Suponha, leitor, que chove. Suponha que chove muito. Chove torrencialmente. Chove a cântaros, como se dizia, que é chover mais que torrencialmente.
Suponha que é sexta-feira, as horas são dezessete e vinte e um, o apito da fabrica retini. Suponha que você não traz guarda-chuva, (carro eu sei que você não tem.), mas você tem de ir assim mesmo. Lembra, é sexta-feira, a fábrica fecha no fim de semana.
Você não supõe, vai. E vai para casa porque, com este tempo o happy-hour, ou jogo de futebol de salão, está cancelado. Sai embaixo da torrente, com dois passos está ensopa.
Suponha, com certo otimismo, que o ponto de parada do ônibus é em frente à fabrica. Suponha que não tem cobertura.
O ônibus das dezessete e trinta não vem por causa da tempestade (nem precisa supor) e você não chega ao destino final deste que é o ponto de partida do outro coletivo que o levará para casa. Suponha diferente: suponha que o ônibus se atrasa, mas vem. Que está completamente lotado e não sobra acento. Você vai em pé, incomoda o próximo por estar encharcado. Que ele chega ao destino e lá está o outro, à sua espera, suponha.
Você o toma, está vazio, para sua felicidade, mas não parte porque as ruas que o levam para casa estão intransitáveis. Afinal, quatro horas e treze minutos depois você chega ao lar, ah! Doce lar, e constata que perdeu o happy-hour, ou deixou de ir jogar seu futebol de salão, que a sopa está fria, que a tv está fora do ar, que seu filho dormiu sem lhe dar um beijo, que sua mulher, de impaciente, tem dor de cabeça...
Muita calma nessa hora, leitor, amanhã é sábado. Como dizem os ditados: Não há mal que sempre dure; Depois da tempestade vem a bonança; Há males que vem para o bem, etc.
Relaxou? Que bom. Então, suponha coisas boas: que você escapou de um arrastão ocorrido no seu restaurante preferido. Que você não quebrou uma perna durante o jogo, ou, no mínimo, não discutiu com um companheiro de longa data. Que seu filho não lhe exigiu duas horas de folguedos. Não comeu aquela sopa insonsa. Não foi obrigado a assistir Salve Jorge nem BBB13. Não ouviu sua mulher reclamar de enxaqueca... Olha quanta alegria.
Suponha, apesar de tudo, que você ainda está disposto e, ao invés da cama prefira a sua poltrona favorita. Senta-se, mas falta-lhe algo. Se você sentir um vazio, uma falta de esperança, anime-se. Nessas horas, suposto leitor, uma boa leitura vem a calhar.
Evita os jornais. Trazem notícias velhas. Manchetes nefastas: Três meses, doze assassinatos; Ciclista morre atropelado na Rondon; Vitima de sequestro fica duas horas em poder de sequestradores; bandido invade residência na Bela Vista; Em doze horas quatro tentativas de homicídio. Manchetes politicas: Batata assume suplência de olho na Semel (quer mais velho que isso?). Manchetes cotidianas: Buracos nas ruas retornam depois da chuva; Nações Unidas alagada; Falta água (falta água???) na região norte; Torneiras secas na zona leste; O DAE informa: com o rompimento da adutora... Continua vazamento na quadra onze da Rua Padre Anchieta após terceiro reparo... É papel do jornal - sem trocadilhos - dar notícia.
Abandona os jornais. Sugiro um bom livro. Os Sertões, por exemplo, de Euclides da Cunha. Tão denso quanto este temporal... (impublicável). Você é desagradável, hein! Adeus. Atenciosamente.
Jose Luis Scigliano