Vimos a mulher covarde matar o filho indefeso e pequenino que no ventre trazia, com o coraçãozinho a pulsar, a registrar o milagre da vida e não fizemos nada! E pensar que muitos, que se dizem cristãos, são a favor do hediondo crime do aborto! Vimos crianças e idosos abandonados, andrajos sem nome, pelas ruas e calçadas, sem ter caminhos, engolindo o gélido sabor da fome e não fizemos nada! Contudo, muitos alegam ser o abandono de crianças e idosos fruto da modernidade! Vimos a infância agredida e violentada, o sangue plagiando o carmim do coração, o brilho das lágrimas iluminando a dor, a desesperança dominando o amor e não fizemos nada mesmo assim! Vimos homens atrelados à carroças, em extremo estado de miserabilidade a substituir bestas e, covardemente, não fizemos nada!
Vimos as flores do nosso jardim pisoteadas, a cerca viva ceifada a tombar sobre a calçada, vimos a pesada grade imponente soerguer, deixamos o medo amordaçar a nossa voz e amedrontados, não fizemos nada! Vimos famílias aniquiladas, corações a soluçar, lágrimas de desamor, olhares tristes, sem esperanças e resignados deixamos o mal dominar o bem e não fizemos nada! E, apesar da criminalidade reinar triunfante, muitos cidadãos apoiam a onírica teoria da recuperação de facínoras truculentos, que aproveitam a impunidade, facilitadora da adoção de crianças, para a catequese do crime.
Vimos líderes instigar o ódio, homens destruindo as matas e os animais, vimos a juventude sem destino, a fumaça da modernidade escurecer o ar e silentes e acuados cruzamos os braços, permitindo o deambular das atrocidades. E, enquanto a metástase incontrolável da anarquia se alastra, a justiça, de olhos vendados, prefere não intervir em nome da ordem e progresso.
Vimos o planeta outrora azul vestir-se de gris, massacrado pela ganância dos homens insensatos, vimos tremer a Terra, o vento soprar ensandecido e o oceano tenebroso avançar e devorar nossos campos e não fizemos nada, mesmo assim!
E subjugados, calamos o rugir de nossa perplexidade, enquanto o crime se impõe cresce e domina. Então, cidadãos do medo, nos habituamos com as desgraças, aprendemos a conviver com a pena de morte clandestina, aceitamos a banalização das injustiças e, tais zumbis caminhamos silentes e resignados rumo ao gélido holocausto da modernidade. E, reféns humilhados, vivemos em reclusão nas luxuosas cavernas do século vinte e um, onde a paz e a segurança são mera ilusão, pagando, como desprezíveis condenados, o alto preço do pecado da omissão!
A autora, Valderez de Mello, é advogada, escritora, poetisa, articulista do Jornal da Cidade de Bauru. Autora dos livros Lágrimas Brasileiras e Trama e Urdidura entre outros. Membro efetivo da Academia Jundiaiense de Letras Jurídicas, Academia Jundiaiense de Letras e Academia Feminina de Letras e Artes de Jundiaí