Éder Azevedo |
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Edson Cardia fala de suas paixões e como conciliar interesses tão diferentes |
Três paixões movem a vida profissional de Edson Cardia: a Biologia, o Direito e a aviação. Aparentemente, são inconciliáveis. Porém, basta alguns minutos de conversa com Cardia para entender como tudo se encaixou perfeitamente e as três áreas pavimentaram uma trajetória bem sucedida e gratificante também no aspecto pessoal. Unindo as três paixões, existe o que este repórter ousa chamar de vocação para ensinar, uma vez que Cardia sempre exerceu, e ainda exerce, a função de professor. Seja no ar, no Direito ou Biologia, mais que aprender e se aperfeiçoar, sempre houve a preocupação e dedicação para transmitir conhecimento e formar novos profissionais. “O professor se realiza com o sucesso de seus alunos”, resume o entrevistado.
Nascido em São Paulo, Cardia começou a lecionar em 1973, quando ainda estudava Biologia na Universidade do Sagrado Coração, curso no qual se formou em 1977. Quatro anos depois, obtinha seu diploma também em Direito. “Em 1982, entrei na Polícia Civil, foi quando fui para a Academia de Polícia em São Paulo. Parei um pouco com o magistério, porque não dava para conciliar. O trabalho de delegado de polícia absorve muito. Absorve a gente 24 horas por dia e sete dias por semana”, declara Cardia, que começou na Polícia Civil como investigador e onde, além de delegado, foi também corregedor.
Mesmo com a rotina puxada das delegacias, Cardia não abriu mão de um sonho de infância: a aviação, que se tornou outra ocupação profissional. Tirou seu primeiro brevê e, oito anos depois, chegou a piloto de linha aérea comercial. Além disso, concluiu curso de piloto de helicópteros da Força Aérea Brasileira no 1º Esquadrão do 11º Grupo de Aviação, na época, sediado em Santos - hoje está em Natal (RN) -, abrindo novos horizontes para seus voos.
Cardia tem mestrado e doutorado no programa de Educação para a Ciência da Faculdade de Ciências da Universidade Estadual Paulista (Unesp), é Especialista na área do Direito Penal e Processo Penal pela Escola Paulista de Direito e segue dividindo seus conhecimentos como professor, lecionando no curso de Direito do Instituto de Ensino Superior de Bauru (Iesb/Preve) e ministrando aulas na Academia de Polícia. “Hoje, sou professor e coordenador de ensino de graduação e pós-graduação do Iesb”, observa. Apaixonado por Direito, é crítico em relação à lentidão da legislação brasileira, que dificulta o trabalho de autoridades judiciais e a aplicação das próprias leis, resultando em carência à população. Cita Rui Barbosa para sintetizar seu pensamento: “Justiça que tarda não é Justiça, é injustiça”.
E os voos seguem, mas agora só para relaxar. “Hoje é hobby. Fico em Bauru, que tem um centro de voo a vela muito bom, reconhecido nacionalmente. Bauru deve venerar sempre o que eu chamo de monumento”, enaltece.
JC - São três paixões...
Cardia - Sim. A primeira que veio foi a Biologia. Eu me formei em Biologia pela Universidade do Sagrado Coração. Acabei exercendo o magistério nos cursos de ensino médio e também cursinho. Depois, veio a Polícia Judiciária e, junto, a aviação. Na Polícia Judiciária, como delegado de polícia, trabalhei em algumas cidades antes de chegar a Bauru. Comecei na região de Presidente Prudente e, posteriormente, vim para a região de Bauru, onde trabalhei em Lucianópolis, Duartina, Cabrália Paulista, Lençóis Paulista, Agudos e, finalmente, Bauru.
JC - Com uma rotina de delegado, você ainda conciliava a função de professor?
Cardia - No início, quando ingressei na Academia de Polícia, eu era delegado assistente. Como assistente e já como professor da Academia de Polícia, fui o primeiro coordenador da Academia aqui em Bauru. Tínhamos na época uma Coordenadoria de Ensino, que se transformou, depois, em Núcleo de Ensino. O primeiro coordenador da Academia fui eu. Ficava fácil, eu mesclava as duas atividades. Já naquela época tivemos os maiores concursos para ingresso e aperfeiçoamento da Academia de Polícia. E eu também, eventualmente, dava aulas em São Paulo.
JC - Com estas múltlipas atividades, como ficava o relacionamento com a família?
Cardia - Este é o grande problema. Para o policial civil e especialmente para as autoridades policiais, a família acaba ficando em segundo plano. Então, a família sofreu bastante com isso. E eu também. O crescimento de meus filhos não foi bem acompanhado por conta disso. Quando eu vi, eles já estavam crescidos. Mas isso até hoje é assim no trabalho de delegado. Nas cidades pequenas mais ainda, porque ele está no trabalho as 24 horas do dia, é chamado a qualquer hora.
JC - Como era a atividade de delegado?
Cardia - Em 1992, veio para Bauru uma agência do Denarc (Departamento Estadual de Investigações Sobre Narcóticos). Por conta da expansão da problemática das drogas, o Denarc acabou se expandindo para o Interior e Bauru foi a primeira agência instalada. Depois, ela se tranformou em Delegacia de Investigações sobre Entorpecentes. Eu também instalei esta delegacia e fui titular até 1998. Nesta atividade de trabalho com drogas e entorpecentes, a delegacia tinha duas funções: a primeira, de repressão ao tráfico e a segunda, de prevenção. A parte de prevenção consistia basicamente de conscientização de jovens. Eu me consumia muito também em palestras em escolas. Teve ano que cheguei a fazer mais de 200 palestras. Por conta disso, também aliado à formação de biólogo, fui me especializar em toxicologia. Isso iria auxiliar nos dois lados, tanto como delegado de entorpecentes quanto na prevenção. Depois, cheguei à conclusão de que o trabalho de policial e a prevenção não podem se misturar.
JC - Por que?
Cardia - Porque a prevenção, e especialmente a prevenção educacional, deve ser feita por professores. Isso já foi uma lição que aprendi com colegas norte-americanos. Lá, eles diminuíram drasticamente a presença especialmente de policiais e de outros profissionais, como médicos, na sala de aula. Por conta de o professor ter o contato e afinidade maiores com seu aluno e porque o aluno deposita mais confiança no seu professor. Por que hoje a polícia faz o papel de prevenção de drogas? Não deveria fazer. Especialmente naqueles programas educacionais de resistência às drogas. Nos Estados Unidos, estes programas de resistência foram diminuídos ao máximo porque você não consegue medir resultados. Não consegue dizer qual o público alvo que não ingressou no mundo das drogas. Nos países que estudam mais esta problemática, os programas de resistência estão muito reduzidos. Os programas de prevenção são mistos, envolvem saúde pública, um pouco da resistência e a problemática social. A conclusão a que se chega, hoje, é que o professor é o profissional mais indicado para a prevenção educacional. Aí vem um problema: os professores estão preparados para isso? A resposta é não muito bem preparados. Precisariam ser mais formados nesta área. E não são. O meu trabalho acadêmico de pesquisa na pós-graduação foi neste sentido da busca de preparação do professor, inclusive na área jurídica.
JC - A formação em Biologia você acabou trazendo para a área de atuação como policial. Houve momentos em que usou na prática este conhecimento de biólogo?
Cardia - Praticamente todos os dias. Na identificação das drogas, a primeira constatação, que é feita com exames rápidos. Na preservação daquilo que era apreendido. Os efeitos das drogas nas pessoas. Posso até dizer que na delegacia de entorpecentes já não se prendia um só usuário desde aquela época. A não ser quando estavam envolvidos em uma situação de tráfico. A prisão não é feita para eles e esta mudança da lei de drogas, impedindo, inclusive, a prisão em flagrante foi salutar. O Brasil, neste aspecto, chegou ao ponto ideal. Pode ter dependente químico preso, mas em função de delito.
JC - Quando você se aposentou ainda não havia este avanço avassalador do crack entre os usuários.
Cardia - Naquela época ainda não era epidêmico, mas já visualizávamos esta epidemia em função do potencial de dependência do crack. Para se ter uma ideia, o potencial de dependência da maconha é de 4,8. Vamos arredondar para cinco. Isso significa que a cada dez experimentadores, cinco podem se tornar dependentes. Já é alto. Agora, o potencial do crack passa de nove. Eu diria dez. Praticamente todo experimentador do crack se torna dependente. É uma droga devastadora. Ela arrebenta com o sistema biológico da pessoa. Ativa muito fortemente o que a gente chama de sistema de recompensa.
JC - Falando sobre sua terceira paixão, como surgiu a aviação em sua vida?
Cardia - Era um sonho de infância. E acabei me tornando piloto. Eu ainda era professor, trabalhava na Polícia Civil como investigador e fiz o curso de piloto, primeiro privado, depois comercial, a seguir de linha aérea e, finalmente, de piloto de helicóptero da Força Aérea em curso feito na base aérea de Santos. Do primeiro brevê até a licença de piloto de linha aérea decorreram oito anos contínuos de estudo. Neste caminho, já exercendo a habilitação de instrutor de voo, piloto lançador de paraquedista e também piloto rebocador de planadores.
JC - Como é ser responsável pela vida de vários passageiros em um voo comercial?
Cardia - A responsabilidade é mesmo do comandante, mas ele é preparado para isso. Há também a questão do senso comum de que quanto maior o avião, maior a responsabilidade. Não. Eu costumo dizer que, enquanto o avião crescer para trás, tudo bem, não pode crescer para frente porque, aí, você não consegue pilotar (risos). Mas é claro que tem que haver uma preparação para cada equipamento e nesta preparação o piloto é formado para cuidar deste outro aspecto, que é o aspecto das vidas humanas que estão nas mãos dele. Sendo uma aeronave de maior ou menor tamanho, a responsabilidade é a mesma. Isso era uma coisa natural, o cuidado com a vida do outro.
JC - Você enfrentou alguma situação extrema quando pilotava profissionalmente?
Cardia - Enquanto piloto de helicóptero, havia passagens perigosas. Fazíamos missão de resgate, especialmente no mar, porque era em Santos. O voo tenso ali era muito grande. Também durante a pilotagem de aviões menores. Na época, o voo por instrumentos ainda era muito incipiente e o trabalho era muito baseado em equipamento analógico. A confiabilidade nos instrumentos era tormentosa. Não foram poucas as vezes que as intempéries, a questão climática, era adversária. Em uma delas, eu tinha decolado da Academia da Força Aérea em Pirassununga com destino a Bauru. Eu tinha levado um planador até lá. No trajeto para cá, eu fui envolvido por uma tempestade muito forte. Foi necessário fazer um pouso forçado. Acabei conseguindo chegar até a cidade de São Carlos. Já não havia mais contato visual e a aeronave não era provida de instrumentos. Eu sabia mais ou menos onde se localizava uma pista. Já a uns 200 metros da pista, eu consegui enxergá-la. Ela terminava, inclusive, em um cemitério (risos). Eu não poderia pousar naquele cemitério e consegui ultrapassá-lo e chegar à pista. Em outra feita, fui buscar um avião em Maricá (RJ), que eu traria para Bauru e seria batizado com o nome do coronel Oziris Silva, ao qual Bauru deve muito, como homenagem. Eu vinha voando pelo litoral e não consegui passar. Estava em uma rota que pegava muito mar aberto e foi muita tensão. Tive que retornar e pousar no Aeroporto Santos Dumont. E acabou não sendo este avião que recebeu o nome do coronel Oziris. Na aviação, em situações assim, tem um lema: é melhor voltar do que nunca chegar. Muitos que não seguem este lema acabam nunca chegando. O acidente sempre envolve três aspectos, o homem, o meio e a máquina. O meio tem que ser respeitado e a máquina também. A natureza é muito forte e não dá para desafiá-la.
JC - Você foi instrutor de voo de Marcos Pontes, o primeiro astronauta brasileiro?
Cardia - Fui o primeiro instrutor de voo dele. Ele era cadete na época, já levava jeito e tinha a aviação no sangue. Ele já até se manifestou na imprensa sobre a emoção do primeiro voo solo. Eu só não imaginava que ele iria tão alto. Mas ele foi, foi onde nenhuma aeronave chega. Tenho muito orgulho de ter tido esta passagem com ele.
JC - Voltando para o Direito e falando sobre a sua atividade atual, hoje você é coordenador, mas não abandonou a vocação para professor e dá aulas.
Cardia - Sou professor titular no Iesb e minhas aulas são de direiro penal, criminologia e processo penal. A minha atuação é com estes acadêmicos. O Direito é instigante e prazeroso. Se eu tivesse que fazer um novo curso de graduação, faria Direito novamente. Sem desprezar a Biologia, mas convivo muito com o Direito e sou, inclusive, advogado. Vejo o dinamismo do Direito e sinto até aspectos contrapostos. O Direito é dinâmico, mas a legislação é demorada. A aplicação do Direito torna-se difícil e a disponibilidade de recurso tornam algumas leis inexequíveis. Minha esperança é que esta geração de bacharéis que está vindo possa empreender mudanças neste País que minha geração não conseguiu tanto.
Perfl
Nome: Edson Cardia
Idade: 61 anos
Local de Nascimento: São Paulo
Esposa: Elizabeth
Filhos: Luiz Augusto e Mário Augusto
Hobby: Aviação
Livro de cabeceira: Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, de André Comte-Sponville
Filme preferido: A Força do Destino
Estilo musical predileto: samba soul
Time: São Paulo
Para quem dá nota 10: Para todos os delegados e delegadas de polícia de São Paulo e Brasil e para o corpo docente do Iesb
Para quem dá nota 0: Atribuo à política de segurança do Estado de São Paulo implantada nos últimos 20 anos. Não é possível se dizer que o povo paulista possa se sentir seguro hoje
