Quioshi Goto |
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José Marcelo Dalmazo confirma que em breve será construído um centro de referência |
No começo do mês, Sandra Maria da Silva, 36 anos, foi degolada no Mary Dota, em Bauru. Grávida de dois meses, a vítima, pelo que o cenário indicava, pode ter sido violentada. Tanto o DNA do feto quanto a constatação do estupro são peças fundamentais desse mistério. Porém, são confirmações que só podem ser realizadas pela Polícia Científica. E elas devem demorar a chegar. Sem laboratórios específicos em Bauru, exames vão para Capital e demoram meses para retornar.
O caso de Sandra é apenas um dos exemplos de investigações importantes que estão na fila aguardando laudos. Conforme o JC apurou, o Instituto de Criminalística (IC) de Bauru não conta com laboratórios específicos de DNA nem de balística.
Este último é um dos mais urgentes. Ele é o responsável por fazer o cruzamento de uma arma suspeita com um projétil encontrado, por exemplo, em um roubo ou homicídio. Hoje, conforme a Polícia Civil, um laudo de balística leva, em média, dois meses para chegar a Bauru. A demora aceitável seria de aproximadamente 15 dias.
Já o DNA demora ainda mais. A família de Fernanda Tripodi que o diga. Após quase dois anos de angústia sem notícias da vendedora, amigos e familiares tiveram que esperar mais cinco meses pelo exame que confirmou se tratar realmente dela.
Esse atraso ocorre justamente pela “viagem” que o exame precisa fazer. Como não há os laboratórios específicos aqui, ele vai para a Capital, onde existe a centralização de muitos casos. “Bauru precisa desta autonomia. Quando falamos de balística e DNA, geralmente envolve crimes graves e que necessitam de maior agilidade. Mandar para São Paulo não é o ideal”, aponta o delegado seccional Marcos Mourão.
O diretor da Polícia Científica de Bauru, José Marcelo Dalmazo, confirma que o IC da cidade não conta com os laboratórios de balística e DNA e que o ideal realmente seria que os exames dessa natureza fossem realizados aqui. Ele, contudo, revela que este cenário deve mudar em breve, com a construção de um centro de referência (leia mais abaixo).
Atualmente, são realizados aqui exames de informática, de documentos, pirataria, peças em geral (até couros de animais) e entorpecentes. “O laboratório de entorpecentes, inclusive, conta com um aparelho de ponta: um cromatógrafo, adquirido em dezembro”, aponta Dalmazo.
Apesar de o maior problema ser realmente a inexistência em Bauru dos laboratórios já citados, há algumas pendências em relação à estrutura existente. No laboratório de entorpecentes, por exemplo, alguns laudos são entregues com relativo atraso. O problema está exatamente na grande demanda que fica a cargo de um número reduzido de funcionários.
12 peritos
Atualmente, o IC de Bauru atende uma área de 19 municípios. Para dar conta de todo o trabalho são 12 peritos criminais.
Desses, seis atuam em campo, o que, levando em conta a área atendida, é ainda mais preocupante. Entre as cidades mais longínquas, há uma distância de aproximadamente 200 quilômetros. Caso ambas necessitem de uma perícia, há uma longa viagem pela frente.
A própria reportagem já presenciou casos em que os peritos demoram horas para chegar à cena do crime.
E a “bola de neve” na demanda só cresce, uma vez que a falta de profissionais atinge todo o Brasil. Para alguns serviços, como é o caso da análise de entorpecentes e contabilidade, o IC de Bauru ainda está atendendo as sedes de Jaú e Lins, o que sobrecarrega ainda mais.
Apesar do contexto, o diretor José Marcelo Dalmazo afirma que a equipe “está dando conta do trabalho”. Ele, todavia, não nega que mais policiais garantiriam um serviço mais tranquilo e com atendimento melhor dos prazos.
Há uma previsão de que novos peritos sejam contratados ainda este ano. Contudo, não é para agora. Já foi realizado o concurso, mas faltam ainda duas etapas da prova e, depois, a preparação na academia, que dura mais três meses. “O que posso dizer é que a polícia vem preparando seus funcionários e se equipando”, conclui o diretor do IC de Bauru.
O lado bom
Se há uma série de carências, pelo menos o IC de Bauru pode ser considerado modelo em um item. Foi o escolhido para a iniciativa pioneira do acionamento eletrônico da perícia.
“Antes, a comunicação era feita por rádio. Isso atrapalhava, pois, muitas vezes, as informações passadas não eram suficientes e o perito não sabia o que priorizar”, conta José Marcelo Dalmazo.
Pelo novo modelo, o policial solicita a perícia, preenche alguns dados rápidos e o envio é feito de forma instantânea a um tablet que fica com os peritos.
Bauru terá centro de referência
Apesar de todas as carências que envolvem o contexto da Polícia Científica, o futuro parece ser otimista. A promessa é de que Bauru tenha um centro que seja referência na área de criminalística.
A revelação foi feita pelo diretor da Polícia Científica de Bauru, José Marcelo Dalmazo. Segundo ele, o anúncio oficial será feito em breve pela superintendência da Polícia Científica. “Cinco cidades foram escolhidas para ter esse centro de referência. Bauru é uma delas. A ideia é justamente promover uma descentralização”.
Dalmazo, porém, não revela o prazo em que o centro de referência será viabilizado. “Esse centro vai ter o laboratório de balística e de DNA, assim como outras estruturas importantes”.
O complexo vai funcionar no novo prédio da Polícia Científica, que será construído entre o Hospital Estadual e o campus da Universidade Estadual Paulista (Unesp).
“É um grande prédio, no qual o investimento gira em torno de R$ 5 milhões. Terá cerca de três mil metros quadrados e abrigará o Instituto de Criminalística (IC) e o Instituto Médico Legal (IML)”.