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Entrevista da Semana: Kláudio Cóffani Nunes

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 9 min

“Não adianta você ser a favor das questões ambientais se isso não vier com ações. Sem ação, palavras são apenas palavras”. Kláudio Cóffani Nunes carrega tal pensamento desde a juventude. Advogado, geógrafo, mestre em engenharia de produção e especialista em gestão ambiental, ele dedica boa parte do seu tempo à paixão pelo meio ambiente.

Ambientalista “de carteirinha”, Kláudio foi um dos fundadores do Instituto Ambiental Vidágua, onde desenvolveu ainda mais a sua necessidade de trabalhar em prol da sustentabilidade e teve a oportunidade de participar efetivamente da defesa do meio ambiente através do Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente (Comdema) e de comitês de bacias hidrográficas do Estado de São Paulo, órgãos dos quais ainda participa.

“Também pude ser conselheiro do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) e membro do Conselho Nacional dos Recursos Hídricos. Coordenei a rede de organizações não governamentais (ongs) da Mata Atlântica por muitos anos, onde conseguimos uma doação do Banco Mundial no valor de US$1 milhão. Tudo isso foi feito com o envolvimento de grupos de pessoas dedicadas”, acrescenta.

Atualmente, ele se destaca como consultor em gestão ambiental e sustentabilidade para empresas e é diretor voluntário do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), onde ajuda a desenvolver o projeto “Olhar Verde”.

Apaixonado pela família, o entrevistado de hoje se diverte ao contar sobre a banda de rock que teve na juventude e se emociona ao falar de fé. Leia, a seguir.


Jornal da Cidade - Quando a questão ambiental passou a fazer parte dos seus dias?

Kláudio Cóffani Nunes - Eu voltei a minha atenção e passei a me preocupar, ler, estudar e agir em relação a isso desde o final dos anos 70, tanto que a minha primeira faculdade foi oceanografia, no Rio Grande do Sul. Estudei até um certo período e perdi o encanto por causa de brigas e disputas de professores que eu julgava estarem acima da fogueira da vaidade, uma decepção muito grande para um jovem idealista. 


JC - Você desistiu da faculdade e voltou para Bauru?

Kláudio - Sim. Voltei e fiz faculdade de geografia. Virei professor de cursinho e tive a oportunidade de ensinar de tudo sobre o Brasil e o mundo para alunos espetaculares que queriam muito estudar e passar no vestibular. Pude fazer a minha pregação ambiental. Um ser humano estudando é um ser em evolução, e sempre gostei muito disso. Um de meus alunos, por exemplo, foi o prefeito Rodrigo Agostinho. Na época, ele já tinha um grande conhecimento ambiental. A nossa aproximação resultou em bons trabalhos e acabamos fundando o Instituto Ambiental Vidágua ao lado de pessoas como o Clodoaldo Gazzetta e outros seres humanos fantásticos que, juntos, batalharam por muitos anos para Bauru ser uma cidade melhor.


JC - Nessa época, quais foram as grandes batalhas ambientais?

Kláudio - Uma das grandes lutas do Vidágua era o tratamento de esgoto. Somente agora, quase 20 anos após o início da luta, o próprio Rodrigo Agostinho chegou a uma fase da vida em que politicamente ele conseguiu dinheiro para o tratamento de esgoto. Não adianta você ser a favor das questões ambientais se isso não vier com ações. Sem ação, palavras são apenas palavras.


JC - Quais foram as suas experiências mais marcantes com o Vidágua?

Kláudio - Com o Instituto, eu pude participar e ainda participo de alguns coletivos de defesa ambiental, como o Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente (Comdema) e os comitês de bacias hidrográficas do Estado de São Paulo, dos quais participo até hoje. Pude ser conselheiro, ao lado do atual prefeito, do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), que no fundo atua como um deputado federal ambiental, além de ter sido membro do Conselho Nacional dos Recursos Hídricos. Também coordenei a rede de organizações não governamentais  ongs) da Mata Atlântica por muitos anos. A equipe da Rede Mata Atlântica desenvolveu um projeto e eu fui convidado pelo Banco Mundial a apresentar tal iniciativa em Washington, nos Estados  Unidos. Na ocasião, nós conseguimos que o banco fizesse uma doação de US$1 milhão para o projeto. Então, nos anos 90, nós conseguimos uma grande dimensão pelo Instituto Vidágua, que era um time de protagonistas, um conjunto formado por pessoas dedicadas.   

 

JC - Quando o professor, geógrafo e ambientalista se tornou advogado? 

Kláudio - Eu comecei a faculdade de direito no final dos anos 80, praticamente na mesma época em que cresceu a minha atuação a favor do meio ambiente.  No jurídico, eu busquei trabalhar com a área ambiental e, felizmente, fui me especializando com o passar dos anos. Em Bauru, o caso mais notório foi o da população de um bairro contaminada por chumbo. O caso ganhou destaque nacional. O Vidágua entrou com a ação e eu participei como advogado. Até hoje o caso está andando, mas parou a fonte de poluição do jeito que ela existia. Por toda a minha vivência, eu percebi que as empresas são carentes de gente que as ajude a ser ambientalmente corretas. Com isso eu também vi uma nova oportunidade de trabalho. 


JC - Essa é, hoje, a sua maior atuação profissional?

Kláudio - Profissionalmente é a minha maior atuação, sim. Eu passei a atuar como consultor em gestão ambiental e sustentabilidade para empresas. Eu ajudo organizações e empresas a desenvolver um planejamento estratégico corporativo e sustentável. É um trabalho onde também se desenvolve a cultura e o comportamento das pessoas, porque, infelizmente, a questão ambiental sempre foi uma besteira para muita gente. Mas também estou trabalhando em outras coisas que me ocupam o coração e a mente. 


JC - E quais são esses projetos?

Kláudio - Um deles é o projeto de revitalização do Vale do Igapó, em Bauru. É um enorme trabalho desenvolvido já há alguns meses e que vai ajudar a recuperar essa área da cidade e fomentar o urbanismo sustentável. Também estou participando do projeto Renove, de reciclagem de óleo de cozinha, feito pelo Instituto Índice de Bauru. O projeto visa a coleta de óleo em todo o Estado de São Paulo e já fomos convidados a expandir para a região Sul do País. Este é um dos principais projetos de coleta de óleo do Brasil. Também há o projeto de um condomínio aquícola em Minas, de cultivo de peixes. É um plano ambientalmente sustentável, economicamente viável e socialmente justo pensado com investidores de São Paulo e Minas Gerais. É algo diferente e interessante. Além disso, sou diretor de meio ambiente da unidade de Bauru do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) e diretor adjunto no Estado. No Ciesp, o meu trabalho é voluntário, assim como outros profissionais da diretoria fazem.


JC - Como teve início o projeto Olhar Verde?

Kláudio - Este é um projeto que tem muitos apoiadores e que é feito pelo Ciesp em parceria com a Prefeitura Municipal. A ideia partiu do Domingos Malandrino e foi articulada por muitas pessoas até chegar ao amadurecimento. O Olhar Verde tem um dos maiores e mais estruturados projetos de educação ambiental do Brasil. Para se ter uma ideia, há telessalas que acompanham em tempo real as palestras e há, também, quem acesse as aulas em várias partes do mundo através do site. É uma honra participar de uma obra coletiva como esta.


JC - Você foi candidato a deputado estadual, certo?

Kláudio - Eu fui candidato a deputado estadual pelo PDT. Foi uma experiência interessante que eu quis conhecer, mas eu aprendi que uma campanha eleitoral é uma empresa que precisa ter uma articulação grande e com dinheiro. Infelizmente, uma pessoa não consegue se eleger sendo somente um bom candidato.


JC - Você pensa em se candidatar novamente?

Kláudio - Neste momento da minha vida, não.


JC - E o tal do rock ‘n’ roll?

Kláudio - (Risos) Eu tinha uma banda de rock em Bauru. Era o vocalista e cantei em muitos bares da cidade. Outro dia, olhando fotos daquela época, eu me vi vestido com camisetas que levavam frases como “salvem as baleias”, “salve o Brasil”... Eu ainda gosto muito de cantar e estou em uma idade em que eu e muitos amigos já temos um ciclo familiar e profissional que nos permite tempo para montarmos uma banda novamente. Bom, tempo eu já tenho, só me falta a banda (risos).  


JC - A vida na noite rendeu boas histórias?

Kláudio - Muitas (risos). Eu tinha um cabelo grande e cantava apenas rock, mas, ao contrário do que as pessoas estão acostumadas a ver, eu não bebia, não fumava e muito menos usava drogas, porque eu sempre pensei que o certo é cuidar da saúde do corpo. Bem, como eu sabia inglês, eu fazia traduções para ganhar um dinheiro extra. E sempre que eu estava tocando, um amigo me chamava na mesa na hora do intervalo para tirar dúvidas sobre um livro que eu estava traduzindo para ele. Percebi que estava estranho e perguntei a ele porque ele me chamava para falar de estudos no bar, na hora do show. Rindo, ele disse que estava comendo e bebendo às minhas custas e me explicou que as pessoas me achavam um roqueiro doidão e ele dizia que eu era um “cdf”, que nem bebida alcoólica eu ingeria e apostava com os colegas que podia provar isso. Então, ele me chamava até a mesa para perguntar coisas dos trabalhos da faculdade e eles viam que eu estava sóbrio. E ele ganhava as apostas (risos).

 

JC - Religião.

Kláudio - A minha vida sempre foi norteada pela família. Sou filho de um casal que a vida toda atuou na Igreja Católica. Somos cristãos e a nossa fé precisa se transformar em obras. Eu aprendi com meus pais que a gente precisa transformar a fé em ações sociais. Já fui líder de comunidades jovens e atualmente sou membro da coordenação diocesana da Campanha da Fraternidade. Divulgo e explico os temas das campanhas em palestras pelas paróquias. Procuramos mostrar como esses temas podem ser vividos na prática, principalmente para os jovens. As pessoas dizem que os jovens não gostam de religião, mas eles adoram porque, assim como os adultos, querem ser felizes, e as igrejas ajudam o ser humano nesse aspecto. Sou muito devoto de São Francisco por sua humildade e seu exemplo de fé, e estou muito contente com a escolha do novo papa que, inclusive, escolheu o nome de Francisco.    


JC - Família.

Kláudio - Tenho uma admiração muito grande pelos meus pais, que estão casados há 57 anos, e pela família que eu construí. Minha esposa, Cláudia, é um exemplo de mulher e de profissional. Gosto de ver a dedicação e o carinho que ela tem com o trabalho de enfermeira no Centrinho. Já meus filhos são espetaculares. Um deles, Dhi, de 24 anos, vive na Alemanha, enquanto o Fran, de 21 anos, está em São Paulo. 

 

Perfil

Nome: Kláudio Cóffani Nunes

Idade: 49 anos

Local de Nascimento: Bauru

Esposa: Cláudia Matiole

Filhos: Dhi e Fran Matiole Nunes 

Hobby: Leitura

Livro de cabeceira: Bíblia 

Filme preferido: Gosto de comédias

Estilo musical predileto: Rock n’ roll 

Time: São Paulo 

Para quem dá nota 10: Aos que se dedicam diariamente ao trabalho por um mundo melhor

Para quem dá nota 0: Para quem assume o egoísmo e o descaso nas rotinas profissionais 

E-mail: sustenthabil@gmail.com 

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