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O câncer, a vida e a ideologia do progresso

Adalmir Leonidio
| Tempo de leitura: 3 min

Queria aqui relativizar um pouco o artigo "O câncer, a vida e os clareadores dentários", publicado no dia 4 de fevereiro, na página de Ciências do Jornal da Cidade. O assunto é extenso e até daria uma tese. Mas como ninguém tem tempo nem paciência para controvérsias desta natureza, quero apenas fazer uma leitura diferente da frase que abre o artigo: "O homem vivia 31 anos em 1900: o câncer era raro! Em 2005, facilmente se chegava aos 66, de acordo com a OMS, e o câncer era frequente!". O sentido parece trivial. Mas, lida de uma outra maneira, a frase pode soar cruel, particularmente às famílias de cancerosos: "vive-se mais com câncer". Ou, para quem leu todo o artigo, "vive-se melhor com carcinógenos". Melhor! Acostumados como estamos à crueldade, nada chocante.

Queria então me ater ao "melhor", que não está contido na frase, mas poderia. Voltemos à frase. A comparação é fortuita. Ora, em 1900 facilmente se dizia que o progresso era bom. De fato, tudo levava crer que sim. A economia ainda não nos tinha deixado a dura lição de uma crise. O crescimento daquela época deixaria com inveja qualquer país do centro do capitalismo avançado de hoje. O desemprego estrutural ainda não era uma realidade e muitos acreditavam que os benefícios deste crescimento ainda seriam repartidos para todos. Ademais, quem haveria de contestar os melhoramentos visíveis na saúde e no bem-estar geral. Não por mero acaso apelidou-se esta época de Belle Époque. A legenda oficial do progresso era "cada vez mais", e quanto mais "melhor": mais mercadorias consumíveis, mais publicações científicas, mais anos de vida...

Mas logo vieram a Guerra e a crise de 1929, seguidas dos horrores do fascismo e do exemplo medonho de uma guerra nuclear. E mostraram que esse "mais" tinha necessariamente um limite e, mais que tudo, nem sempre era o "melhor". A euforia inicial logo deu lugar ao medo e à perplexidade. Afinal, o progresso também poderia ser um regresso e a civilização uma barbárie. Então, de algo naturalmente bom, o progresso passou, pouco a pouco, a uma ideia fora de moda. No período pós-guerra, um novo vocabulário foi introduzido no léxico das nações modernas, "desenvolvimento". Uma ideia muito mais descarnada, porque não continha em si nenhuma "qualidade". De fato, os ideólogos do progresso acreditavam que o crescimento da economia e o avanço da ciência era algo intrinsecamente bom e que as pessoas seriam mais felizes com isso. O desenvolvimento, por seu lado, apenas mede números e relações de números, como o demonstra a obsessão atual do PIB (Produto Interno Bruto), agora amolecido pelo IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). Mas as crises ambientais mostraram que tudo isso tem um preço ou um "limite". Então, inventou-se um termo novo, mais elegante e que doravante fará parte de qualquer plataforma de governo, "desenvolvimento sustentável".

Para além de toda esta história lexical, o que parece estar no cerne de tudo isso é que o objetivo da vida humana nas sociedades modernas se tornou, de fato, a expansão das forças produtivas, do capital e da mais valia. Não sejamos ingênuos em acreditar que todo avanço da técnica e da indústria seja em prol de uma vida "melhor" para as pessoas. Por outro lado, qualquer um que conheça um pouco a história da indústria e da ciência moderna sabe do escrúpulo de tudo isso. Não duvido da "boa intenção" ou da ética "individual" dos cientistas, é bom que se diga. Mas é sempre bom lembrar da velha lição dos filósofos da ciência, "não há saber sem poder". Lição trivial para uns, absolutamente obscura para outras.

O autor, Adalmir Leonidio, é professor associado da ESALQ\USP

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