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Os desafios do papa Francisco

José Fernando da Silva Lopes
| Tempo de leitura: 3 min

Em manhãs de certos domingos faço percurso invariável. Atravesso grande avenida, tomo uma rua e já estou no coração de antigo bairro de periferia com casas simples e população simpática e ordeira. Dirijo por algumas ruas asfaltadas e por outras ainda sem asfalto, passo em frente de movimentado supermercado e pouco adiante chego ao destino, grande área reservada para praça ainda com pouca arborização e melhoramentos. Ali, à direita, encontro a velha Kombi fornecedora de carvão de excelente qualidade e à minha esquerda solitária banca de verduras, legumes e frutas com esplêndida qualidade e organicamente produzidas, com preços bastante justos. Abasteço e retorno pelo mesmo bairro pouco alterado o trajeto de volta.

Na ida e na volta desse trajeto passo defronte a três ou quatro pequenos templos identificados com toscos letreiros e quase sempre deparo com muitos fiéis que para eles se dirigem. Respeitosamente, com roupas simples e discretas, os homens usam paletó e gravata ou, então, camisa de mangas longas com botões fechados até a altura do pescoço e as mulheres com saias ou vestidos bem abaixo dos joelhos. Invariavelmente são os homens que carregam as bíblias e tanto neles como em suas mulheres chama atenção a faces alegre, própria daqueles que se dirigem para encontros e momentos prazerosos. Quase todos são adultos. Raramente encontram-se pessoas que já estejam na terceira idade. Cenas como essas se repetem nos sábados e domingos em quase todos os pontos de um país hegemonicamente cristão e de maioria católica.

Neste último domingo já marcado pela investidura do papa Francisco, repetindo o percurso e os encontros casuais com aqueles fiéis imaginei com alguma certeza que eles integram primeira ou segunda geração de pessoas que, ao contrário de seus pais e de seus avós, apartaram-se por algum motivo de religiões tradicionais e encontraram seu Deus em pequenos templos de periferias, tenham eles qualquer nome ou detalhes de credo e culto. Essa realidade muito recente que foi se expandindo nos últimos vinte ou trinta anos vicejou nos mesmos evangelhos enfocados em novos valores e através de articulados discursos, alguns discretos e outros transmitidos aos berros como se Deus tivesse dificuldade de audição. Todos eles, porém, aparentando notável força de convencimento e de fidelidade.

A investidura papal do cardeal Bergoglio, um jesuíta que escolheu o nome Francisco, parece refletir, dentre tantos outros aspectos, simbólica preocupação de reconquista de espaços desperdiçados e de conquista de novos espaços em busca de fieis. Os jesuítas historicamente são notáveis para divulgar a boa nova em todos os pontos do planeta. E São Francisco de Assis - que exibiu simplicidade e humildade como contraponto da opulência e soberba que ao seu tempo contaminavam os valores do cristianismo - apontou o correto caminho do despojado e humilde engajamento para servir a Deus.

Na trajetória humana a reconquista é mais penosa que a conquista e, principalmente, nos ambientes de periferia e no modo de ser e de viver de seus moradores, pessoas muito simples e de boa fé, parecem residir tanto a justificação da investidura do Papa Francisco e de seu nome como a missão pastoral que lhe foi posta. E que exigirá humilde ajustamento e correção de posturas, novos engajamentos e exemplos de vida marcados pelas imposições da modernidade e delicadíssima afinação de discursos uniformes, simples e coerentes com aptidão para levar coloquialmente ao coração de cada homem a religião de seu Deus e seus valores de vida, de amor e de fé.

O tempo desperdiçado mostra que a missão será árdua e lenta passará por algumas gerações e por vários papas sucessores de Francisco, sendo prudente lembrar para que não se desanime e nem se perca o rumo que toda caminhada, como ensinou a paciente sabedoria chinesa de Mao Tse Tung, começa com o primeiro passo. Nestes nossos dias com secular atraso o primeiro passo está sendo dado.

O autor, José Fernando da Silva Lopes, é advogado

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