Neide Carlos |
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Dom Caetano Ferrari explica que preceitos devem ser contextualizados |
“Oração, jejum e esmola”. Tradicionalmente, são esses os três pontos essenciais do culto católico no período da Quaresma, que começa na Quarta-feira de Cinzas e termina na Quinta-feira Santa. O período é marcado pelo recolhimento e penitência para a religião. No entanto, mesmo os fieis mais devotos têm procurado formas diferentes de vivenciar a fé durante esses quarenta dias. Dentre os três pilares da Quaresma, é para o jejum que são apresentadas as alternativas mais diferentes para demonstração da fé.
O bispo da diocese de Bauru, dom Caetano Ferrari, conta que, já há muitos anos, diferentemente do que acontecia, a Igreja pede a renúncia da carne e de uma das refeições do dia apenas para a quarta-feira depois do Carnaval e para a Sexta-feira da Paixão. “São símbolos”, pontua o religioso.
Funcionários de um açougue visitado pelo Jornal da Cidade relatam que ainda sentem uma leve queda na venda de carnes durante a Quaresma, mas o comportamento dos fieis mais devotos é pouco sentido, diferentemente do que acontecia há cerca de 10 anos.
O bispo lembra que os três exercícios que marcam a Quaresma são preceitos do Antigo Testamento da Bíblia e precisam ser adaptados para os tempos contemporâneos.
“No caso do jejum, os fieis são convidados a algum exercício de disciplina. Desde crianças, nós precisamos dela para o trabalho, para os estudos, para o comportamento moral e ético”, explica.
Dessa forma, dom Caetano afirma que a Quaresma é o período ideal para que os católicos busquem o equilíbrio. “Se a pessoa é relaxada na bebida, pode parar de tomar cerveja todos os dias e deixar este hábito só para os finais de semana. O mesmo vale para o cigarro e para as sobremesas, por exemplo”.
Os fieis mais jovens já seguem essa tendência. O estudante Dhiones Rodrigues, 20 anos, participa de movimentos da juventude ligados à Igreja Católica e leva a Quaresma bastante a sério. “É um tempo para a gente se voltar mais para o interior”, comenta.
Neste ano, ele, que adora refrigerantes, abdicou da bebida por 40 dias. “Hoje em dia, a gente toma refrigerante todos os dias, então é uma tarefa bastante difícil. A carne eu deixo de comer só na Sexta Santa e na Quarta de Cinzas”.
Muito além
A dona de casa Maria Elisa Moretto Mendes, 65 anos, é de uma tradicional família católica. “Minha avó ficava até sem pentear o cabelo na Sexta-Feira Santa. Ela não deixava a gente se olhar no espelho e a comida, sem carne, era só para matar a fome. Não tinha essa história de bacalhau”.
Apesar da criação religiosa rígida, na Quaresma Elisa prioriza a oração e a esmola. “Só não como carne nos dois dias que a Igreja pede. Não adianta deixar de fazer alguma coisa se você fala mal de um irmão ou julga as pessoas. O importante mesmo é fazer o bem”, acredita.
Ela conta que faz seu retiro quaresmal dentro da própria casa, intensificando as orações e leituras bíblicas, com base em um livro de autoria de Dom Alberto Tavera. “Também procuro fazer mais visita as enfermos. A gente tem que ter atitudes assim o ano todo, mas a Quaresma é muito especial e forte para a gente”, explica.
No mesmo sentido, Dom Caetano Ferrari explica que a esmola não deve se restringir a doação de dinheiro a pessoas pobres na rua. “A esmola é a solidariedade a todos que sofrem. Não são apenas os pobres. Todos nós sofremos e a caridade é uma das principais mensagens de Jesus Cristo”, explica.
Tradicional
Apesar de muito jovem, a estudante Joice Fernanda Pereira, 20 anos, valoriza as tradições mais antigas. Mesmo comendo muita carne normalmente, ela retirou este tipo de alimento de sua dieta durante toda a Quaresma. “Esse é um momento para a gente se guardar, com muito jejum, fazendo sacrifícios para reforçar esse momento”.
Essa não é, porém, a única penitência de Joice até a Semana Santa. Por conta de sua ansiedade, ela sofre do vício de roer unhas, mas está lutando para parar. “Me faz mal e eu não estou fazendo mais isso”, garante.
Segundo a garota, parte de sua família também opta por fazer renúncias durante o período quaresmal, o que lhe dá ainda mais estímulo para resistir às tentações.
Campanha da Fraternidade
Na manhã de ontem, foi aberta oficialmente a Campanha da Fraternidade de 2013, durante missa na Catedral do Divino Espírito Santo, celebrada pelo bispo dom Caetano Ferrari. Participaram do ato representantes das 41 paróquias que compõem a diocese, abrangendo Bauru e outros 13 municípios. O tema deste ano é “Fraternidade e Juventude”.
O Setor Juventude da Diocese de Bauru lançou um site para auxiliar na interação e na articulação dos diversos segmentos que atuam na evangelização juvenil. Além de serem o tema da Campanha da Fraternidade, os jovens católicos se preparam para a Jornada Mundial da Juventude, que acontecerá de 23 a 28 de julho, no Rio de Janeiro.
No encontro, quando são aguardados 4 milhões de peregrinos do mundo todo para atividades missionárias, de evangelização e oração, especialmente durante a vigília e a missa com o novo papa, ainda a ser nomeado em substituição ao papa Bento 16, que renunciou ao cargo na semana passada.
Período é vivenciado apenas por católicos
A Quaresma é o período de preparação para o principal mistério da fé cristã: a morte e a ressurreição de Jesus Cristo. Este culto, porém, não é vivenciado por outras religiões que, como o Catolicismo, têm o cristianismo como base.
Presidente do Conselho de Pastores de Bauru e Região, Ubiratan Cássio Sanche diz que os evangélicos não fazem o resguardo da Quaresma. “É um período católico. Nós também jejuamos, mas isso acontece por diversas vezes durante o ano”.
Já a Semana Santa, segundo Ubiratan, é celebrada pelos evangélicos. “A gente se preocupa com as datas, mas não há a orientação para deixar de comer carne. Eu mesmo como, mas não posso menosprezar quem achar que não deva”, explica.
O Espiritismo, por sua vez, não celebra essas datas. “São festas e celebrações restritamente católicas, embora tenhamos no Evangelho a base de nossas convicções morais”, pontua o diretor do Centro Espírita Amor e Caridade (Ceac), Richard Simonetti.
O conferencista explica que sua religião não tem ritos nem rezas e foca a interpretação racional do Evangelho. “A única comemoração que fazemos é a do Natal. Mesmo sabendo que Cristo não nasceu em 25 de dezembro, essa virou uma data consagrada e universal”, afirma.