Tribuna do Leitor

A encantadora


| Tempo de leitura: 4 min

Numa bela tarde de domingo, num outono preguiçoso. Já beirando quatro estações do ano sem sentir o calor de uma mulher, e já me sentindo "carta fora do baralho", perdido nesses pensamentos, sai desanimadamente e fui ao clube tentar me distrair. Ao chegar fiquei observando a mescla de casais dançando alegremente. Por mais que tentasse me distrair, os pensamentos teimavam em povoar minha mente. A ideia de estar há tanto tempo sozinho fazia meu coração entristecer. De súbito fui chamado à realidade por uma linda mulher a sorrir gostosamente e vindo ao meu encontro. Sem cerimônia perguntou-me de supetão: você lembra de mim? Uma sensação de felicidade incontrolável invadiu meu coração, os pensamentos de tristeza se diluiram como a luz que clareia a escuridão. Já todo animado e convicto do meu poder de sedução - convidei-a para "flutuar" em meus braços ao som de uma bela melodia. Tudo me pareceu tão familiar. E pensava: que tarde iluminada! Aquele sorriso cativante! Um corpo escultural, todo orneado com uma precisão de um micrômetro e com um bumbum de fechar o comércio, todo desenhado como se um Picasso dedicasse toda sua arte neste ponto.

Pensava: Ah! Se eu pudesse segurar esse momento e nunca mais deixá-la sair de meus braços. Sua voz me trouxe a lembrança de um tempo distante, aquela sensação tão gostosa de ter reencontrado alguém que há muito tempo eu esperava. A atração que senti foi tanta que precisei me afastar para não perder o fôlego.

À noite, casualmente nos encontramos em um restaurante. Conversamos animadamente. Convidei-a para assistir minha apresentação em um concurso de dança. Ela não deu certeza se iria, mas que faria o possível para ir. No final da noite ansiava por ganhar ao menos um beijinho de despedida, mas ela simplesmente despediu-se. No outro dia, me preparei para participar do concurso. Eu estava esperançoso que ela fosse me ver, mal conseguia controlar meu coração, olhava ansiosamente para a porta na esperança de vê-la entrar, mas para minha tristeza isso não aconteceu. Pensei que estava tudo perdido e que o interesse que sentia não era correspondido. Ao final do concurso, fui ao restaurante do nosso primeiro encontro. Qual foi minha surpresa quando meu amigo relatou que ela esteve lá, que havia ido ao concurso, mas não encontrou o lugar. Nossa! Não consigo descrever a sensação de felicidade que senti. Fui para casa já mais esperançoso, mal consegui conciliar o sono, ansiava por encontrá-la novamente. Perdido nesses pensamentos, adormeci.

No outro dia, liguei para ela e combinamos de nos encontrar. Fomos a um parque, conversamos animadamente. A noite estava maravilhosa. Vários casais trocavam carícias, sorrisos e confidências, crianças brincavam despreocupadamente. Mais tarde fomos à residência dela, continuamos nossa conversa e ela naturalmente foi revelando sua personalidade forte e seu gênio difícil. Comecei a sentir um desespero, uma vontade de sair correndo, mas ao mesmo tempo sentia vontade de ficar ali. Por um instante fiquei a divagar pensando nas noites de solidão, sem sentir o calor humano... Não pude resistir e a abracei com força e a beijei com desejo e fui correspondido. Sentindo-a em meus braços e desejei que aquele momento durasse eternamente. Minha cabeça rodava entre a dúvida se conseguisse conviver com um pessoa de personalidade tão forte, mas meu coração insistia em bater descompassado e teimava em querer ficar ali na companhia daquela mulher irresistível. Decidi me entregar e novamente a pedi em namoro. E, para minha surpresa, ela disse sim.

Hoje, eu posso dizer que foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida. Nosso amor é profundo, somos amigos, companheiros, cúmplices. Tê-la a meu lado é um eterno desafio. Essa mulher que realmente tem uma personalidade forte e um gênio difícil. E que muitas vezes me tira do sério, que ainda por diversas vezes me faz sentir vontade de sair correndo, consegue me prender quando olha no fundo dos meus olhos, que me encanta com sua maneira alegre de ser, que quando a ouço cantar uma paz invade meu ser, que revela seus sentimentos em suas poesias.

Essa mulher que ainda flutua em meus braços, que me aperta forte em seu peito, uma mulher ímpar, que me faz sentir o homem mais amado do mundo. A cada dia redescubro a mulher que, naquela tarde morna de outono, onde nada parecia fazer sentido em minha vida, caminhou em minha direção sorrindo, me encantou e iluminou minha vida para sempre.

Geraldo Inhesta

Comentários

Comentários