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Escuridão no paraíso

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

A hidrelétrica de Itaipu no rio Paraná, que começou a operar em 1984, é responsável pela geração de 17% da energia consumida hoje no Brasil. Suas turbinas produzem entre 90 e 94 milhões de MWh, anualmente, uma oferta de energia superior à usina chinesa de Três Gargantas, a maior do mundo em capacidade de geração, mas cujo recorde de fornecimento foi de 79,5 milhões de MWh em 2009, atrás do recorde da nossa Itaipú que gerou 94,6 milhões de MWh em 2008.

Quando se discutia a construção da barragem, nos anos 70 do século passado, no trecho do rio que separa Brasil e Paraguai, muitas pessoas de boa fé - e um número maior de ativistas sem nenhuma fé - temiam a degradação da rica natureza numa das regiões mais belas e interessantes do mundo, (era o "último paraíso terrestre"!),com prejuízos irreparáveis para a flora e a fauna". E apontavam "custos sociais intoleráveis" devido ao deslocamento de uma população de aproximadamente 25 mil pessoas que vivia nas áreas que seriam tomadas pela formação do lago após a conclusão da barragem.

A renda do turismo na região seria gravemente afetada, pois se imaginava que o volume das águas das famosas Quedas do Iguaçu poderia ser dramaticamente reduzido. Na verdade uma bobagem, fruto do desconhecimento da localização correta das cataratas, à jusante da barragem do Paraná... Hoje, a imensa barragem e os equipamentos de geração da usina constituem atração turística que rivaliza com as visitas às Quedas do Iguaçu que, muito justificadamente, foram eleitas uma das Sete Maravilhas da natureza universal. E mais ainda, o grande lago que se formou desmente as "profecias" de eliminação da piscicultura nos rios da bacia do Paraná, já que é de suas águas que saem hoje toneladas de peixe de captura esportiva e dos criatórios de espécimes valorizadas, como os pacús naturais do pantanal mato-grossense.

Nessas quatro décadas que se sucederam à construção da hidrelétrica, ficou demonstrado que os "prejuízos" ao meio ambiente regional e os "custos sociais" derivados da produção da energia, na realidade são benefícios: de uma população de aproximadamente 40 mil pessoas no início da década dos 70, o município de Foz do Iguaçu conta hoje com 260 mil residentes cuja renda anual per capita (entre 21 mil e 22 mil reais em 2010) é 25% superior à média brasileira. Futuro semelhante se espera para a região do extremo oeste brasileiro, com a operação das hidrelétricas de Jiráu e Santo Antonio, no rio Madeira, que começam a gerar energia já a partir de 2013, impulsionando principalmente o desenvolvimento de Rondônia e Acre. Num horizonte de três a quatro anos o mesmo processo de desenvolvimento se dará a partir da região paraense de Altamira, no coração da Amazônia, com o término da construção da hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingú.

Por ora ainda se repetem tentativas alienígenas de retardar a expansão da matriz energética brasileira, a pretexto de proteger "o último paraíso terrestre", mantendo-o no escurinho, certamente; aos poucos, no entanto, se vai reconhecendo que, além de ser a mais limpa de todas e de ter o maior potencial hidrelétrico já catalogado, é seguramente a que oferece a maior diversidade de origens não poluentes e de melhor impacto ambiental positivo em todo o Universo.

O autor, Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC

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