Convivendo no meu empresarial e atuando na imprensa analisando os principais fatos do dia a dia tenho observado que há uma grande expectativa que os profissionais tanto do setor público como do setor privado atuem de maneira diferente da média que é observado hoje. Pincei a frase título acima citada "tem muita gente que vê, mas não enxerga". Ela permite importantes reflexões. A vertente comum que esta frase quer dizer está ligada a maneira de atuar profissionalmente. Muitos estão viciados em seu olhar. É como se não se importassem com os detalhes. Sabe aquele carro velho que tem uma manutenção a ser efetuada, ou um barulho na porta e motorista já não liga mais? É mais ou menos por aí que vem a explicação deste comportamento.
Em muitos casos este "ver e não enxergar" está na organização do setor. Pastas espalhadas, arquivos que não são encontrados, desordem total. Também está ligado a qualidade do que se faz. Relatórios sem revisão, apresentações com erros básicos, enfim, não privilegiam a qualidade. Por sinal qualquer projeto de qualidade nas empresas passa pela mudança comportamental. É preciso que o profissional pratique a qualidade em suas ferramentas de trabalho, em seu ambiente, para em seguida incorporar estes conceitos ao produto.
No setor de serviços isso fica evidente. Não raramente os trabalhos encomendados são entregues com atrasos. Os acabamentos de certos produtos deixam a desejar. Pontualidade então não existe. No setor privado as cobranças são mais firmes, principalmente quando quem está no comando tem olhar diferente, ou melhor, diferenciado, isto é, desejam e trabalham para que as coisas sejam melhores. Não é por preciosismo e sim porque as coisas têm seu valor e precisam oferecer satisfação a quem paga por isso.
No setor público o desafio é ainda maior, isso porque os agentes públicos em muitos casos se vêem amarrados. A burocracia é enorme e na prática atuam para cumprir a rigorosa legislação, que engessa o processo. Mas isso não pode ser limitante. Cuidar de uma praça. Corta o mato alto. Limpar fontes de água que podem ser geradoras de inúmeras doenças. Não fiscalizar o uso do espaço público. Não cuidar da manutenção das placas de sinalização, enfim, não fazer o que é obrigação, é inadmissível.
Se o setor público tem que cuidar da arrecadação tributária e ainda ter uma política adequada de gastos, não menos importante é sua função em gerenciar e conservar os bens públicos. E isso, cá entre nós, está longe de ser praticado. Para apurar o olhar é preciso ter disposição, treinamento e acima de tudo sensibilidade. Algumas pessoas nascem com isso, outras podem ser desenvolvidas, mas é preciso querer. Em um mundo em transformação e que a única certeza é que as coisas mudarão, é preciso ver e enxergar, isso faz uma enorme diferença.
O autor, Reinaldo Cafeo, é economista, presidente da Acib, diretor do Corecon e articulista do JC