Articulistas

Dana e Eliza

José Fernando da Silva Lopes
| Tempo de leitura: 3 min

Dana era cidadã tcheca, perambulou pela Europa, México e Brasil e por vários casamentos, até parar, casar de novo e passar a viver no Rio de Janeiro ainda na década de 50, assumindo nome do marido brasileiro de quem também se separou. Dana de Teffé, ao fim do casamento brasileiro, recebeu bom apartamento no Leblon, algum dinheiro e muitas e muitas jóias que lhe permitiam vida confortável ainda que obrigada a trabalhar em empregos e atividades apropriadas para uma mulher do mundo. Na separação brasileira conheceu o advogado Leopoldo Heitor, já nacionalmente conhecido como Advogado do Diabo desde sua farsante participação no chamado "crime da ladeira do Sacopã", que levara à condenação do inocente Tenente Bandeira. Certo dia, Dana e Leopoldo empreenderam viagem para São Paulo e Leopoldo voltou só. Com procuração de Dana, que depois se constatou falsa, apropriou-se de todo o patrimônio dela a ponto de despertar suspeitas direcionadas para homicídio. Leopoldo foi processado e por três vezes foi julgado pelo assassinato dela e absolvido pelo Tribunal do Júri. Dana de Teffé, desde a viagem para São Paulo, nunca mais foi vista e de tempos em tempos a polícia recebia pistas e fazia escavações procurando seu corpo em locais pré-determinados, sempre sem êxito. O cadáver de Dana nunca foi encontrado.

Eliza Samúdio era brasileira e interiorana, perambulou por vários pontos do país e, como Dana, aportou no Rio de Janeiro ali levando a vida que conseguia levar até conhecer Bruno, atleta profissional de futebol, com quem gerou um filho. De episódio em episódio sempre relacionados com reconhecimento e manutenção da criança, envolveu-se num turbilhão de situações até acabar assassinada em trágico evento que envolveu Bruno, sua ex-mulher, seu amigo e fiel protetor alcunhado "macarrão" e um policial aposentado. Como Dana, o corpo de Eliza nunca foi localizado, mas um a um os envolvidos vêm sendo julgados por homicídio e outros crimes a ele conexos e severamente condenados pelo Tribunal do Júri. Ainda ontem, coincidente com o dia internacional da mulher, o Tribunal do Júri condenou Bruno pela morte de Eliza.

Num interregno em torno de cinqüenta anos entre a morte de Dana e a morte de Eliza, o mundo mudou, o Brasil mudou, os costumes mudaram e também mudou cada resultado de julgamento do Tribunal do Júri num radical movimento pendular que saindo de deploráveis resultados absolutórios agora chega a severíssimos resultados condenatórios. Nesse movimento de quase meio século, o Tribunal do Júri, com as mesmas leis, adaptou-se aos novos tempos e praticamente baniu a mais tradicional alegação de defesa nos assassinatos de mulheres que justificava o brutal derramamento do sangue feminino com o perverso rotulo de legítima defesa da honra.

Os cadáveres de Dana e de Eliza jamais serão encontrados, identificados e dignamente sepultados. Permanecem e permanecerão, infelizmente e para sempre, insepultos e acrescidos de carga suplementar de violência tão grave como a própria morte, porquanto eternamente privados de pequeno pedaço de solo, identificado com alguma lápide que pudesse atrair visitação, lembrança, homenagem e oração dos que estão vivos em ritual de vida diante da morte.

As situações de mortos cujos corpos não são encontrados vêm se repetindo com alarmante freqüência e infelizmente nossos cemitérios ainda não possuem Mausoléus dos Insepultos que a exemplo dos Túmulos dos Soldados Desconhecidos pudessem atrair visitantes e centralizar homenagens e orações a todas as Danas e Elizas do mundo, cujas historias de vida se assemelham e cujos cadáveres permanecem insepultos e submetidos a castigo eterno tão injusto e tão grave como a própria morte violenta. Seria iniciativa muito justa.

O autor, José Fernando da Silva Lopes, é advogado

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