 pessoas, sendo 238 fatais e 81 que se encontram ainda internadas. O fato, como não poderia deixar de ser, provocou comoção geral. A mídia alardeou a matéria com destaque: "Políticos se solidarizam com tragédia em Santa Maria" (RBS); "Tragédia histórica" (Zero Hora); "Tragédia em boate de Santa Maria é ?terceira mais fatal da história?" (BBC), "Al menos 233 muertos en una discoteca de Brasil que no tenía licencia" (El País); "A scene of horror at Brazilian nightclub" (NY Times); "Hundreds killed in Brazil nightclub fire" (Al Jazeera); "Brazil nightclub fire kills 232" (Wall Street Journal); "Tragedia en Brasil: 233 muertos por un incendio" (Clarín).

O Brasil registrou recentemente outras calamidades com grande repercussão. As quedas dos aviões Airbus da TAM (Porto Alegre-Congonhas) resultou em 199 mortos, em 2007 e, da Air France (Rio-Paris), em 2009, 228 vítimas fatais. O caso de Santa Maria ecoou de maneira comovente em todo o país. Em muitas cidades está ocorrendo uma verdadeira reengenharia de segurança, não só em casas noturnas como em outros prédios públicos. Projetos construtivos civis, eletroeletrônicos, de som e acústica, de segurança em geral, estão sendo debatidos e soluções concretas e radicais estão sendo implementadas. Que bom que todos estão preocupados e acompanhando atentamente o desenrolar dos fatos! Tomara que toda esta manifestação não esmaeça em poucas semanas, tão comum no Brasil.

Existe, no entanto, outra tragédia, transcorrendo de maneira furtiva e permanente, a cada dia, mês e ano, no Brasil. Poucos a percebem como acontecimento funesto, a não ser os mais diretamente envolvidos. São os acidentes de trânsito, que além de vítimas jovens (como as de Santa Maria), atingem também as crianças, adultos e idosos.

Em 2010 morreram 41 mil pessoas no trânsito brasileiro, o que equivale a 172 vezes a tragédia de Santa Maria, 206 vezes ao desastre de Congonhas e 180 vezes a queda do avião da Air France. Do total de mortos em 2010 no trânsito, 5.500 (13,4%) estavam na faixa de 1 a 19 anos. Este dado corresponde a uma quantidade de mortos 23 vezes maior que a registrada no caso Kiss. Este valor corresponde, ainda, a 7,2% dos óbitos por causas externas de crianças e adolescentes na faixa de 1 e 19 anos.

Em 2000, a taxa de óbitos em acidentes de transporte, que era de 21 para grupos de 100 mil crianças e adolescentes; em 2010, atingiu a 36 (mais de 70%). Mas, ninguém se importa. A imprensa não dá destaque em suas manchetes. Os municípios não decretam luto oficial, a presidente da república, os governadores e os prefeitos não vão aos locais dos acidentes.

O pior de tudo isto, no entanto, é que pouco se faz, em termos de mudança de paradigmas. 25% da frota brasileira têm documentação irregular e não recebe inspeção veicular, as pistas são "verdadeiras espumas de colchões", ávidas em provocar os "incêndios viários". O número de motoristas alcoolizados continua alto e homicida. O respeito às leis de trânsito é pequena. O abuso é total. Mas a sociedade, os gestores e políticos parecem não se importar muito com estes fatos. Os políticos não se "solidarizam com as famílias".

Tudo isto me lembra Nélson Rodrigues, em seu livro "A menina sem estrelas": "O que me põe doente é a falta de espanto. (...) O que nos falta é o que chamaria de ?espanto político?. Aqui, as coisas espantosas deixaram de espantar. (...) Preciso me espantar com a maior urgência."

O autor, Archimedes A. Raia Jr., é engenheiro, mestre e doutor em engenharia de transportes, professor da UFSCar e diretor de engenharia da Assenag. E-mail: raiajr@ufscar.br)

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