Como todo início de ano, pouco antes do Carnaval, ou logo após seu término, milhares de jovens brasileiros dão início ao seu ano letivo nos cursos superiores do País. Esse número aumentou consideravelmente devido ao financiamento público pelo governo federal que optou em financiar a educação superior via ensino particular devido ao custo da nossa educação pública superior. Apesar de tudo, enfim, temos vagas nas faculdades e universidades para quase todos os nossos jovens, pelo menos nos cursos considerados "mais fáceis".
Em paralelo a esse início do ensino superior financiado, temos o ensino superior "de qualidade" das universidades públicas federais e estaduais gratuitas que, em tese, formarão as elites profissionais, políticas e administrativas do país. Mas, apesar das diferenças de financiamentos e de público ingressante, o que temos em comum entre alguns desses estudantes do ensino superior nos dias que correm? Um trote selvagem, insano, que humilha os participantes, em especial as universitárias, obrigadas a participar de "desfiles sensuais" e ingerir bebidas alcoólicas que não tomariam se estivessem em suas casas. A insanidade é tamanha que em 1999 o ingressante de medicina da USP (Universidade de São Paulo) estudante Edison Tsung Chi Hsuen morreu afogado na piscina da atlética da mesma universidade e a Justiça considerou "uma brincadeira de mau gosto em uma festa de estudante", desmerecendo a vida humana desperdiçada em vão, a dor da família e o futuro de um jovem levado pelo turbilhão da insanidade do trote contra os ingressantes no ensino superior no Brasil.
Quando alguém reclama dessa grave situação de trote sem controle, vexatório, agressivo e humilhante, como fizeram algumas pessoas em uma passeata na cidade de São Carlos, interior de São Paulo, contra veteranos da Universidade de São Paulo, eles se rebelam. Jogaram cerveja e bombas nas pessoas e, nus, praticaram atos obscenos, contra a passeata como se obrigar alunas a despirem na "Miss Bixete", objeto desse protesto, fosse completamente normal (C2 ? Cotidiano 1 ? Estudantes da USP ficam nus e hostilizam feministas em trote. Sábado, 2 de março de 2013).
A maioria das universidades e faculdades pelo país é contra tais atos, desde que ocorram fora do seu espaço físico, mas a verdade é que o trote violento e humilhante continua a ser praticado pelos veteranos como se fosse um direito seu. Contam com a certeza da impunidade que impera no país, que com tantos problemas gravíssimos não considera o trote violento como algo grave, de poder ofensivo contra quem sofre e que pode causar danos físicos e morais que poderão ficar marcados pelo resto da vida. Em festas que antecedem o início das aulas, muitos veteranos abusando do seu poder (que poder?) sobre os calouros tomam atitudes inadequadas com a posição de quem, pela sua experiência acadêmica, na verdade deveria proteger aos que chegam. Como vimos no exemplo de São Carlos, existe um Disque Trote que não foi usado para denunciar os abusos cometidos contra os ingressantes. É como se os calouros soubessem que nada é feito contra esses violentos veteranos.
O trabalho por um trote solidário, acolhedor, que receba os calouros, diante dos absurdos que ocorrem todos os anos, deveria ser uma prática pedagógica constante e fazer parte dos planos de ação de todos os estabelecimentos de ensino superior.
Caso contrário vamos aguardar pelo próximo absurdo, no próximo ano letivo pela violência física e moral, humilhações, situações vexatórias, daqueles que serão a nossa elite letrada, mas sabem que moram no país do "deixa pra lá" e da impunidade e que o calouro como muitas vítimas de violência pelo Brasil devem aguentar calados.
O autor, Fábio Paride Pallotta, é professor de história e colaborador de Opinião