Douglas Reis |
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Viegas: a utilização de células-tronco adultas tem alta eficácia no combate a doenças |
Reconstruir e prevenir. Essas são as premissas tanto de estudos quanto coleta e armazenamento de material genético em Bauru. Desde pesquisas no campo acadêmico em vista à reconstituição óssea ou preservação de sangue coletado em cordão umbilical, o trabalho com células-tronco adultas é promessa de cura, até mesmo para tratamentos ainda em estudo.
Especificamente na Universidade Sagrado Coração (USC), pesquisadores utilizam as células de polpa de dente de leite (decíduo), com vista a eventuais processos regeneradores no futuro. “Trabalhamos em colaboração com o doutor Ricardo Ribeiro dos Santos, do Hospital São Rafael, de Salvador (BA), o pioneiro nessa área da terapia celular no Brasil”, credita o professor geneticista Spencer Luiz Marques Payão
Entre os projetos envolvendo alunos da graduação, pós e professores, é avaliada a regeneração óssea. “Abordamos a avaliação da regeneração óssea em crânio de coelhos. Na área da Odontologia, temos um projeto amplo envolvendo a regeneração de algumas estruturas de sustentação em dentes de ratos que são extraídos e reintroduzidos no alvéolo dentário, após o tratamento deste com células-tronco”, explica.
“Os resultados são preliminares, porém bastante animadores”, considera.
Cura pelo umbigo
O armazenamento de células-tronco adultas, retiradas do sangue do cordão umbilical em recém-nascidos, ganha mais adeptos. O procedimento, antes restrito e até visto com olhar de reprovação, pela confusão com as polêmicas pesquisas com células-tronco embrionárias (leia ao lado a distinção com as adultas), está mais comum e acessível.
A medicina regenerativa, com perspectiva de tratamentos futuros, especialmente sobre doenças que afligem o sistema hematológico, incentiva famílias a retirar o sangue do cordão umbilical e armazená-lo em bancos específicos, entre eles deles o Banco de Cordão Umbilical (BCU), com filial em Bauru.
Capaz de auxiliar no tratamento de mais de 80 doenças, enaltece Ricardo Viegas, diretor do banco de cordão umbilical na cidade, a utilização de células-tronco adultas tem alta eficácia no combate a doenças hematológicas malignas, como linfomas ou leucemias. Outras 200 patologias e respectivo tratamento por meio destas células, observa, estão em estudo.
Apesar de ainda tímida, a adesão de famílias, incluindo das classes B e C, salienta ele, já e maior, inclusive no interior. Em todo o país, de acordo com assessoria nacional do BCU, a quantidade de famílias que armazenaram as células-tronco de seus filhos, em 2012, é 12% maior do que no ano retrasado.
Os dados referem-se apenas ao armazenamento privado e nesta instituição, ressalva o representante local do centro de coleta e conservação celular. O procedimento, revela, é rápido e indolor. “Requer apenas agilidade, pois tem de ser, obrigatoriamente, na hora do parto”, detalha Viegas, que fundou a filial em Bauru há três anos.
Ele compara o armazenamento de células-tronco adultas a um “coringa”. A carta na manga, entretanto, não é de utilização desejada. É mais uma forma de precaução, define. Se necessário, contudo, e conforme o andar das pesquisas, incentiva, o procedimento pode salvar vidas, incluindo sobre doenças cujo tratamento ainda não é conhecido ou difundido. “É igual a um seguro de carro ou de vida. Ninguém quer usar, mas a apólice é necessária”, compara.
Seguro genético
Famílias da região já apostam neste formato de prevenção e tratamentos para seus descendentes e até mesmo de gerações anteriores, caso haja compatibilidade. Esse é o pensamento do empresário Nicolas Francisco de Godoy, de Lençóis Paulista.
Assim que o filho Vinícius, hoje com 1 ano e 7 meses, nasceu, ele não pensou duas vezes em aderir ao “seguro celular”. “Soubemos desta possibilidade através da Internet e fechamos o contrato. É uma segurança, a gente paga, mas espera nunca usar”, frisa, considerando o investimento baixo em vista ao esteio proporcionado. “Vale a pena”, recomenda.
O mesmo fez a comerciante Eliane Orsi, que optou pelo congelamento do sangue retirado do cordão umbilical no parto de sua segunda filha, Antonella, nascida há dois anos. “Vai saber o que existirá no futuro, talvez até alguma vacina. Não ficamos na expectativa de doenças, mas também de boas novas. As pesquisas e medicina estão cada vez mais avançados”, vislumbra.
Células puras
Até poucos anos atrás, salienta a médica técnica responsável pela instituição, Adriana Homem, o sangue do cordão umbilical era totalmente descartado. “O aumento da busca de famílias pela armazenagem de células-tronco é bastante expressivo”, considera.
Adultas e livres de impurezas (medicamento, estresse, entre outras formas), as células-tronco do cordão umbilical, observa ela, podem ser congeladas por tempo indeterminado e não perdem as propriedades terapêuticas. Elas podem permanecer tanto em bancos públicos, quanto instituições privadas.
O procedimento, atesta o geneticista Spencer Luiz Marques, está mais comum. “A perspectiva de armazenamento é como uma perspectiva terapêutica futura para o tratamento de algumas doenças com essas células-tronco”, conceitua.
Professor pesquisador da Universidade Sagrado Coração (USC) e diretor de pós-graduação na Faculdade de Medicina de Marília (Famema), Marques, contudo, discorda do conceito de “seguridade”. “Não trata-se de um ‘seguro de vida’, e sim mais uma perspectiva de tratamento futuro”, diferencia o acadêmico.
A coleta do sangue do cordão umbilical, estima o pesquisador, varia entre R$ 3,4 mil e R$ 6 mil. O procedimento vai da coleta do sangue no cordão umbilical, armazenamento por um ano e realização de testes laboratoriais específicos. “Decorrido esse um ano o contrato estabelece um valor aproximadamente 10% por ano. Isso se refere aos bancos privados onde os pais têm a guarda do material e podem autorizar o uso para qualquer membro da família, desde que tenha compatibilidade”, esclarece o geneticista.
Embrionárias x adultas
As células-tronco de sangue de cordão umbilical, explica o geneticista Spencer Luiz Marques Payão, da Universidade Sagrado Coração (USC), são classificadas como adultas jovens, sem marcas por ação do tempo.
Diferentemente delas, as células-tronco embrionárias, acrescenta o professor doutor, são aquelas encontradas nas primeiras divisões do embrião (cerca de 72 horas após a fecundação - união do óvulo com o espermatozoide).
As células-tronco adultas, explica o geneticista, são encontradas em diversos locais do corpo, como medula óssea, sangue ou tecido adiposo.
Sobre o “maior poder” do polêmico uso das células dos embriões, o pesquisador explica que as mesmas teriam mais possibilidades de divisão para todos os tipos celulares do organismo. Contudo, pondera o estudioso, podem gerar tumores.
“Os pacientes que as receberão podem apresentar rejeição de tais células por meio da ausência de identidade imunológica”, adverte.