Apesar de ter recebido com entusiasmo a notícia de que médicos americanos teriam conseguido curar um bebê infectado pelo HIV, cientistas de todo o mundo estão pedindo cautela antes de comemorar os resultados. O trabalho ainda não foi publicado em nenhuma revista especializada e não passou pela chamada revisão por pares, quando os dados de um estudos são esmiuçados por cientistas independentes. No Brasil, os cientistas também pedem detalhes mais aprofundados sobre o caso.
“Se esse resultado for confirmado, vai ser realmente uma coisa incrível. Mas ainda é cedo para tirar qualquer conclusão. Só o tempo é que vai dizer, com essa criança vai reagir, se ela vai ficar indefinidamente sem manifestação laboratorial e clínica do HIV”, avalia o infectologista Caio Rosenthal, do Hospital Emílio Ribas. “O problema é que a gente não tem um segmento a longo prazo do caso”, completa o médico.
A Cura
Médicos americanos anunciaram que uma criança, com dois anos e meio, ficou livre do vírus da Aids após iniciar, poucas horas depois de nascer, um tratamento com três antirretrovirais. A mãe do bebê, moradora da zona rural do Mississippi, não sabia que era soropositiva e não tomou o coquetel de drogas usado para prevenir a contaminação do bebê. Por isso, os médicos decidiram entrar com uma “abordagem de choque”: o bebê recebeu, 30 horas após o parto, a combinação de remédios. Em geral, bebês nessa situação tomam um xarope de AZT durante um mês. A medicação é interrompida e é feito um exame para ver se houve infecção ou não.
No caso do Mississippi, os médicos optaram por continuar com a medicação após cinco exames mostrarem que o bebê estava infectado. O uso dos remédios por 18 meses reduziu a carga viral, que chegou a níveis indetectáveis quando a menina completou um mês.
Essa é uma situação comum em soropositivos que usam o coquetel anti-Aids. Muitos permanecem por anos sem que o vírus seja detectável pelo exame de sangue. Mas basta interromper o tratamento para a carga viral disparar em semanas, porque o vírus forma reservatórios nas células do paciente. Sem os remédios, essas reservas voltam a se replicar.
A descoberta da cura no bebê se deu por acaso: a mãe interrompeu o tratamento por conta própria durante cinco meses. Quando voltou ao hospital, os médicos constataram que a menina ainda estava livre do vírus. Só exames que procuram traços genéticos do HIV ainda mostravam resultado positivo, mas o vírus não se replica mais. Há quase um ano sem tomar antirretrovirais, a criança permanece assim. Por isso, os médicos estão chamando a situação de “cura funcional” do HIV. Segundo a responsável pelo tratamento, Deborah Persaud, da Universidade Johns Hopkins, o mais provável é que não tenha dado tempo para que vírus formasse os reservatórios, por isso houve o sucesso da terapia.
Brasil
Em parceria com a Universidade da Califórnia, cientistas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) fizeram um estudo bastante parecido.
Eles deram a 1.684 recém-nascidos brasileiros, até 48 horas após o parto, uma combinação de duas ou três drogas antirretroviras. As mães só haviam descoberto que eram soropositivas no fim da gestação.
A combinação se mostrou mais eficaz do que apenas o AZT para evitar as infecções. Uma diferença deste estudo para o caso americano é que não havia certeza se os bebês estavam infectados. O objetivo era a prevenção.
“As condições do nosso trabalho foram muito parecidas com as que eles apresentaram”, diz Valdiléa Veloso, coordenadora da pesquisa no Brasil e diretora do Instituto de Pesquisa Clínica Evandro Chagas. Com o sucesso da abordagem americana, a médica afirma que vai revisar seus dados em busca de possíveis resultados similares.