Com a autoridade de quem trabalha na Defesa Civil há 30 anos e já atendeu incontáveis ocorrências de incêndio nos mais variados tipos de prédio ao longo deste período, Álvaro de Brito, coordenador da Defesa Civil de Bauru, é enfático ao afirmar que boa parte dos incidentes relacionados a fogo se alimentam do descuido, desatenção ou negligência dos próprios moradores da residência. “Somos senhores da nossa própria tragédia”, resume. Os principais vilões são a falta de manutenção na fiação elétrica e a imprudência com as fontes de calor e fogo, sobretudo o fogão.
Malavolta Jr. |
|
|
Erro comum e perigoso, sobrecarregar tomadas com vários aparelhos é causa frequente de incêndios |
Brito lista uma série de equívocos que, com um pouco de falta de sorte, podem se tornar fatais. “Um dos grandes erros que as pessoas cometem é passar a mangueira que sai do botijão de gás atrás do fogão. É um erro gravíssimo. O pessoal passa a mangueira atrás do forno e, embora os fogões hoje venham com isolamento térmico, ao longo do tempo, este esquenta e esfria pode desgastar esta mangueira. O correto é que o botijão fique fora de casa. Porque se acontecer algum vazamento já está do lado de fora”, ensina.
Especialista em detectar situações de risco, Brito tem um manual com cuidados simples, que podem evitar tragédias. Ainda na cozinha, o coordenador da Defesa Civil ressalta que é preciso bom senso no momento de decorar a cozinha, evitando cortinas ou panos sobre ou próximo ao fogão. “O fogo pode pegar não só pela chama direta, mas pela propagação do calor. Não precisa estar em contato direto. Até mesmo um exaustor pode pegar fogo. Fica muito impregnado de gordura e a pessoa não troca a manta. A gordura, embora seja de queima lenta, pode pegar fogo e aí tem a espuma, que solta gás tóxico”, explica.
Outro fator determinante para a segurança é a verificação e manutenção adequada das instalações elétricas. Evitar sobrecarregar tomadas e manter a fiação sob constante controle e em bom estado é imprescindível para evitar surpresas desagradáveis. “O cara construiu uma casa e fez a fiação há 40 anos. Não sabe como está, ela não tem esta vida útil. Tem que estar sempre verificando, fazendo teste de tensão, ver se não está ‘roubando’ energia. É preciso procurar um profissional qualificado para verificar este tipo de coisa”, define Brito.
O que se acumula em casa e onde se guarda este material também precisa ser pensado para não por em risco a segurança da família. “Não se guarda coisa inflamável em laje. O cara deixa um alçapão na laje e começa a guardar revista, jornal e até roupa. Um belo dia dá um curto e pega fogo. Já vi fiação que passa dentro do guarda-roupa”, condena. “Dá para conviver com certo risco calculado. Porém, qualquer descuido pode ser fatal. Temos tido muitas ocorrências em Bauru de incêndio com vítima fatal”, constata.
No “manual de segurança” de Brito estão ainda mandamentos que proíbem quaisquer materiais inflamáveis nas mãos de crianças. “Não pode deixar nada que produz fogo ao alcance das crianças”, define. Além disso, produtos de limpeza, higiene pessoal, remédios também contêm substâncias inflamáveis e devem sempre ser preservados de fontes de calor, de acordo com Brito.
A hora do risco
As estatísticas da Defesa Civil não deixam margem de dúvida, existem horários mais propícios à incidência de incêndio. De acordo com os registros, os picos alarmantes ocorrem entre 17h e 19h e 23h e 1h. “O primeiro período está relacionado ao momento que as pessoas estão preparando o jantar e o segundo é quando quem estuda e trabalha à noite volta para casa e também prepara refeições. São horários em que temos grande quantidade de fogo dentro de casa, através do fogão. Temos um elemento produzindo fogo dentro da nossa casa. Dá para conviver com isso? Dá, desde que se tome algumas providências”, diagnostica Brito.
A vilã fumaça
Situações que envolvem combustão em casa podem vitimar mesmo que não ocorra um incêndio. Não é incomum pessoas, sobretudo fumantes, morrerem asfixiadas deitadas em sua própria cama, mergulhando num sono de morte por causa de um vilão sorrateiro, a fumaça carregada de gás carbônico.
“A pessoa, às vezes, dá uma cochiladinha e fuma um cigarrinho na cama. É comum este cigarro cair no cobertor ou na cama mesmo. O que acontece? Não vai causar queima instantânea, vai soltar fumaça e a pessoa vai estar dormindo e absorvendo esta fumaça. Num primeiro momento, você nem percebe. Num segundo momento, o gás carbônico vai estar associado ao sangue, formando a carbohemoglobina, que pode bloquear o sistema nervoso”, explica Brito.
As consequências são dignas de um filme de terror. “A pessoa vai estar deitada, consciente, vai querer se movimentar, sair correndo, gritar, pedir ajuda, mas não vai ter mais este estímulo nervoso. Vai acabar morrendo por asfixia. É por isso que as pessoas, às vezes, morrem em uma garagem. Acham que no primeiro momento não têm problema nenhum e no segundo momento elas caem. Nossa vida é muito frágil”, acentua Brito.
Flashover
Inseticidas e produtos à base de compostos inflamáveis também requerem cautela no seu uso para se evitar acidentes, que podem terminar em queimaduras e até mesmo em um início de incêndio. Brito destaca que é preciso saber dosar a quantidade aplicada nos ambientes para não acarretar riscos à própria integridade física. “A pessoa pulveriza inseticida, agora que tem muito pernilongo, em todos os cantos e o ambiente fica saturado daquele gás. A maioria dos inseticidas é à base de querosene, solvente ou até outras substâncias, como butano”, expõe.
Uma vez carregado de partículas inflamáveis, o ar se torna uma ameaça com uma atmosfera hostil. “A pessoa não percebe a substância, seu organismo assimila, se adapta. Aí, ela acende um cigarro e ocorre uma explosão ambiental ou ocorre uma coisa que se chama ‘flashover’, uma labareda por um ou dois segundos e sapeca a pessoa. Os inseticidas que não têm cheiro são os mais perigosos. Quando você percebe o cheiro, percebe que está saturado. Se não percebe, vai pulverizando”, conclui.
Quando o fogo é criminoso
Álvaro de Brito revela que as causas de incêndio em Bauru vêm sofrendo modificações ao longo do tempo em que está à frente da Defesa Civil na cidade. Hoje, não é raro que o fogo seja provocado propositalmente, motivado por desavenças. “Antigamente os incêndios aqui na cidade eram mais causados por curto-circuito e vela. Hoje, as causas estão misturadas. É briga de marido e mulher, problemas com drogas. Tudo isso tem tido como consequência o pessoal por fogo na casa, tornando-se uma coisa criminosa”, lamenta.
Brito atesta que, muitas vezes, o incêndio é motivado por vingança ou acerto de contas. “Às vezes, por uma dívida de droga, quando a pessoa não mata, põe fogo na casa e isso obriga o endividado a se mudar. Ou a pessoa recebe um aviso para se mudar do bairro e não muda. Uma hora ele vacila e alguém vai lá e põe fogo na casa. Isso gera o seguinte problema para quem tem seguro: quando o incêndio é criminoso, o seguro não cobre”, finaliza.
À prova de fogo?
Estamos preparados para evitar incêndios em nossas casas ou minimizar riscos e estrago no caso do pior?
O “inimigo” é silencioso e conta com nossa complacência. Podemos ser surpreendidos de um segundo para o outro dentro de nossas casas. Não se trata de nenhum invasor misterioso que se intrometeu em nossa residência, mas simplesmente da comodidade e conforto instaladas em nossos lares que podem se virar, como criatura contra criador, contra nossas famílias. O nome do perigo é fogo. O mesmo fogo dominado pelo homem há milênios, que trouxe segurança e progresso à humanidade. Porém, fora de controle, as chamas costumam deixar um rastro de destruição e morte. Mas o verdadeiro inimigo é o que causa um incêndio: falta de manutenção, prevenção e de dispositivos de segurança.
Há pouco mais de um mês, o incêndio na boate Kiss, em Santa Maria (RS), que vitimou até o momento 240 pessoas, chamou a atenção do Brasil inteiro para a precariedade da segurança de casas noturnas para prevenir e combater o fogo. As inúmeras falhas de segurança e prevenção verificadas no caso estarreceram a população e abriram uma discussão nacional a respeito do tema. Mas em nossa casa, estamos seguros? Estamos preparados para evitar e, no caso do pior, enfrentar o fogo dentro de nosso lar?
Há uma semana, um incêndio no Bairro do Leblon, zona sul no Rio de Janeiro, um dos metros quadrados mais valorizados do País, dá indícios de que muitas vezes não. O apartamento, uma cobertura, contava com portas blindadas e outros itens de segurança, além do presumível conforto. Todo o aparato para evitar a entrada de intrusos, no entanto, acabou sendo fatal ao impedir a saída do casal que ali residia e que, no desespero para escapar das chamas, acabou saltando para a morte do quarto andar. O laudo técnico do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE), divulgado anteontem, confirmou as suspeitas de que um curto-circuito foi responsável pelo início do incêndio.
O fogo é “democrático” e pode afligir desde residências humildes - é frequente nos noticiários incêndios em barracos que se alastram, arrasando favelas inteiras - até apartamentos e casas em condomínios de alto padrão e bairros nobres. Além disso, uma situação de incêndio é uma das mais extremas que o ser humano pode enfrentar. Somos muito sensíveis ao fogo e mesmo longe das chamas nosso organismo é fortemente agredido pelos “derivados” dele. Os gases e calor oriundos do incêndio, além de causarem confusão e pânico, já acarretam sérios danos à saúde e diminuem as possibilidades de escapar do local afetado pelo fogo. Para ter uma ideia da voracidade de um incêndio, a temperatura no interior de uma residência em chamas pode chegar a 1.200º centígrados, o que compromete toda a estrutura do imóvel. “Só a fumaça já é suficiente para intoxicar as pessoas”, destaca o tenente Cláudio Augusto Antunes da Silva, do Corpo de Bombeiros de Bauru.
Segundo dados da corporação, uma das causas mais frequentes de incêndio em Bauru está relacionada a curto-circuitos. Neste caso, uma distração ou imprudência tem peso decisivo. “Geralmente a pessoa dorme e deixa ventilador, televisão, computador ligado. Sai e esquece o secador de cabelos ligado. Os aparelhos foram feitos para serem usados durante um tempo. Se ficarem muito tempo ligados, aquecem demais e causam incêndio”, explica Silva.
Conforto inflamável
Vivemos rodeados por itens de conforto que em uma situação de emergência com fogo tornam-se inimigos, servindo de combustível para as chamas. Uma checagem rápida por uma residência nos mostra que praticamente tudo é inflamável: tecidos, madeira, espuma e plástico nos rodeiam. É inevitável ter estes materiais em casa e não deve ser motivo para ficarmos paranoicos. O importante é evitar os excessos e a negligência.
O Corpo de Bombeiros dá dicas de como minimizar as consequências em caso de fogo. “O que facilita para a gente é piso frio na residência, não ter tantos tapetes, cortinas não ter muita coisa acumulada. Às vezes, existe um quartinho onde a pessoa acumula o que não usa: papel, móveis... Se um local deste pega fogo, a carga de incêndio é muito alta e vai ser um incêndio grande”, observa Silva.
Já em relação a equipamentos para combater o fogo que é possível manter em casa, a quantidade é limitada, de acordo com Silva. “Se a pessoa tiver um extintor de água, é uma segurança a mais. Mas, geralmente, no Brasil não tem equipamentos para comprar para residência. Não temos esta cultura”, constata.
O trabalho dos Bombeiros é mais de conscientização para evitar o início do fogo. “O que a gente sempre trabalha é a parte de prevenção, não deixar que o fogo comece”, pontua. O Corpo de Bombeiros, que completa exatamente hoje 133 anos de existência no Estado de São Paulo, e a Defesa Civil estão à disposição para fornecerem orientação à população sobre o assunto.
Uma tomada, muitos plugues
Uma combinação que pode ser fatal é a de fiação antiga e grande quantidade de aparelhos ligados na mesma tomada. Erro comum em grande parte das residências é o investimento e reforma na decoração, segurança, conforto e o esquecimento da estrutura elétrica que manterá boa parte disso em funcionamento. Instalações antigas não têm a capacidade de sustentar a quantidade de aparelhos que suprem nossas necessidades atuais e que colocamos em nossa casa hoje.
“Geralmente a fiação das residências mais antigas foram feitas para aguentar um tipo de energia. Hoje, tem muito mais do que tem na época. Antes, era comum ter apenas uma geladeira, televisão, as lâmpadas e o chuveiro. Hoje, a casas têm dois, três chuveiros, micro-ondas, duas, três televisões, geladeira, freezer, ar-condicionado e vai sobrecarregando”, diagnostica o tenente Silva.
Com os novos hábitos e a fiação antiga, a sobrecarga é comum. “É a mesma fiação, que tem uma tomada antiga para usar um aparelho. Agora, usa-se aquele ‘benjamim’ e põe-se vários aparelhos. A instalação elétrica não aguenta. É muito difícil ver alguém falando que vai fazer uma manutenção em casa e trocar a fiação. As pessoas nem se lembram dessa parte”, aponta Silva.
O tenente do Corpo de Bombeiro cita uma situação extrema em um dos muitos casos de fogo por curto-circuito. “Já teve caso de curto por colocar videogame, DVD, televisão, aparelho de som e mais o ventilador numa tomada só. Isso acontece. Quando dá o curto e começa a pegar fogo, na sala já tem o tapete, uma toalhinha em cima do móvel e se propaga muito rápido”, alerta.
Outro ponto que agrava a situação nas residências mais antigas é o forro de madeira, que favorece o alastramento das chamas generalizando o incêndio. “Se pega fogo em uma parte da casa, ele passa por cima por causa do forro e atinge a casa inteira. Não fica mais compartimentado”, acentua Silva.
Qualidade dos produtos
Uma orientação importante que o Corpo de Bombeiros dá é a atenção e critério no momento da compra de aparelhos elétricos. É imprescindível se certificar da origem confiável e da aprovação dos órgãos competentes para evitar uma economia perigosa e que pode acabar custando caro. “É importante comprar sempre produto com o selo certificando a segurança, validade e procedência. Muitas vezes, a pessoa compra um produto mais barato ou sem garantia nenhuma e o produto não dura nada. São equipamentos de segunda linha e acabam provocando curto muito mais fácil. Pode ter um risco grande”, alerta Silva.
Segurança contra entrada, obstáculo para fuga
A relação entre dispositivos contra violência e rota de fuga em uma residência representam um dilema quando abordada do ponto de vista de uma ocorrência de incêndio. Como no recente incêndio no Rio de Janeiro, onde as pessoas não conseguiram escapar do apartamento que contava com portas blindadas, itens de segurança contra a violência podem se tornar obstáculos e aprisionar os moradores da residência em um “inferno particular” impedindo a evasão. “Pensando na parte de incêndio, quanto mais vias de fuga para a pessoa, melhor. Já pensando em segurança, é o contrário, quanto mais fechado melhor”, resume o tenente Cláudio Augusto Antunes da Silva, do Corpo de Bombeiros de Bauru.
Mecanismos de segurança podem também dificultar o trabalho dos Bombeiros. “Às vezes, vamos combater um incêndio em um quarto que tem grandes nas janelas. Aí, temos que entrar pela residência toda até chegar ao quarto. Sempre procuramos o foco do incêndio, evitamos jogar água em outros locais para não destruir as coisas da casa. Se é uma residência que não tem grades nas janelas, já podemos iniciar o combate por ali, é mais rápido”, salienta Silva.
Fala-povo
Você considera sua residência segura contra incêndio?
“Não é segura. Outro dia, meu primo foi dormir em casa e esqueceu o ovo no fogo e quase aconteceu um incêndio. Não é segura”.
Rafaela Bevilaqua, 20 anos, desempregada
“É difícil falar que tem segurança. A gente não tem conhecimento, não entende de nada. Só Deus é quem sabe”.
Renato de Souza, 58 anos, comerciante
“Mais ou menos. A gente evita o que pode, tem cuidado com fogão e eletrodomésticos”.
Rosa dos Santos, 68 anos, empregada doméstica
“Não. Porque não tem extintor e não tem segurança. A qualquer momento pode pegar fogo”.
Gleice de Jesus Floriano, 27 anos, do lar