O chamado era assustador. Um capotamento na Marechal Rondon (SP-300) com uma criança de 3 anos entre as vítimas. Em minutos, o barulho da sirene sinalizava que o socorro chegou. São duas motolâncias que, justamente pela agilidade em meio ao trânsito caótico de Bauru, começaram a ser usadas este ano pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) da cidade.
Denominadas de Unidade Rápida de Atendimento por Motociclistas (Uram), as duas motos Yamaha 250 conseguem chegar de quatro a sete minutos antes das ambulâncias. O tempo-resposta médio, de acordo com o próprio Samu, é entre cinco e oito minutos.
“É algo usado em grandes cidades por conta do trânsito. Pela agilidade, as motolâncias prestam um primeiro atendimento fundamental e que pode salvar uma vida”, aponta Laudicéia Rodrigues Crivelaro, diretora da Divisão Técnica do Departamento de Unidades de Pronto-Atendimento (UPAs) e Urgência de Bauru.
As motolâncias atendem vítimas de traumas, como foi o caso do acidente ocorrido na manhã de quinta-feira (21). Porém, são mais usadas em casos clínicos como infartos, anginas, ataques cardíacos e derrames cerebrais. Nessas situações, quanto menor o tempo do socorro, menores serão as sequelas e a probabilidade de morte.
Pilotadas por enfermeiros ou técnicos de enfermagem capacitados para conduzir veículos de urgência, elas são equipadas com desfibrilador externo automático, ventilação mecânica, acesso venoso e medicamentos de urgência e emergência.
“As motolâncias não são para transporte. Elas antecedem a chegada da ambulância de suporte avançado (USA - UTI Móvel) para adiantar o atendimento”, destaca Crivelaro.
Além de driblar o trânsito inchado de Bauru, as motocicletas usadas pelo Samu também são vantajosas por conseguirem adentrar em territórios de difícil acesso, onde as ambulâncias muitas vezes não conseguem chegar com facilidade.
Quando necessário, atuam ainda como batedores, abrindo o caminho para as viaturas do Samu.
44 atendimentos
As motolâncias começaram a funcionar efetivamente em 2013. Em dezembro do ano passado, circularam pela cidade em caráter experimental. Segundo estatísticas do serviço de atendimento, até o fim de fevereiro, as duas motos realizaram 44 socorros.
“É uma média de três saídas por dia. Não consideramos um número pequeno. Houve algumas cidades que não funcionaram, pois os condutores sofreram acidentes. Aqui em Bauru vem funcionando muito bem e não houve problemas”, aponta a diretora Laudicéia Crivelaro.
As motolâncias funcionam das 7h às 19h. “Usamos durante o dia justamente porque o trânsito é maior”, aponta a diretora, complementando ainda que, para evitar acidentes, as motos não operam em dias de chuva.
Além do Samu, o Corpo de Bombeiros de Bauru também já atua com motocicletas para resgates.
400 chamadas por dia
Localizada ao lado do Hospital Estadual (HE), a central do Samu recebe média de 400 ligações diariamente. Contudo, dessas, aproximadamente 80 são chamadas efetivas e que necessitam do deslocamento dos veículos.
“O resto é trote ou pedidos de informação”, explica Laudicéia Rodrigues Crivelaro. Quando a situação é real, o chamado chega até a central e, depois, dependendo da localidade, é direcionado para uma das bases do Samu.
‘Já conseguimos evitar um suicídio’, relata enfermeiro
Frequentemente noticiadas como as vilãs do trânsito, as motos, nesse caso, servem para salvar vidas. O enfermeiro André Duarte de Almeida, 35 anos, conduz uma das motolâncias de Bauru e sabe que a agilidade do veículo já salvou vidas na cidade.
“Há um mês, houve uma tentativa de suicídio no Jardim Europa. Com facas, a mulher fez vários cortes em seu corpo. Quando chegamos, conseguimos estancar o sangramento e salvá-la. Mais alguns minutos, ela teria morrido”, relata.
André dirige veículos do Samu há nove anos. Contudo, confessa que a atenção tem que ser redobrada agora. “Sabemos da importância de chegar rápido, mas precisamos de muita atenção para minimizar os riscos”, pontua.