Todo mês, 27% do salário da família da auxiliar de serviços gerais Josélia Severina da Silva, 39 anos, tem um destino certo: o aluguel da casa em que ela, o marido e o único filho, de 17 anos, vivem, no Jardim Ferraz. Os três trabalham e, juntos, somam renda de R$ 2.190,00, sendo que R$ 600,00 vão direto para a imobiliária.
Segundo especialistas consultados pela reportagem, Josélia é um exemplo clássico do bauruense que ainda não tem condições de comprar a própria casa, mas faz questão de morar com certo conforto e em segurança. “E esta exigência, quanto maior for, mais deve encarecer o preço dos aluguéis, principalmente para os tipos e locais de moradia mais procurados”, pondera o economista Reinaldo Cafeo.
Profissionais do ramo calculam que o custo médio do aluguel, em Bauru, está na casa dos R$ 700,00 e corrói cerca de 30% da renda média das famílias bauruenses. Os bairros mais procurados ainda estão concentrados na zona sul, embora imóveis de classe média em outras regiões da cidade também tenham grande demanda.
“Por questão de segurança e redução de custos de manutenção, os apartamentos são mais procurados. A concorrência é grande e depende de localização, tamanho e serviços oferecidos. Os moradores estão cada vez mais seletivos”, comenta Wânia Pôrto, proprietária de uma imobiliária na cidade.
Perfil exigente
Josélia se encaixa neste perfil mais exigente. Com renda familiar mensal de três salários mínimos, ela vive em uma casa de três dormitórios, dois banheiros, sala, cozinha e área de serviço com churrasqueira. Ainda que o conforto demande sacrifício no orçamento, ela diz que consegue administrar bem as finanças.
“Somando contas de água, luz, internet, alimentação e farmácia, não sobra muita coisa, mas nunca faltou nada em casa. Conseguimos viver tranquilos, com a certeza de poder sair para o trabalho e voltar com tudo no seu devido lugar”, comenta.
Embora o grande número de empreendimentos construídos por meio do programa Minha Casa, Minha Vida tenha proporcionado a aquisição da casa própria para centenas de bauruenses, o Conselho Regional de Corretores de Imóveis (Creci-SP) destaca que a procura por imóveis alugados ainda continua aquecida.
Segundo o delegado do órgão, Carlos Eduardo Muniz Cândia, o perfil de locatários é formado, em sua maioria, por famílias de classe média.
“É claro que há imóveis locados por R$ 5 mil, mas, em média, não ultrapassa o valor de R$ 1 mil”, frisa. São pessoas que, ao longo dos últimos anos, conseguiram melhorar seu padrão de vida, mas não a ponto de terem condições de financiar a casa própria. Mais exigentes e com mais dinheiro no bolso, passaram a procurar por imóveis mais valorizados.
“Apartamentos de dois quartos perto do Shopping estão em torno de R$ 1.100,00, sem condomínio, e é difícil ficar vago. Já prédios antigos, localizados no Centro e mais baratos, podem ficam ociosos por meses”, frisa.
Tendência de queda
Com o grande número de empreendimentos construídos por meio do programa Minha Casa, Minha Vida – que oferecem financiamentos subsidiados pelo governo federal – a tendência é de que a procura por imóveis alugados comece a registrar queda. Com isso, os preços também devem cair, obedecendo à lógica de mercado.
“A procura ainda existe, mas já é menor do que a de anos atrás”, comenta Wânia Pôrto, proprietária de uma imobiliária na cidade. Delegado do Conselho Regional de Corretores de Imóveis (Creci-SP), Carlos Eduardo Muniz Cândia diz que especificamente o mercado de locação de apartamentos já demonstra sinais de desaquecimento.
“Muitos já estão ficando mais tempo ociosos e a tendência é de redução de preços. Já residências, principalmente na zona sul, ainda continuam bastante valorizadas”, pondera.
Preço de locação é alto diante da valorização dos imóveis
Imobiliárias consultadas pela reportagem afirmam que não há abuso na cobrança de aluguéis, o preço apenas acompanhou a valorização dos imóveis, cujo preço de venda mais que dobrou em pouco mais de cinco anos. Mas o ideal era que este tipo de custo não ultrapassasse 12% da renda das famílias, segundo destaca o economista Reinaldo Cafeo.
Em Bauru, o gasto chega à casa dos 30%. Vale lembrar, no entanto, que esse percentual se deve também aos salários oferecidos pelo comércio, carro-chefe da economia da cidade, que estão abaixo dos patamares da indústria, por exemplo. “O montante de 30% deveria custear todos os gastos para manter a casa, incluindo contas com água, luz, limpeza, entre outros. Mais do que isso, o morador pode ter dificuldades para administrar suas finanças”, frisa o economista.
Proprietária de uma imobiliária na cidade, Wânia Pôrto lembra ainda que a maciça presença de estudantes universitários na cidade faz com que o mercado continue bastante valorizado, independentemente do número de moradores que tenham adquirido casa própria. “Por estar no centro do Estado, Bauru não atrai apenas jovens, mas uma série de empreendimentos, que elevam os preços dos imóveis. Mas, na realidade, proporcionalmente ao valor de venda, o preço do aluguel diminuiu de 1% para 0,6% nos últimos anos”, comenta.