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Cidade de muros!

José Xaides de Sampaio Alves
| Tempo de leitura: 4 min

"Vendem-se Muros!" Muros altos, muros eletrificados, muros cinzas, longos muros...Muros caros! Visíveis e invisíveis! As cidades no Brasil nasceram sem muros, num período em que a civilização já superava a "barbárie" e as "cidades fortificadas" desapareciam. Conquistamos o direito de ir e vir por ruas e espaços públicos abertos e livres, a socialização era natural, valores que fizeram parte da evolução "civilizatória" e da democracia. Hoje, há um retrocesso drástico da paisagem humana e urbana! Vêem-se agora ruas fortificadas, corredores enfadonhos ? quase túneis, onde se perde o desejo de parar, andar, conversar e foge-se para esconder por detrás de muros... Dos condomínios, dos shoppings e tantos outros muros interiores. O direito de observação livre da vida e a beleza da cidade também foram privatizados.

Em nossas cidades, os pontos de encontros, rezas, festas e socialização se davam nas ruas, praças e largos; espaços que acolhiam diversificadas classes sociais, e onde também situavam os edifícios públicos: no Brasil colonial foram capelas, matrizes, conventos, seminários, bispados, a casa de Câmara e Cadeia e o Pelourinho ? como em São Luiz do Paraitinga SP, Ouro Preto MG, Olinda PE etc. No Império surgiram estações ferroviárias, teatros, museus. Com a República chega a Escola Pública, mais estações ferroviárias, edifícios administrativos, aeroportos, bibliotecas e outros; a cidade se tornou mais laica! ? Vale conhecer Belo Horizonte e sua "Praça da Liberdade", inauguradas em 1896 para marcar os sonhos republicanos por liberdade e igualdade; Brasília trouxe outras utopias.

Há marcas em Bauru desta história. No início teve casas sem recuos com janelas abertas à rua, como na Araújo Leite; Praças abertas, com edifícios públicos movimentados como a Rui Barbosa e Machado de Melo. Suas generosas e democráticas "quadras quadradas? orientaram o desenho urbano a partir do Centro até cerca de 1980, sendo uma síntese de um urbanismo que racionalizou o sistema viário e as infra-estruturas públicas. Tendo dimensões de 88 metros de lado, ofereciam lotes para várias classes sociais com 11m x 22m, 11m x 33m e 11 x 44m e outras combinações. Seus "miolos de quadras" puderam ser socializados. Eram ruas, quadras e lotes onde as diferenças sociais e arquitetônicas conviviam lado a lado, dando coesão social ao tecido urbano - não segregavam! Depois da aprovação do Jd. Estoril 2, os muros sociais e físicos foram mais aguçados e levantados pelo marketing imobiliário.

No urbanismo moderno a "verticalização" permitiu liberar o solo, obter mais áreas verdes e espaços públicos, otimizar as infra-estruturas, melhorar o adensamento. Ela teve regras de contrapartidas discutidas no Brasil desde 1976 na "Carta de Embu" - conceito de "Solo Criado" contemplado na Lei 6766/79. Poucas cidades aplicaram-no como Curitiba. Em Bauru, depois de avançada discussão social em 1995, o projeto denominado de "Permuta de Benefícios" foi "engavetado". Hoje, a lei 10257/2001 obriga estas regras, mas os poderes públicos se "omitem". A "verticalização" em Bauru surgiu generosa e teve como ícone o edifício Brasil-Portugal, dele já escrevi no passado e fui autor do parecer para seu tombamento no Comdepac. Foi um projeto da década de 60 do arquiteto Fernando Pinho. Nele, o autor criou apartamentos para várias classes de renda, com um, dois e três dormitórios, com espaços generosos e concepção estética, funcional e construtiva ainda referenciais.

Vive-se hoje, um tempo de muros! Pregam-se valores sociais menos generosos ? mais individualistas, muros invisíveis que geram muros físicos! Importam-se modelos de "cidades fortificadas" com entradas a lembrar "simulacros" de portões de castelos ? a "Anticidade" democrática. Esta aculturação é ditada pelo "esperto" marketing imobiliário para explorar os ditos "nichos de mercado". Lucram-se milhões pregando a segregação social, separando os mais ricos, da classe média e os mais pobres no território urbano com seus modelos classistas de arquitetura ? horizontais e verticais. Exploram-se em excesso e sem contrapartidas justas o solo urbano. A cidade enche-se de muros! E o mercado capitaliza com sua ética exploratória - tudo vira mercadoria! Mesmo a omissão pública para com a segurança.

A exploração vai além. Apesar dos custos da construção civil ser o mesmo, para um mesmo padrão, independentemente dos bairros da cidade, lucram-se mais através da exploração do "valor simbólico" da segregação social urbana. Como explicar o "valor do metro quadrado" de um apartamento ou casa de classe média, que valeria no máximo 2.000 mil reais, segundo revistas especializadas, ser vendido aqui acima de 5.000 reais? Vendem-se os muros do "status social" e da segregação, um tipo "anticivilizatório" de "Emoções" ? nome de um caríssimo condomínio lançado por um cantor famoso em São Paulo.

Por uma cidade sem muros!

O autor, José Xaides de Sampaio Alves, é professor e pesquisador em planejamento urbano da FAAC/Unesp de Bauru

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