Bairros

Albergue vive ?efeito bumerangue?

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 3 min

Fotos: Éder Azevedo

Festa de comemoração dos 62 anos do Albergue Amor e Caridade, ontem de manhã

Um cartaz com um desenho simples mostrando uma luz ao fim do túnel complementado pela frase “Uma luz, uma gota de esperança para aqueles que acreditam em algo maior”. O trabalho em questão era para ser apenas uma demonstração de gratidão com o Albergue Centro Espírita Amor e Caridade (Ceac) em Bauru, que completou ontem 62 anos de existência na cidade. Mas as poucas e singelas palavras do autor desconhecido demonstraram, sem pretensões, o sentimento da entidade frente aos novos desafios por conta das transformações e das demandas crescentes.

“As autoridades do município e região precisam se unir para traçar uma política de atendimento. Precisamos de uma discussão urgente sobre o fluxo de migração. Por sermos polo regional, recebemos muitas pessoas de

O diretor Uriel de Almeida cobra uma política de

atendimento para a população migrante

regiões mais distantes. Muitos chegam e acabam se somando à população de rua já existente no município, tornando a situação insustentável”, aponta o diretor do albergue, Uriel de Almeida, frisando, entretanto, que a unidade possui problemas com a falta de vagas somente em dias de frio ou no inverno.


Vaivém

O pedreiro Francisco Leonor Ribeiro, 43 anos, é natural de Itaporanga, na Paraíba, e representa bem o perfil de pelo menos 70% dos acolhidos atendidos atualmente pelo albergue. “Vim para trabalhar, mas como furtaram minhas coisas estou sem documento ainda e só faço ‘bicos’”, conta.

Entre “idas e vindas” o “migrante”, que já é considerado bauruense pela entidade, coleciona pernoites por um período de quase dois anos. Tempo que alega estar na cidade por conta da grande oferta de emprego no ramo da construção civil.

“Como ele está na cidade por tanto tempo e vivia pedindo acolhimento, acabamos aceitando ele como usuário de uma vaga permanente até que ele consiga o registro em carteira e um lugar para morar”, aponta Francine Tamos, coordenadora do albergue.

Das 70 vagas existentes para pernoites no albergue, 20 são destinadas a pessoas assim como o pedreiro Francisco, que vieram de longe ou até mesmo de Bauru, mas que romperam vínculos com familiares e pedem, insistentemente, acolhimento para o albergue, desencadeando uma espécie de “efeito bumerangue”.

Apesar de ter como regra o atendimento por um prazo máximo de sete dias, a direção da unidade ressalta o esforço para que as outras 50 vagas não sejam ocupadas por mais tempo do que o determinado.

“Se a pessoa não estiver de passagem e também não conseguir um emprego ou uma moradia por aqui, disponibilizamos a viagem de volta para o município de origem”, explica Francine, enfatizando a dificuldade da instituição tanto em dar destino correto aos acolhidos quanto resgatar os vínculos dos usuários quando são migrantes.

“Enxergamos o problema, mas não temos como agir sem que as autoridades tomem providências. Daqui a pouco chegará o inverno e as vagas não serão suficientes. Você pode ter mil vagas, mas se não tiver uma política quanto ao fluxo migratório de nada adianta”, alerta o diretor do Albergue Centro Espírita Amor e Caridade.


85%

Além do problema com o excesso de usuários migrantes, a direção da entidade aponta os desafios frente ao novo perfil dos acolhidos – 85% deles são usuários de crack ou outras drogas.

“Bauru está crescendo demais e não temos uma política de saúde eficiente para os usuários de drogas. Precisamos de um protocolo de atendimento eficiente. Afinal os gargalos acabam sempre no albergue”, finaliza Uriel de Almeida.

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