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Demora em laudos atrasa investigações

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 5 min

Quioshi Goto

José Marcelo Dalmazo confirma que em breve será construído um centro de referência

No começo do mês, Sandra Maria da Silva, 36 anos, foi degolada no Mary Dota, em Bauru. Grávida de dois meses, a vítima, pelo que o cenário indicava, pode ter sido violentada. Tanto o DNA do feto quanto a constatação do estupro são peças fundamentais desse mistério. Porém, são confirmações que só podem ser realizadas pela Polícia Científica. E elas devem demorar a chegar. Sem laboratórios específicos em Bauru, exames vão para Capital e demoram meses para retornar.

O caso de Sandra é apenas um dos exemplos de investigações importantes que estão na fila aguardando laudos. Conforme o JC apurou, o Instituto de Criminalística (IC) de Bauru não conta com laboratórios específicos de DNA nem de balística.

Este último é um dos mais urgentes. Ele é o responsável por fazer o cruzamento de uma arma suspeita com um projétil encontrado, por exemplo, em um roubo ou homicídio. Hoje, conforme a Polícia Civil, um laudo de balística leva, em média, dois meses para chegar a Bauru. A demora aceitável seria de aproximadamente 15 dias.

Já o DNA demora ainda mais. A família de Fernanda Tripodi que o diga. Após quase dois anos de angústia sem notícias da vendedora, amigos e familiares tiveram que esperar mais cinco meses pelo exame que confirmou se tratar realmente dela.

Esse atraso ocorre justamente pela “viagem” que o exame precisa fazer. Como não há os laboratórios específicos aqui, ele vai para a Capital, onde existe a centralização de muitos casos. “Bauru precisa desta autonomia. Quando falamos de balística e DNA, geralmente envolve crimes graves e que necessitam de maior agilidade. Mandar para São Paulo não é o ideal”, aponta o delegado seccional Marcos Mourão.

O diretor da Polícia Científica de Bauru, José Marcelo Dalmazo, confirma que o IC da cidade não conta com os laboratórios de balística e DNA e que o ideal realmente seria que os exames dessa natureza fossem realizados aqui. Ele, contudo, revela que este cenário deve mudar em breve, com a construção de um centro de referência (leia mais abaixo).

Atualmente, são realizados aqui exames de informática, de documentos, pirataria, peças em geral (até couros de animais) e entorpecentes. “O laboratório de entorpecentes, inclusive, conta com um aparelho de ponta: um cromatógrafo, adquirido em dezembro”, aponta Dalmazo.

Apesar de o maior problema ser realmente a inexistência em Bauru dos laboratórios já citados, há algumas pendências em relação à estrutura existente. No laboratório de entorpecentes, por exemplo, alguns laudos são entregues com relativo atraso. O problema está exatamente na grande demanda que fica a cargo de um número reduzido de funcionários.


12 peritos

Atualmente, o IC de Bauru atende uma área de 19 municípios. Para dar conta de todo o trabalho são 12 peritos criminais.

Desses, seis atuam em campo, o que, levando em conta a área atendida, é ainda mais preocupante. Entre as cidades mais longínquas, há uma distância de aproximadamente 200 quilômetros. Caso ambas necessitem de uma perícia, há uma longa viagem pela frente.

A própria reportagem já presenciou casos em que os peritos demoram horas para chegar à cena do crime.

E a “bola de neve” na demanda só cresce, uma vez que a falta de profissionais atinge todo o Brasil. Para alguns serviços, como é o caso da análise de entorpecentes e contabilidade, o IC de Bauru ainda está atendendo as sedes de Jaú e Lins, o que sobrecarrega ainda mais.

Apesar do contexto, o diretor José Marcelo Dalmazo afirma que a equipe “está dando conta do trabalho”. Ele, todavia, não nega que mais policiais garantiriam um serviço mais tranquilo e com atendimento melhor dos prazos.

Há uma previsão de que novos peritos sejam contratados ainda este ano. Contudo, não é para agora. Já foi realizado o concurso, mas faltam ainda duas etapas da prova e, depois, a preparação na academia, que dura mais três meses. “O que posso dizer é que a polícia vem preparando seus funcionários e se equipando”, conclui o diretor do IC de Bauru.


O lado bom

Se há uma série de carências, pelo menos o IC de Bauru pode ser considerado modelo em um item. Foi o escolhido para a iniciativa pioneira do acionamento eletrônico da perícia.

“Antes, a comunicação era feita por rádio. Isso atrapalhava, pois, muitas vezes, as informações passadas não eram suficientes e o perito não sabia o que priorizar”, conta José Marcelo Dalmazo.

Pelo novo modelo, o policial solicita a perícia, preenche alguns dados rápidos e o envio é feito de forma instantânea a um tablet que fica com os peritos.

 

Bauru terá centro de referência

Apesar de todas as carências que envolvem o contexto da Polícia Científica, o futuro parece ser otimista. A promessa é de que Bauru tenha um centro que seja referência na área de criminalística.

A revelação foi feita pelo diretor da Polícia Científica de Bauru, José Marcelo Dalmazo. Segundo ele, o anúncio oficial será feito em breve pela superintendência da Polícia Científica. “Cinco cidades foram escolhidas para ter esse centro de referência. Bauru é uma delas. A ideia é justamente promover uma descentralização”.

Dalmazo, porém, não revela o prazo em que o centro de referência será viabilizado. “Esse centro vai ter o laboratório de balística e de DNA, assim como outras estruturas importantes”.

O complexo vai funcionar no novo prédio da Polícia Científica, que será construído entre o Hospital Estadual e o campus da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

“É um grande prédio, no qual o investimento gira em torno de R$ 5 milhões. Terá cerca de três mil metros quadrados e abrigará o Instituto de Criminalística (IC) e o Instituto Médico Legal (IML)”.

 

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