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Reduzir os atritos

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 2 min

A tarefa de conter a inflação não pode depender apenas da política monetária do governo. Por mais importante que seja a ação do Banco Central, controlar a inflação é um objetivo que precisa do apoio da sociedade para a aprovação das reformas microeconômicas que vão ajudar a reduzir os atritos que a estimulam e que permitirão aumentar a produtividade. Medidas, por exemplo, como a expansão rápida do ensino profissionalizante entre nós e uma urgente ordenação das regras de imigração para atrair profissionais preparados para ajudar o desenvolvimento do país.

É importante compreender que o processo inflacionário é, simultaneamente, causa e efeito da redistribuição das rendas. No fundo é a imagem invertida no espelho do nível de produtividade da economia que cresce na medida em que se reduzem os "atritos" que a produzem. A redução da taxa de inflação brasileira que há oito anos permanece em torno de 5,2% ao ano e que, como em todos os países com "metas inflacionárias" com bandas namora o seu teto, não é, obviamente, tarefa apenas do Banco Central. É missão que envolve o aumento da eficiência da economia, apoiado em reformas promovidas pelo governo e defendidas pela sociedade.

Um mercado de trabalho bem organizado que respeita os direitos constitucionais dos trabalhadores, onde a livre negociação salarial dentro da empresa (não do setor), sob as vistas de uma comissão de fábrica eleita, pretere os efeitos acumulados pelo corporativismo ao longo dos anos, torna-se poderoso instrumento para o aumento da "produtividade" do trabalho e, simultaneamente, para a redução dos atritos que se dissipam como pressões inflacionárias.

Relaciono alguns desses atritos, produzidos: 1. Pelas tremendas deficiências da infraestrutura; 2. Pela demora em ajustar as demandas setoriais com as respectivas ofertas (tais como choques de oferta, mudanças de hábitos de consumo); 3. Pelos obstáculos institucionais e políticos que retardam os ajustes de oferta dos insumos básicos; 4. Pelos exageros do poder incumbente quando se entrega ao voluntarismo populista que ignora as restrições físicas impostas pelas identidades da Contabilidade Nacional; 5. Pelos próprios governos quando tentam proteger suas receitas da própria inflação que estão criando, recorrendo à indexação automática de impostos, preços, tarifas ou salários; e 6. Quando os salários reais crescem acima da produtividade física do trabalho.

Sintetizando, quando há um desajuste entre a disponibilidade da mão de obra e suas habilidades com relação às necessidades da economia, é extremamente custoso corrigi-lo cortando a demanda global pela política monetária. São necessárias medidas estruturais que aumentem rapidamente a oferta e a qualidade da mão de obra: mais educação profissional e melhores estímulos à imigração de profissionais que já estão preparados e procuram trabalho, especialmente no continente europeu!

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC

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