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"Da cruz não se desce"

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Para os católicos do meu tempo de Catecismo, a renúncia do Papa Bento XVI foi um ato dessacralizador. Causa angústia. Sou da época em que o Papa era apresentado aos catecúmenos como "infalível" em matéria de fé, porque agia sob as luzes do Espírito Santo. Não sei se esta abdicação papal entra na infalibilidade. Somos apenas instrumentos da vontade de Deus, mas isto não nos livra de cometer equívocos. De alguma forma, a renúncia do Papa humaniza uma figura que durante séculos esteve além do bem e do mal, segundo os teólogos. No século XVIII era chamado de vice-deus. "Da cruz não se desce", disse João Paulo II. Ele quis dizer que só se abandona a cadeira de Pedro para passar ao reino dos céus. Bento XVI, a partir do dia 28 converter-se-á em primeiro ex-papa da história moderna.

A Igreja Católica é uma instituição poderosa, com 1 bilhão e 200 milhões de fieis, 5 mil bispos, 412 mil sacerdotes e 721 mil religiosas. Com grandes ONG, como a Cáritas, que prestam assistência a milhões de necessitados em todo o mundo. Mesmo assim continua uma instituição pobre. Só a Igreja Universal, do bispo Edir Macedo, tem um terço do dinheiro acumulado em séculos pelo Vaticano, grande parte vinda do acordo com Mussolini pela cessão de territórios.

Bento XVI é muito conservador para dirigir a grande guinada que toda organização precisa, em um mundo dominado pela tecnologia. Houve tentativas, até patéticas, de apresentá-lo como um papa moderno. O Vaticano abriu uma conta no Twitter, em seu nome. Um contrassenso tratando-se de quem ainda redige à mão seus livros, discursos e documentos. Nestes oito anos o papa manteve-se fiel à doutrina social e moral da igreja defendida pelos seus antecessores. Pode ser resumida em alguns pontos básicos: condena o aborto e a eutanásia, rechaça a homossexualidade como livre opção sexual, condena as pesquisas com células tronco, repele o uso do preservativo. Essas posições se chocam de frente com a realidade de um mundo onde os governos aprovam, uma atrás das outras, leis favoráveis ao casamento gay e dão início ao debate sobre o direito a uma morte digna.

Quando cardeal Joseph Ratzinger, em 1985, no cargo de prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, herdeira da velha Santa Inquisição, condenou "ao silêncio" o brasileiro Leonardo Boff, autor da Teologia da Libertação. Seu livro "Igreja, Carisma e Poder" foi considerado herético. Boff deixou o sacerdócio, mas segue na igreja que era dos pobres, endemoniados e leprosos. Para o ex-frei da Ordem dos Franciscanos Menores, o desafio não é criar cristãos, mas pessoas honestas, humanas, solidárias, compassivas, respeitosas da natureza dos outros. "Esse é o sonho realizado de Jesus". Agora, Bento XVI volta a ser Ratzinger, e ele é o condenado ao silêncio.

Na sua renúncia, Bento XVI parece ter se inspirado em Celestino V, o único de quem se pode falar que abdicou espontaneamente na condição de papa legítimo. Havia três papas, antes de 1294. Suas relíquias estão na Basílica de Aquila, na Itália, cidade destruída por um terremoto em 2009. Bento XVI deixou sobre o altar a estola que levou nos ombros no momento da sua sagração. Antes de ser coroado Celestino V, Pedro Morrone era um conhecido eremita que vivia numa caverna a mil pés de altura, nos Apeninos.

O ambiente de licenciosidade em Roma o constrangia. Transferiu-se para Nápoles. Os cardeais logo perceberam o erro de elegê-lo, quando começou a doar os bens da Igreja ? para os pobres. Ele não tinha a menor tolerância com a corrupção e a simonia (venda de indulgências e sacramentos). Mandou fazer uma humilde choupana para morar, dentro dos imensos salões de Castelo Novo, o palácio de cinco torres que domina toda a baía de Nápoles. Rogou aos cardeais que expulsassem suas amantes e passassem a viver na pobreza de Jesus. Então, como exemplo, Celestino tirou seus paramentos, vestiu seus rudes andrajos de eremita, renunciou e foi embora, como Jesus, em um jumento.

Seguindo o gesto de Clemente V, o papa Bento XVI volta a ser Joseph Alois Ratzinger para viver atrás dos muros a estudar e a rezar. São atitudes simples para se buscar a Deus. O homem que queria encontrar respostas para as grandes questões da nossa existência, sem ferir seus princípios morais, éticos e cristãos vai se recolher ao silêncio. Quem sabe, na paz de um mosteiro perceba melhor a voz de Deus.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC

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