O papa eleito defende a pobreza como virtude. Pessoalmente, ele gostava de usar transportes públicos na Argentina, como sinal de humildade e igualdade com os outros do povo. E, ao ser eleito papa, escolheu para si o nome do santo mais "ideológico" da história católica: Francisco, em tributo a São Francisco de Assis. Este santo que, em sua época, fez uma crítica fortíssima à economia e à ética geral: rejeitou a riqueza como sendo um tipo de vício, rejeitou as vaidades do corpo como sendo imorais, e abraçou a simplicidade e a pobreza ? a exemplo de Jesus Cristo ? como sendo virtudes necessárias para um mundo melhor e uma vida mais santa.
O arcebispo Jorge Mario Bergoglio, agora papa Francisco, entra para a história como o primeiro latino-americano a ser escolhido para Sumo Pontífice da Igreja Católica. O primeiro proveniente de uma região, até há pouco tempo, chamada de "terceiro mundo". Um ato inusitado! Mas que certamente foi a escolha da grande maioria dos cardeais reunidos no Conclave. Um ato que, ainda, certamente agrada a teólogos como o brasileiro Leonardo Boff ? defensor da Teologia da Libertação, pois se a postura de Francisco continuar como crítica do sistema capitalista, muitos ideólogos da esquerda política encontrarão eco para seus discursos nos discursos papais ? coisa que era impensável na atuação do antigo papa, Bento XVI.
Certamente, o mundo conhecerá um novo grande líder. Um líder com possibilidades reais de influenciar multidões. O trono do apóstolo Pedro agora é ocupado por um homem conhecido, pessoalmente, por seu carisma e inteligência e, politicamente, tido como "progressista" pela maioria dos críticos políticos. O novo papa é um progressista político que, em entrevista, já afirmou ser amante da literatura de Dostoievski, que é mais uma de suas curiosas paixões.
Entretanto, apesar desses valores típicos da esquerda política, como a crítica ao acúmulo de bens (riqueza), e apesar de venerar o testemunho de São Francisco de Assis, até mesmo adotando esse nome como tributo, o recém-eleito novo papa, quando ainda era apenas um padre, e em meio à ditadura argentina (1976-83), fez questão de se opor a qualquer politização explícita do movimento jesuíta daquela época. Essa oposição a formas públicas de ideologia, então, também fazem parte da vida de Bergoglio e deve ser levada em consideração para analisarmos a sua personalidade. Por isso ? como já é costume no mundo atual ? quer o novo papa, Francisco, defenda mais valores ligados à esquerda política que à direita, ele nunca fará declaração aberta se posicionando nesses termos. Pois parece de bom tom dizer que a ética de São Francisco deve ser copiada, mas parece inaceitável a esses líderes assumir que muitos preceitos franciscanos se confundem com alguns conceitos socialistas.
O autor, Wellington Anselmo Martins, é professor universitário, mestrando em Filosofia (PUC), graduado em Filosofia (USC) / am.wellington@hotmail.com