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"Inaceitavelmente alto!"

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 2 min

Ainda hoje, analistas financeiros em várias partes do mundo culpam apenas os países devedores - "gastadores irresponsáveis" - pelo prolongamento da crise na Comunidade Europeia, ressalvando a conduta virtuosa dos países credores. São especialmente zelosos em afastar o "foco" das patifarias feitas pelos intermediários financeiros e com enorme cuidado evitam responsabilizá-las pela tragédia do desemprego que atinge 30 milhões de trabalhadoras e trabalhadores no velho continente e sequer fazem referência aos outros 20 milhões nos esquecidos vizinhos do norte da África. Poucos se interessam realmente em consultar as estatísticas da Organização Internacional do Trabalho para conferir o que o prêmio Nobel de economia Paul Krugman identificou como o "problema real", ao concluir um recente e magistral artigo em que aponta "os erros da doutrina que domina o discurso econômico da elite", há três anos nos EUA: "É hora de colocar de lado a obsessão com o déficit e lidar com o problema real, o desemprego inaceitavelmente alto".

Na preparação e expansão dos fatos que levaram à crise deflagrada em 2008 nos Estados Unidos, cujos efeitos continuam nos castigando, não existem inocentes: governos falharam miseravelmente e o setor financeiro sem regulação, como o velho escorpião da fábula, cumpriu o seu objetivo matando o setor real da economia, enquanto alguns economistas, gloriosamente, defendiam "matematicamente" a alta qualidade dos maus feitos, desenvolvendo teorias que justificavam as patifarias construídas no alegre incesto com os poderes políticos incumbentes.

O "problema real" que daí resultou e que até hoje nos barbariza pode ser comprovado numa proposição simples: os milhões de poupadores que confiaram seus recursos aos administradores financeiros ficaram pobres e desempregados. Os administradores ficaram trilhionarios e não precisam de emprego!

Seria ridículo e pretensioso dizer que os economistas foram causa eficiente da crise. Eles foram apenas coadjuvantes (e algumas vezes beneficiários) do processo. Ajudaram a criar uma "ideologia" que pretendia dar base "científica" ao papel do mercado financeiro desregulado na aceleração do desenvolvimento econômico e do bem estar do mundo. A mensagem construída a partir da fantástica hipótese dos "mercados perfeitos" tinha com consequência subliminar a ideia do velho presidente Reagan: "os governos não são a solução, são o problema"! Mas é ridículo, também, isentá-los de qualquer responsabilidade. Produziriam trabalhos científicos na Academia, onde se faria "ciência pela ciência", na qual não é proibido inventar universos que não existem. Não teriam, entretanto, responsabilidade pelo mau uso dos seus modelos, mesmo porque estes não se referem, necessariamente, a este mundo...

O grande paradoxo nesse processo, no qual parece não haver ator que tenha sido sua causa eficiente, é ignorar quem está recebendo a conta do mau feito: são os mais de 50 milhões de desempregados (sem contar os dos EUA), que estão nas ruas recusando-se a pagar as "falhas" dos governos e dos atores dos mercados financeiros.

O autor, Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC

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