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Juros no Brasil: o gato subiu no telhado

Reinaldo Cafeo
| Tempo de leitura: 3 min

O Banco Central trava uma verdadeira batalha com o mercado. De um lado passa a impressão que prepara o terreno para anunciar aumento da taxa básica de juros na próxima reunião do Comitê de Política Monetária que será na primeira semana de março, de outro lado tenta acalmar o mercado mencionando que não há por que se preocupar à medida que a inflação está sob controle. Na prática não há este controle todo. O índice de inflação de janeiro veio carregado: ficou em 0,86%. Como o governo opera com o regime de metas de inflação, e isso quer dizer monitorar o índice projetando 12 meses, o índice aponta para um patamar muito próximo do limite máximo que é de 6,5% ao ano. O mercado já precificou isso. Os juros futuros subiram. O governo terá que se desdobrar para não se render a necessidade de elevação dos juros para controlar a inflação.

Tenta com dólar baixo reduzir a pressão sobre os custos. Tenta ainda conter a escalada de aumentos dos alguns serviços públicos, como tarifas de ônibus em importantes capitais, negociando o melhor momento para a elevação destes preços. Aumentou o preço do combustível, mas tenta compensar este impacto com a queda do custo da energia elétrica. Agora fala em estoques reguladores. Observem que coloco "tenta" porque na prática estas ações estão sendo implementadas para combater o efeito dos aumentos de preços, sem atacar a causa raiz, ou seja, são medidas paliativas, de curto prazo.

No contexto macroeconômico é possível desarmar a necessidade de monitoramento da inflação via política monetária. Para que isso seja consistente é preciso ter firmeza na condução da política fiscal e ampliar fortemente a oferta de produtos. Isso quer dizer que o governo deve gastar com qualidade, canalizando recursos para investimentos, cortando gastos em custeio. Se isso for feito, a política monetária, e mais especificamente a mexida nos juros, pode ser flexibilizada.

O atual governo não fez isso. É verdade que o cenário externo prejudicou sobremaneira a arrecadação tributária, quer pela renúncia fiscal, quer pela própria queda do nível de atividade econômica, mas é verdade também que está faltando firmeza na condução da economia nacional. Há sinais claros de ingerência no Banco Central por parte do Planalto. O Banco Central que deveria neste momento partir da independência total, sequer consegue ser autônomo. Isso tudo abre margem a especulação, por sinal, a especulação é o principal combustível de quem quer ver o circo pegar fogo. Será que o Banco Central vai jurar que juro não subirá? A leitura é que com tudo que está especulado no mercado, o governo pavimentou o terreno até para mudar o discurso sobre os juros no Brasil. Quando não queremos dar a notícia ruim de forma direta, começamos falando que o gato subiu no telhado, até que chegar à notícia efetiva. Então, no caso dos juros no Brasil, o gato subiu no telhado.

O autor, Reinaldo Cafeo, é economista, presidente da Acib, diretor do Corecon e articulista do JC

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