No dia 5 de fevereiro, o coordenador da Defesa Civil, Álvaro de Brito, afirmou ao JC: “o risco de incêndio aqui não é pequeno”. Neste domingo (3), pouco menos de um mês depois, as palavras referentes ao Hotel Milanez pareciam proféticas. O local, que ainda abriga moradores, pegou fogo. Por sorte, ninguém se feriu.
O estabelecimento, localizado na quadra 2 da avenida Rodrigues Alves, foi lacrado no começo do mês passado após a realização de uma força-tarefa. O objetivo era vistoriar as casas noturnas irregulares em Bauru.
Após denúncia, o hotel foi vistoriado e ficou constatado que as instalações oferecem riscos à integridade física de quem lá se abriga. O problema ganhou contornos mais nítidos, uma vez que a Secretaria Municipal do Bem Estar-Social (Sebes) encaminhava ao hotel pessoas desabrigadas e em estado de vulnerabilidade.
Na vistoria, chamava atenção a fiação elétrica exposta e as instalações irregulares, o que deixava nítida a possibilidade, conforme apontou a Defesa Civil, de um incêndio.
Hoje, era por volta das 13h30 quando o fogo começou. “O foco foi uma espécie de porão do imóvel. Mas ainda não é possível afirmar a causa”, aponta o tenente do Corpo de Bombeiros Helder Kato, comandante da área.
Apesar de o fogo ter se iniciado no porão do lado esquerdo, muita fumaça saía da última janela superior do lado oposto. “A fumaça cobriu a rua inteira”, contou José Antônio Nobre Santana, 21 anos, que mora em frente ao hotel.
Ele viu quando Oswaldo Francisco da Silva, 54 anos, saiu em meio à fumaça. “Moro na loja de móveis que fica aqui embaixo. Acordei com tudo pipocando. Foi um susto enorme”, conta o aposentado.
Vizinhos e a Polícia Militar (PM) acionaram o Corpo de Bombeiros. Eles arrombaram a porta de aço de rolamento do porão e algumas janelas para dissipar a fumaça. Em poucos minutos, controlaram o fogo com cerca de 2,5 mil litros de água.
“Se tivesse demorado mais alguns minutos, pegaria fogo no prédio inteiro. Como o forro é de madeira, o incêndio teria se espalhado rápido”, explica o tenente Kato.
Quioshi Goto |
|
|
O hotel já havia sido lacrado no começo do mês passado, após a realização de uma força-tarefa pela Defesa Civil |
Desabitado?
Após o fogo ser controlado, a Defesa Civil e a Polícia Científica estiveram no local. Eles comprovaram o que as pessoas já falavam lá embaixo. O Hotel Milanez realmente não estava desabitado.
Em um dos quartos que estava trancado, era possível escutar até uma televisão ligada. Outro indício era um calção pendurado em uma das janelas. “Havia cerca de quatro pessoas morando aqui”, afirma Álvaro de Brito, da Defesa Civil.
O JC já havia relatado que, mesmo com a lacração, o hotel continuava a abrigar pessoas. O administrador do local, Hércules Moreno Nunes, prometeu por mais de uma vez que esvaziaria o prédio.
Ontem, Brito foi mais incisivo em suas críticas. “É um absurdo. Traz um risco não só ao prédio como ao comércio todo da região central. Iremos novamente encaminhar ao jurídico da prefeitura e, depois, deve ser encaminhado para a promotoria. É um caso até criminal de periclitação da vida”, conclui.
A reportagem tentou contato com Hércules Nunes, porém, seu telefone estava desligado.
‘Pensei em pular da janela’, conta homem que ainda mora no hotel
Mesmo lacrado há cerca de um mês e com um tapume indicando que o local está em reformas, ainda havia moradores no Hotel Milanez. O ajudante Antônio Carlos Moraes, 40 anos, foi o último a sair do local ontem. “A fumaça entrou e eu não vi mais nada. Estava no último andar e até pensei em pular da janela”.
Ele ficou cerca de meia hora dentro do imóvel e conseguiu sair pelos fundos após os bombeiros controlarem o fogo e a fumaça ser dissipada. “Achei que ia morrer sozinho ali. Só me salvei porque coloquei a cabeça para fora da janela e fiquei ali respirando”, conta, chorando.
Ele afirma que já estava com data marcada para deixar o hotel, em que vive há dois meses. “Pago R$ 300,00 para morar aqui”. Para complicar ainda mais a situação, o prédio é preservado historicamente, o que dificulta a realização de reformas.