Bairros

Tibiriçá em histórias humanas, produção e números

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 9 min

Na Praça da Matriz, o cenário é de calmaria e hospitalidade. Entre crianças que brincam tranquilas pelo lugar arborizado, um grupo de senhores se diverte com cartas de baralho, boa prosa e muitas histórias. O bate-papo entre vizinhos também se estende para as sombras das árvores nas calçadas. E mais do que tardes tranquilas, o distrito de Bauru, que fica aproximadamente a 13 quilômetros do Centro da cidade e tem menos de mil habitantes, também chama a atenção pela diversidade da produção do campo, maioria composta pela agricultura familiar (Leia mais nas próximas páginas). 

É em Tibiriçá que está sendo instalada, por exemplo, a primeira Usina de Beneficiamento de Leite de Bauru. Em fase final de instalação, ela contará com câmara fria, pasteurizador, embaladeira, banco de frios, tanque de recepção de leite, iogurteira e tacho de doce, e terá capacidade inicial para beneficiar cerca de quatro mil litros de leite por dia, além de produzir iogurte e doce de leite. 

Regularizar a produção de leite e derivados e com isso abrir um canal de comercialização do produto, com maior valor agregado, está entre os objetivos da instalação do projeto.

Quem está na expectativa pelo início do beneficiamento é o produtor Adriano Aparecido da Cunha. Ao lado da família, ele trabalha com gado de leite desde a infância e espera que a usina melhore os rendimentos da família e dos demais produtores de Tibiriçá. “Vendemos o leite para outras cidades e, com uma usina de beneficiamento instalada aqui, esperamos que tudo fique mais fácil e rentável”, projeta.

Com cerca de 60 vacas em ordenha, Adriano produz aproximadamente 380 litros de leite por dia e a média de produção de cada vaca é de 15 a 17 litros. Atualmente, Bauru tem 71 produtores de leite ligados à Associação de Produtores Rurais Ouro Branco (APROB). De acordo com Adriano, em Tibiriçá estão ao menos 30 deles.  

De acordo com a assessoria de imprensa da prefeitura, o valor total investido na usina, incluindo a aquisição de equipamentos, reforma e remodelação do prédio, gira em torno de R$300 mil e os recursos são do orçamento da Prefeitura Municipal.

 

Centro de Difusão de Tecnologia

O Centro de Difusão de Tecnologia está instalado na área do Centro Rural de Tibiriçá. Segundo a assessoria de imprensa da Prefeitura Municipal de Bauru, uma parceria com a Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru permite o desenvolvimento de pesquisas com o plantio de frutas tropicais, verduras e legumes em sistema convencional e de hidroponia, técnica de cultivo sem solo em que as raízes das plantas recebem uma solução de água e nutrientes.

Já uma parceria com Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati) deu início ao cultivo de seringueira. De acordo com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), o município de Bauru conta com 700 propriedades agrícolas produtivas, sendo 200 delas ligadas à agricultura familiar, que poderão usufruir do Centro de Difusão de Tecnologia.

 

Capacitação e orientação

Os produtores rurais também contam com cursos de capacitação e orientação oferecidos pelo município. Entre eles estão os cursos de tomate orgânico, cultivo de orquídeas, artesanato, jovem aprendiz no campo, turismo rural, piscicultura, ordenha, defumação, doces e compotas e o Programa do Leite (Proleite).

 

De agrofloresta a mini-horses de até R$ 80 mil


Pequeninos e encantadores, os mini-horses são uma das principais atrações em exposições agropecuárias, principalmente para as crianças. No Haras Tibiriçá, eles são os reis há algumas décadas. Segundo Nelson Quagliato, um dos produtores do haras, o valor comercial de cada animal pode variar entre R$ 1.500,00 e R$ 80 mil, dependendo da genética e do destino do bicho.

“A nossa criação começou há 40 anos, quando o meu sogro, Paulo Rangel, presenteou a neta, Débora Rangel Quagliato, com um pônei. A família gostou tanto do mini-cavalo que decidiu ter a sua própria criação voltada para exposições. Hoje, criamos os pôneis em duas fazendas de Bauru”, conta.

Ainda de acordo com Nelson, o Haras Tibiriçá tem cerca de 60 animais para exposição e um bom comércio em nível nacional. “Começamos com um animal e hoje temos uma genética especial. Nossa criação de mini-horse e pônei se destaca no ranking nacional das raças”.

 

‘Agrofloresta’

Agrofloresta ou sistema agroflorestal é o manejo que integra a agricultura, a floresta e o ser humano. E ter uma agrofloresta sempre foi o sonho do bancário aposentado José Venâncio da Silva, sonho que há cinco anos vem sendo construído em Tibiriçá.

O quintal da chácara de José Venâncio, que veio do Paraná, é coberto por uma mata composta por dezenas de árvores frutíferas, legumes, árvores nativas de diversas regiões do Brasil, como o Amazonas, algumas delas exóticas, de madeira nobre e em risco de extinção.

“Eu ando por este Brasil afora em busca de sementes e mudas para a minha plantação e também as distribuo para os amigos. Foi uma mudança de vida incrível. Eu saí do banco para uma vida sustentável em meio à terra. Sempre acreditei no convívio harmonioso do homem com a natureza. Disseram-me que seria impossível construir uma agrofloresta, mas a minha é prova de que é possível, sim”, acredita.

Biribá, Jaracatiá, cedro mogno, pau d’álho e dezenas de outras plantas são o orgulho do José Venâncio. E no meio de todas essas espécies cuidadosamente plantadas uma a uma pelo pequeno agricultor, que se julga um curioso da natureza, destaca-se a plantação de palmito pupunha.

Há três anos a produção é vendida para feiras de Bauru, consumidores que vão até Tibiriçá em busca do miolo da palmeira amazônica e até mesmo para indústrias.

“Este é um palmito ecológico, já que depois de cortada, a palmeira volta a crescer”, afirma. Na propriedade de José Venâncio há mais de oito mil pés de pupunha, que rendem cerca de 5 mil peças de palmito por ano.

 

Turismo rural 

O distrito de Tibiriçá também é cenário para o turismo rural de Bauru. O Acampamento e Pousada Tibiriçá atrai adultos e crianças desde 1990, quando a então fazenda de bicho da seda deu lugar ao turismo.

Comida caseira, hospedagem em chalés, criações de animais, passeios a cavalo, pesca, brincadeiras antigas, jogos, gincanas, competição, trilha ecológica e arvorismo estão entre as atividades oferecidas a pessoas de todas as idades que apreciam o conforto e as aventuras da zona rural. 

 

Serviço

O Acampamento e Pousada Tibiriçá fica no trevo de acesso ao distrito de Tibiriçá, no quilômetro 360 da rodovia Marechal Rondon.  Mais informações pelos telefones (14) 3223-2574 e (14) 9795-5061.

 

Histórias de quem vive por lá

Uma das vantagens de se viver em um lugarejo com menos de mil habitantes é que os moradores se conhecem. E um dos bauruenses mais conhecidos de Tibiriçá é “seo” José Cosmo, ou melhor, o Baté. Aos 84 anos, o ferroviário aposentado é patriarca de uma das famílias mais tradicionais do vizinho distrito. Já foi subprefeito de Tibiriçá e é conhecido também por sua atuação no Carnaval.

Encontrar Baté é fácil. Como um bom aposentado que vive em vilarejos, ele gosta de passar as tardes conversando e jogando baralho com os amigos na praça da Matriz. Mas o Carnaval é a sua paixão. Ele é o mais antigo integrante do Estrela do Samba de Tibiriçá, criado em 1982.

“Sempre morei na zona rural. Gosto muito dessa vida tranquila. Já o Carnaval, esse é um amor que Graças a Deus passei também para meus filhos e netos”.

 

A lenda da noiva do casarão

Que atire a primeira pedra quem nunca ouviu sequer uma história de assombração, principalmente na infância. Verdade ou mentira, as lendas urbanas atravessam gerações e gerações despertando medo, curiosidade ou mesmo incredulidade. 

E no distrito de Tibiriçá não é diferente. Por lá, a história de assombração mais conhecida e passada de boca em boca diz respeito à tragédia de uma noiva que, segundo os moradores, teria tropeçado nas escadarias do casarão de uma das fazendas de café do distrito no dia de seu casamento e morrido.

Pelas ruas do lugarejo, há quem afirma saber até mesmo qual é o túmulo da moça, que teria sido sepultada no cemitério local. Dizem por lá que, inconformado por não ter se casado com o seu amado, o espírito da noiva ainda pode ser visto andando pelos trilhos do trem, nas proximidades do casarão, pedindo para que as pessoas tirem o véu do seu rosto. Contam também que o semblante da noiva é de grande tristeza.  

 

950 habitantes

Distrito de Bauru, Tibiriçá foi criado em 9 de dezembro de 1919 com o nome  de Presidente Tibiriçá e, por um decreto de 1938, passou a ser Tibiriçá. Aproximadamente a 13 quilômetros do Centro do munícipio, atualmente o distrito tem 950 habitantes, de acordo com dados de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

Tudo começou quando, em 1902, a família Fraga, oriunda da cidade de Jaú, adquiriu uma gleba de terra de cinco mil alqueires.  Nessa época, Bauru se via às margens do progresso com a chegada da Estrada de Ferro Sorocabana e a criação da Estrada de Ferro Noroeste.

Em setembro de 1906, uma estação foi inaugurada nas terras da família Fraga. O distrito foi batizado com o atual nome depois de ser parada da viagem inaugural da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil feita pelo então governador de São Paulo, Jorge Tibiriçá Piratininga (1855-1928). Da movimentada estação que fez a vila prosperar, hoje as ruínas contam as histórias.

Na década de 1920, Tibiriçá foi alçado a distrito de Paz e recebeu o cartório de Registro Civil. Um ano mais tarde veio o primeiro estabelecimento comercial, a Casa Mendes, e a inauguração do Cemitério Municipal.

Até o final desta mesma década, Tibiriçá ganhou forças com a produção de café. Nessa época, surgiram as primeiras máquinas de café, olarias, serrarias, moinho de fubá e diversos outros estabelecimentos comerciais, além de um hotel para viajantes. Em 1932 foi criado o Grupo Escolar de Tibiriçá.

Quando a história é a agricultura, um dos destaques históricos é a imigração japonesa que impulsionou as culturas agrícolas do distrito. Os orientais exerceram influência cultural nos hábitos do lugarejo e implantaram as suas técnicas no dia a dia agrícola. Uma época que também ficou marcada pelas festas típicas dos orientais.

Atualmente, os habitantes de Tibiriçá contam com Unidade Básica de Saúde, Centro de Referência da Assistência Social (Cras), creche conveniada, Biblioteca Ramal, rede de abastecimento de água (DAE), tratamento de esgoto, ruas asfaltadas, Base da Polícia Militar, academia ao ar livre, campo de futebol, Centro de Treinamento Equestre, Escola Estadual Major Fraga, subprefeitura e serviço de Correios.

Fonte: Assessoria de imprensa da Prefeitura Municipal de Bauru

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