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Protesto, vaidade e paixão na Avenida

Por Mariana Cerigatto | Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 7 min

Loira, morena, negro, jovem, criança, adulto, velho. A noite de ontem Sambódromo mostrou que, apesar das diferenças, todos têm em comum a paixão pelo samba e pelo Carnaval, que é capaz de unir, alegrar e revigorar. Aliás, a temática da paixão foi a inspiração da escola Tradição da Zona Leste. Vaidade, protesto e sonhos também foram temas que “caminharam” pela pista do Sambódromo.


A abertura desta festa, por volta das 20h10, contou mais uma vez com o carisma e simpatia do casal real Luiz Fernando de Lima e Fernanda Cristina Batalha da Silva, além da Rainha da Diversidade Rebeka’s Ken.

 

Neide Carlos

Bloco pé de Varsa

Bateria da Escola Águia de Ouro



Protesto na passarela


“Queremos segurança, saúde, lazer e educação!”: com letra de samba-enredo composta por Francisco da Silva, o bloco Ouro Verde 100% Arte entrou com tom de protesto e roubou a cena pela criatividade e relevância de seu enredo “Clamores desse Povo”, apresentado ao público e aos 27 jurados. Neste ano, a agremiação decidiu denunciar os problemas sociais e fazer um alerta contra a corrupção na política.


Um dos destaques ficou para a ala dos mendigos, composta por moradores de rua de verdade que perambulam pelo bairro Ouro Verde. É o caso do catador Valdive Rodrigues, de 60 anos, que diz que sentiu uma grande alegria em sair com bloco pela primeira vez. “Todo mundo me aplaudiu, eu adorei”, dizia ele.


Um dos pontos altos do desfile ficou para o carro alegórico do “Congresso Nacional”, que trazia como destaque o personagem do presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa. “Nós achamos que ele merece essa homenagem por estar combatendo a corrupção”, sublinhou Adriano Garib. A ala do Tiririca, composta por crianças fantasiadas do palhaço,  entrou com o propósito de levantar reflexões sobre o “saber votar”.


Outra ala que chamou a atenção continha foliões segurando cartazes com frases de conscientização e reinvindicações. “Pedofilia é crime”, “Não à homofobia” eram algumas das mensagens.

 

Samba da Tradição contagia geral



“Escola de guerreiros”: esse foi o “grito de guerra” que deu a largada para o desfile da vice-campeã do Carnaval 2012, a escola Tradição da Zona Leste. O enredo de autoria de Gisele Saes surpreendeu a plateia, com a apresentação dos casais que marcaram a história da humanidade. Uma rápida queima de fogos alegrou o início da festa da escola do Mary Dota.


Adão e Eva, Sansão e Dalila, Cleópatra e Marco Antonio, Romeu e Julieta e Lampião e Maria Bonita foram representados na passarela através de 16  alas e três carro alegóricos. O prometido eram cinco carros, porém dois deles apresentaram problema na estrutura das rodas na concentração e não saíram.



Família Pé de Varsa


O galo, símbolo do bloco Pé de Varsa, após se tornar campeão do Carnaval 2012, dormiu embriagado de felicidade. Nesse sonho, o galo, embalado pelos desejos de muitos, sonha e se vê como uma escola de samba. Mas o galo desperta e volta para sua realidade, em que permeiam a alegria e orgulho de ser bloco. Com três carros, oito alas e quase 650 integrantes, o bloco que mais parece escola contagiou. Um dos destaques ficou também para uma homenagem paralela a carnavalescos já falecidos de Bauru, com o carro “Raízes de um coração carnavalesco”. Foram lembrados Pedro Carrara (Rei Momo do Carnaval de 2012), além de Zizo Romagnolli, carnavalesco que foi bastante presente na Vila Falcão, Dona Mariquinha, Paulo Keller, Zé Maria, Laudino de Mattos e outros grandes entusiastas do Carnaval bauruense.


O segundo dia de Carnaval no Sambódromo  enumerou diversos incidentes e imprevistos. Um deles foi a falha em dois carros da Tradição da Zona Leste. O Pé de Varsa também passou um apuro quando uma das alegorias, “Raízes de um Coração Carnavalesco”, perdeu uma de suas rodas e precisou de muita força pra ser empurrado.

 

Curitibana baiana

Desfilando anteontem pelo quarto ano pela escola Azulão do Morro, a artesã Ruth da Conceição Rita Oliveira, 57 anos, entrou, pela primeira vez na avenida, na ala das baianas. Apesar da fantasia pesada, ela conta que o ânimo para atravessar o Sambódromo foi ainda maior que em anos anteriores.


“Já faço parte do Carnaval há 20 anos. Antes, eu ia para Curitiba, onde nasci e tenho parentes, para participar dos desfiles. Mas, como o Carnaval de Bauru cresceu bastante nos últimos anos, abracei o Azulão”, conta ela, que mora no Parque Jaraguá, bairro da escola.

 

Personagens e fantasias marcam o carnaval

Nem mesmo a chuva fina e intermitente desanimou o público presente ao Sambódromo de Bauru e os integrantes dos blocos e escolas de samba que desfilaram na avenida, na noite de ontem. Fantasias coloriram não apenas a passarela do samba, mas também as arquibancadas do Carnaval bauruense, que foi animado por dois blocos, três escolas e um público estimado de 15 mil pessoas, segundo a Polícia Militar (PM).


A festa teve espaço para todas as idades, para a diversidade, para quem gostasse de samba e, principalmente, para quem estivesse disposto a se divertir.

 

Barrigão

Sob os inúmeros babados que compunham a fantasia de baiana da dona de casa Andreza Ribeiro de Oliveira, 22 anos, estava escondido um enorme barrigão de oito meses de gestação. Um mês antes de vir ao mundo, o pequeno José Luiz, assim como a mãe, estreou no Sambódromo de Bauru, durante o desfile da Tradição da Zona Leste, a primeira escola a entrar na avenida na noite de ontem.


“Decidi participar depois de ser convidada por um vizinho. Sempre gostei do Carnaval e venho assistir aos desfiles todos os anos. Agora, resolvi encarar a avenida para marcar este momento importante da minha vida”, diz ela, moradora do Parque Roosevelt, mãe e baiana de primeira viagem.

 

Cosplay


Mesmo sem integrar nenhum bloco ou escola de samba, dois amigos foram ao Sambódromo fantasiados para acompanhar os desfiles.  A vestimenta, um tanto incomum para o mundo do samba, não deixou de despertar curiosidade e admiração do público.


Incorporando a cantora japonesa holográfica Hatsune Miku, a estudante Gabriela Saneti, 15 anos, conta que a personagem faz parte da sua vida há dois anos. “Vou vestida assim aos lugares que tenho vontade. É interessante ver a reação das pessoas”, observa.  


Para o amigo Vitor Augusto Neves de Oliveira, 15 anos, que se vestiu de Harry Potter, cosplay (representação de personagens) tem tudo a ver com o Carnaval. “A mensagem é a mesma: o importante é você ser do jeito que quiser ser”, diz.  

 

Mascote

Com apenas 3 anos de idade, o pequeno Gabriel da Silva Santos esbanjou simpatia na bateria da escola Azulão do Morro, no primeiro dia de desfiles, e voltou ontem ao Sambódromo, com seu repilique, para acompanhar a passagens das demais escolas. Segundo conta a mãe, a bancária Ana Cristina Ignácio da Silva, 51 anos, o menino desfila desde os 2 anos e aprendeu a tocar o instrumento por influência do padrinho, mestre de bateria do extinto bloco Unidos do Samba.


“A nossa família respira Carnaval o ano todo, acompanhamos ensaios de escolas de São Paulo e o Gabriel cresceu no meio disso. Ele tem uma musicalidade muito grande e aprende tudo muito fácil, de ouvido”, diz Ana Cristina, orgulhosa.

Neide Carlos

Malvolta Jr.

O pequeno Gabriel da Silva Santos e os amigos Gabriela Saneti e Vitor Augusto Neves de Oliveira foram atrações a parte no Sambódromo

 

 

 

 

 

Festa em família

Foi a curiosidade do filho Vitor Hugo, 8 anos, que levou a técnica de enfermagem Denise Souza Almeida, 39 anos, ao Sambódromo, ontem. Escolheu a Imperatriz da Bela Vista para estrear na passarela do samba, vestida de hippie, um dos movimentos homenageados pela escola em seu samba-enredo.


“Viemos eu e alguns amigos, com seus filhos, para que as crianças possam descobrir o Carnaval de Bauru, que ficou muito tempo parado. Quando pequena, eu vinha assistir aos desfiles e guardo ótimas lembranças. Quero que esta memória também faça parte da vida do meu filho”, observa.

 

Águia entra vaidosa e imponente


Desde os primórdios, o ser humano preocupa-se com a imagem da vitória. E durante a evolução dos tempos esta preocupação tornou-se uma obrigação na conquista de valores sociais e pessoais, imprimindo estilo para várias culturas, povos e civilizações, que se renderam à vaidade, mudando literalmente o curso da nossa história.


A influência da vaidade na humanidade foi o enredo da escola de samba Águia de Ouro para o Carnaval 2013.  A Águia fechou o Carnaval no Sambódromo com grande estilo, transformando a passarela em um grande espelho, com a temática “Espelho, espelho meu... nesta avenida, existe alguém mais bonita do que eu?”, de autoria do carnavalesco Jorge Santtana, que já passou por agremiações de São Paulo.

O desfile da Águia – que este ano não realizou a tradicional queima de fogos em respeito às vítimas do incêndio em Santa Maria (RS) – foi desenvolvido na pista do Sambódromo em quatro grandes setores – que trabalhou a vaidade do ponto de vista histórico e lendário, dentro da cultura religiosa afro-brasileira, dentro das fábulas infantis e do ponto de vista do “sambista vaidoso”.

Um dos pontos altos ficou para a comissão de frente com os egípcios, que representou o poder e vaidade disseminada por essa civilização na Pérsia e Etiópia.

 

 


 

 

 

 

 

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