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Ijailton Antunes de Matos é a primeira vítima fatal da dengue em Bauru |
Valderez Leopoldo da Silva, 74 anos, olha para a aliança e chora. Nesta terça-feira, ela perdeu a pessoa que a acompanhava há meio século. O aposentado Ijailton Antunes de Matos, 77 anos, morador do Núcleo Gasparini, foi vítima de uma tragédia já desenhada. Dos mais de 1.600 registros de dengue em Bauru, ele é o primeiro caso fatal da doença na cidade em 2013.
Na sua casa, agora vazia, a esposa mostra todos os cuidados que toma para evitar a proliferação do mosquito. Mas a cautela entre seus muros não adiantou. A morte do aposentado evidencia uma situação alarmante, cuja culpa pode ser atribuída tanto ao poder público quanto a toda a população.
Segundo a família, há cerca de 15 dias, Ijailton de Matos apresentou febre forte pela manhã. Como o problema não passava, foi levado ao Hospital Estadual (HE). “Ele estava muito bem. Só a febre mesmo que estava forte. Como ele tinha tomado remédios para a febre, sua pressão estava baixa. Já havia suspeita de dengue e ele ficou internado”, conta a esposa.
A partir daí, o estado do paciente só piorou. “No começo, ele só tinha a febre mesmo. Mas, a partir do quinto dia de internação, tudo piorou. Travou sua língua e ele nem andava mais. Ficou lá só piorando”.
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Atestado de óbito confirma causa da morte |
Nesta segunda-feira, o aposentado foi transferido para Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do HE. No dia seguinte, contudo, não resistiu e morreu. “Só depois que ele morreu, falaram que era dengue”, reclama a esposa da vítima.
O JC teve acesso ao atestado de óbito. Nele, consta que a vítima morreu por um “choque não esclarecido – dengue”. Segundo a assessoria de comunicação do HE, o aposentado teve uma infecção no sistema nervoso central provavelmente pela debilidade causada pelo vírus da dengue.
Dengue ‘comum’
Ijailton de Matos é a sétima vítima fatal de dengue na história de Bauru. Entretanto, ao contrário dos outros casos - todos registrados em 2011 -, o aposentado não teve a forma mais grave da doença: a hemorrágica.
O secretário municipal de Saúde, Fernando Monti, afirma que a morte ocorreu por conta de “doenças de base” que o paciente já tinha. “Pela nossa investigação, vimos, inclusive, que ele já apresentava disfunções sanguíneas antes de ter a dengue”, aponta.
O titular da pasta afirma ainda que a evolução da doença foi diferente do esperado. “O estado febril passa após uma semana. Ele teve esse estado agudo, mas continuou com oscilações de febre após o 10.º dia da evolução da doença”.
Há poucos meses, o aposentado tinha vencido, após 37 sessões de radioterapia, um câncer de próstata. De acordo com a família, exames mostravam que ele estava curado. “Tirando o câncer que ele não tinha mais, a saúde estava muito boa”, rebate Valderez Leopoldo da Silva, esposa da vítima.
O aposentado Ijailton Antunes de Matos deixa um filho de seu primeiro casamento e dois netos. Ele foi velado no Centro Velatório Terra Branca e sepultado no Cemitério do Ypê.
‘Ficam a solidão e a indignação’
Em 30 de maio do ano passado, Valderez Leopoldo da Silva e Ijailton de Matos trocaram as alianças novamente. Era a comemoração de 40 anos de matrimônio. Antes, ele havia a “enrolado” em 10 anos de namoro, o que cria uma união de meio século.
O casal, contudo, não teve filhos. “A casa fica vazia agora. Fica a solidão. Estar sozinha é ainda mais dolorido”, lamenta a mulher, olhando para os cômodos da residência, localizada na quadra 3 da rua dos Metalúrgicos, no Gasparini.
Mas não é só a tristeza e a solidão que preenchem o vazio da casa. A família também está indignada como tudo ocorreu. Eles reclamam de negligência no HE. “Quando ele (Ijailton) foi ao hospital, o médico até brincou que queria a receita para chegar aos 77 anos com aquela saúde”, relata a esposa.
Além de criticar o fato de o marido só ter piorado após a internação, Valderez reclama que o teste apontando dengue só ficou pronto após a morte. “Além disso, neste último fim de semana em que ele estava ruim, falaram que não tinha médico. Eu pedi para chamar e eles disseram que não podiam chamar médicos aos fins de semana”.
Por meio da assessoria de comunicação, o HE alega que, aos finais de semana, ficam médicos plantonistas e na emergência na instituição.
Para a esposa, contudo, fica um misto de solidão e indignação. Sentimentos somados que, mesmo sem proceder, transformam-se em certa culpa. “É a minha mágoa. Ele sussurrava que queria ir embora e eu o deixei no hospital”, finaliza Valderez da Silva, emocionada.
Secretário diz que a morte decorreu de complicações que paciente tinha
Até quando? É essa a pergunta que se faz após a confirmação da primeira vítima fatal de dengue em 2013. O fato deixa nítido que tanto o poder público quanto a população precisam intensificar o controle da doença para evitar um ano mais trágico que 2011, quando Bauru teve a pior epidemia da história.
Contudo, o secretário municipal de Saúde, Fernando Monti, afirma que a estratégia de combater a doença não vai mudar. “A investigação mostra que o paciente morreu por complicações que ele já tinha. Por isso, lamentamos muito a morte, mas não vai mudar em nada a nossa estratégia”.
Segundo Monti, justamente por esse motivo, o fato não vai sequer intensificar o controle no Gasparini, bairro em que a vítima fatal morava. Conforme divulgado pela assessoria de comunicação da prefeitura ontem, a localidade não é, atualmente, alvo do bloqueio de criadouros e nem de nebulização.
O secretário, entretanto, confirma que o município não tem “potência” para fazer o controle total da doença. Ele afirma que a parte de atendimento, diagnóstico e tratamento está bem melhor que 2011, mas “não temos potência suficiente para controlar as condições ambientais que favorecem a dengue”.
Ao passo que o problema se agrava, leis que poderiam auxiliar no combate não saem do papel. É o caso do IPTU Progressivo no Tempo, que amenizaria em muito a questão dos terrenos baldios, com a possibilidade até da perda da propriedade mal cuidada ou abandonada.
Mas não adianta cobrar só o poder público. Em matéria veiculada pelo JC no mês passado, ficou evidente como a população, mesmo diante dos casos que só crescem, não adota medidas preventivas.
Nessa combinação entre falta de “potência” pública, leis que não saem do papel e má educação das pessoas, é preciso “torcer”. “Sinceramente, estou torcendo. Torcendo para esse frio continuar”, finaliza Fernando Monti.
1.616 casos
Além da confirmação da primeira morte, o município divulgou ontem mais 107 casos de dengue. Assim, em 2013, Bauru já soma 1.616 casos da doença, sendo 1.607 autóctones e nove importados.
Em 2011, Bauru teve a pior epidemia da história. Na ocasião, seis pessoas morreram e 4.366 foram contaminadas. Exatamente no dia 23 de março daquele ano, a cidade tinha 777 registros da doença, ou seja, menos metade do número já apresentado em 2013.
Em meio a esse contexto, vale destacar as medidas preventivas divulgadas pela Secretaria de Saúde: evitar vasos de plantas com pratos de plásticos; manter ralos internos e externos tampados, bem como vasos sanitários; manter as piscinas limpas, tampadas ou desmontadas, quando possível; descartar todo material inservível com potencial para criadouro de larvas do mosquito Aedes aegypti (garrafas, latas, embalagens vazias, pneus e outros) e manter a limpeza das calhas antes de sair de casa por vários dias.
