Cultura

?Paulo Neves foi meu primeiro grande mestre?, afirma Garib

Mariana Cerigatto
| Tempo de leitura: 6 min

Ele não é bauruense, mas passou boa parte da infância e adolescência por aqui. Estudou nas escolas estaduais Ernesto Monte, Rodrigues de Bauru e morou na rua Rio Branco, Altos da Cidade.

 

Pedro Paulo Figueiredo/CZN

O malvado Russo de ‘Salve Jorge’ revela que faz sucesso com a mulherada e lembra da época em que morou em Bauru

Adriano Garib, atualmente com 48 anos, conta que começou no teatro em Bauru por contato com peças de Paulo Neves, no início da década de 80. “Ele foi meu primeiro grande mestre”, revelou Garib em entrevista ao JC Cultura.


Apesar de ser o vilão mais temido das mocinhas traficadas da novela global de horário nobre “Salve Jorge”, Garib se revela simpático, inteligente, atencioso, gentil e comenta o sucesso que faz entre a mulherada. “Acho que é a masculinidade que o Russo ostenta”, tenta justificar.


Após fazer algumas peças com Paulo Neves, Garib se mudou para Londrina (PR) para cursar jornalismo na UEL (Universidade Estadual de Londrina).


Lá, integrou o Grupo Delta de Teatro - um dos principais da cidade. Por causa da carreira no tablado, teve que trancar o curso de jornalismo por dois anos, mas conseguiu se formar e também obteve algumas experiências como repórter para a TV Tropical - CNT Londrina.


Em entrevista ao JC, ele fala sobre o sucesso do personagem capanga da novela de Gloria Perez, sobre Bauru, a iniciação como ator no Interior, e sobre a abordagem de “Salve Jorge” sobre o tráfico de pessoas. “É importante salientar que a novela é uma ficção, não é documentário”, ressaltou.


Antes de ser escalado para “Salve Jorge”, o ator atuou na TV Record, no “Vidas em Jogo” (2011). Garib também fez parte do elenco de Salsa e Merengue (1996) e de Duas Caras (2007).


No cinema, garantiu papéis nos longas “Meu Nome Não É Johnny” (2008) e “Tropa de Elite 2” (2010).



JC - Conte como despertou para o teatro. Foi ainda enquanto morou aqui em Bauru?


Garib - Eu morava ali na rua Rio Branco, no Altos da Cidade, com a minha família. Morei por muitos anos em Bauru, minha família ainda mora aí: minha mãe, dois de meus irmãos... Mas nasci em Gália e fui pra Bauru com sete anos. Depois da morte do meu pai, em 2005, minha mãe mudou-se para um apartamento em outro bairro, mas continua na cidade.

Em frente à minha casa tinha um ‘DA’ (Diretório Acadêmico) de Odonto, da USP. Era uma sala onde faziam festas e reuniões, dentro de um prédio alugado para outras atividades, inclusive para ensaios de peças teatrais. E eu via que tinha uma movimentação ali e uma moçada, e na época me chamou a atenção.

Eu já escrevia peças pra minha família, estava sempre envolvido com alguma atividade artística. E, para iniciar no teatro, eu só tive mesmo que atravessar a rua. Foi quando encontrei o Paulo Neves, que na época integrava o Grupo Momento, liderado por ele. O grupo apresentava a peça “Achados e Perdidos”, que era uma reunião de poemas e poetas que foram censurados na época da Ditadura Militar.  E o espetáculo continha Vinicius de Moraes, Neruda, Drummond... Eu fui ver um ensaio de curioso, neste prédio. Quando eu estava com quase 17 anos saí de Bauru para estudar jornalismo na Universidade Estadual de Londrina (UEL).


JC - E como foi sua primeira atuação em palco?


Garib - Comecei a me aproximar dessa turma e, um belo dia, passei a integrar o elenco de Achados e Perdidos. Eu lembro que a minha estreia foi no Festival de Tatuí. E foi aí a primeira vez que entrei em cena.

A primeira coisa foi um solo que fiz, tive que  recitar um poema. E dei de cara com o público, a sensação foi de potência e Então eu pensei - “Nossa, eu não largo mais isso”.


JC - E o contato com o Paulo Neves?


Garib - O Paulo Neves sempre foi muito engajado, inclusive politicamente, e é assim até hoje. Ele é um grande artista, grande mente, grande pensador, uma pessoa de uma qualidade excepcional e ele foi, sem dúvida, meu iniciador, meu primeiro grande mestre, uma pessoa que tenho muito carinho até hoje.

E lá em Londrina acabei me envolvendo com o grupo Delta de Teatro, um grupo profissional, e então comecei a seguir carreira paralela ao curso de jornalismo. Por causa disso, eu levei seis anos pra me formar em jornalismo, fiz o curso de 1983 a 1988, já que tive de trancar  a faculdade por causa dessa atividade paralela com o teatro, viajava muito.


JC - E você já teve que fazer vários papéis de vilão, não é?


Garib - Sim, inclusive, minha primeira grande peça no teatro foi encenando o vilão Patrício, em uma peça da companhia de Londrina. Por 21 anos fiz esse personagem, eu ganhei tudo quanto é prêmio, fiz sucesso nacional e também fora do País com esse personagem.


JC - Apesar da violência do personagem Russo, ouvi dizer que você faz o maior sucesso com a mulherada...


Garib - Sim, megassucesso! [risos]. O que chama a atenção no Russo, certamente, não é a violência, mas a masculinidade que ele ostenta, o tipão, que se veste bem... e acho que isso deixa a mulherada mais animada.

Na novela, eu não quero ser charmoso, faço o trabalho com muita ironia, vida e muita verdade.


JC - O que acha da abordagem que a novela dá ao tráfico de pessoas?


Garib - O tráfico mostrado na novela é tão importante como a campanha que combate a este tipo de tráfico. Este assunto é muito delicado,  pois muitas cenas não podem ser exploradas pela novela, nem no horário das 23h daria pra mostrar.  O telespectador tem uma cobrança de verossimilhança, tem gente que fala “Ah, mas parece que as meninas estão de férias na boate”. Uma novela é uma novela, tem carga de ficção, não é documentário. O Morro do Alemão que aparece ali não é o Alemão de verdade, mas é criado pela Glória. ‘Russo’ é em alusão às máfias russas, que são uma das mais perigosas e brutas neste ramo de tráfico de pessoas.


JC - E existe um rumor de que seu personagem se revelaria gay... é verdade?


Garib - Isso é mera especulação. Há especulações de que vão matar o Russo, que saem nessas revistinhas de fofoca, que vendem aos montes. Mas na verdade, a Glória, autora da novela, vai escrevendo a trama aos poucos. O elenco também não recebe todos os capítulos de uma vez, nós recebemos sempre uns 10 a mais do que o telespectador sabe. Se estamos no capítulo 113, gravamos até o 123, e só. Se você perguntar o destino do Russo para a própria Glória, tenho certeza que ela também não saberá responder. Muita coisa pode acontecer em relação ao Russo. Ele pode morrer? Sim, pois há uma fila de pessoas com motivos para matá-lo. Mas tudo é apenas suposição. E eu até brincava com o fato dele ser homossexual. Oras, ele é um cara que bate um mulher, extremamente covarde.

Tem ainda o gato que dá outro viés para o personagem. Está sempre rodeado por homens e não tem uma companheira. Tudo isso leva a crer que ele poderia ser homossexual, uma ‘gay másculo’. E todo mundo que tem masculinidade exagerada acarreta certa desconfiança, não é? Se a Gloria vier com esse desfecho, que o personagem no fundo é gay, seria muito divertido. Seria uma “virada” interessante para o personagem, uma forma de satirizá-lo, e seria uma grande surpresa para o público, sem dúvida.

A Glória está sempre atenta à opinião do público, está conectada nas redes sociais, antenada. Tudo pode acontecer, mas o que realmente vai acontecer é difícil afirmar. Tem que acompanhar a novela!

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