Polícia

?Não tenho que pedir desculpa. Já fiz mesmo?, disse o assassino, com frieza

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 5 min

As palavras frias de Welington Albuquerque Santos assustam. Assustam tanto que a polícia não descarta que o passado do assassino confesso tenha um rastro de outros crimes (leia mais abaixo). Após resistência para conversar com a imprensa, ele confessou à reportagem do JC os três crimes. “Ela disse: ‘não me mata, pelo amor de Deus. Eu estou grávida’. Mas eu fiz”.

O fato, relacionado ao estupro e morte de Sandra Maria da Silva, demonstra que nem mesmo a gestação de apenas dois meses da vítima foi capaz de criar alguma compaixão em Welington.

Já sobre o motivo do crime cruel, ele afirma que sequer conhecia sua presa. “Eu estava passando e ela também. Ela estava no lugar errado e na hora errada”, relata. O mesmo teria ocorrido com a jovem, de 20 anos, nove dias antes.

Questionado se estava arrependido, ele esboçou que “sim”. Contudo, não para pedir desculpas à família da vítima. “Não tenho que pedir desculpa. Não vai adiantar. Já fiz mesmo, ué?”.

Com jeito de garoto, a aparente tranquilidade de Welington impressionou até os policiais. O mesmo pode ser dito de seu passado. Com trabalho fixo, o autor confesso não tinha antecedentes criminais. Em relação ao taxista, ele afirma que “só queria o carro dele”. Como a vítima reagiu, “teve” que esfaqueá-lo. “Ele reagiu. Tive que fazer aquilo”, justifica o injustificável.

Após fugir da tentativa de latrocínio, Welington, como um camaleão, tentou se camuflar. O homem, que tem quatro graus de miopia e astigmatismo e perdeu os óculos no crime, passou a usar lentes de contato e pintou o cabelo de loiro.

“Em todos os crimes, ele usou a mesma faca. Isso demonstra muito sobre ele. Disse que era uma lâmina de 20 centímetros, muito bem afiada e que ele sempre carregava”, aponta o delegado Kleber Granja.

Abuso

Ao JC, Welington Santos disse que nunca sofreu algo na infância. “Se eu falar que foi culpa de alguém, vou estar mentindo. É tudo culpa minha mesmo”.

Em depoimento, porém, relatou que teria sido vítima de abuso sexual aos 6 anos em uma creche de Bauru.

Welington vivia com sua esposa e um filho, de pouco mais de 1 ano, em uma casa bastante humilde no Jardim Petrópolis. Preso, foi esse o único momento em que ele demonstrou sentir algo. “Falei que não queria pedir desculpa. Mas quero pedir desculpa para minha mulher e meu filho”.


Coincidências na vida real

Em filmes, é comum ligações entre personagens que fazem o telespectador achar a ficção muito fantástica. Além da crueldade que se espera ver só em obras ficcionais, algumas coincidências também marcam a vida real.

Welington Santos não conhecia Sandra Maria. Mas, na verdade, eles eram familiares distantes. Conforme o JC apurou, a vítima era prima da cunhada do assassino. Na delegacia, ao saber da ligação, a familiar teve um grande susto. Outra coincidência tem relação com o taxista esfaqueado. Waldemar Martins de Azevedo, 72 anos, é tio de um dos delegados que investigaram o caso.


Sem olhar nos olhos

No depoimento, Welington Santos contou que os dois estupros foram cometidos por trás das vítimas. O homem teria dito aos policiais que não conseguia cometer o crime olhando nos olhos das mulheres.

“Isso nos diz muito sobre o perfil dele. Inclusive, sobre essa história de ele ter sido abusado na infância”, conta o delegado Kleber Granja.


Que respostas nos dará a lei?

Em pleno século 21, mesmo com investimentos mundiais bilionários em pesquisas e estudos nas mais diversas áreas do conhecimento e progressos científicos fantásticos obtidos com o concurso de cientistas com mentes brilhantes, tendo aprendido tanto sobre assuntos que vão da pré-história, passando pelo sequenciamento do DNA ao conhecimento adquirido com as pesquisas e viagens espaciais, ainda assim continuamos apenas engatinhando sobre os mistérios da mente, da alma e da índole humana.

Não conseguindo detectar antes o detonador que leva a ações monstruosas como as desse crime, para poder evitá-las e sem poder contar com a garantia de que o autor, no futuro, se tiver possibilidade de conviver em sociedade, não os cometerá novamente, vitimando inocentes como a jovem mãe grávida, que mesmo suplicando foi fria e monstruosamente violentada, torturada e assassinada, fica a pergunta: O que será do amanhã?

Terá o acusado, depois de processado e julgado, se condenado e cumprido sua pena, condições de voltar às ruas sem oferecer riscos para todos os demais seres inocentes que vivem e convivem normalmente? Quem nos dará garantias? Pois bem, se antes de acontecer não temos como prevenir, depois dos atos cometidos e comprovados, conhecendo uma mente criminosa, como irá a sociedade se proteger? Diante desse e de tantos outros casos, de criminosos recorrentes, que respostas nos dará a lei?


‘Ou fica comigo... ou eu te estupro’

Welington Santos vivia há 4 anos com uma jovem, de 21 anos. “A gente dorme com uma pessoa dessas e nem desconfia de nada”. Contudo, alguns indícios já apareciam.

Conforme contou aos policiais, no ano passado, a família estava em um lago e uma menina de 12 anos contou uma história, no mínimo, suspeita. Welington teria pedido para “ficar” com a garota. Alegando que ele era muito velho, negou-se. “Ele teria dito para ela: ‘ou fica comigo ou eu te estupro’. Com medo, a garota fugiu”, contou o delegado Cledson Nascimento.

Contudo, ninguém acreditou na história. Mesmo assim, dentro de casa, Welington demonstrava sinais de violência. Ele frequentemente ameaçava a esposa. Em uma ocorrência, chegou a agredi-la com um tapa no rosto.

Os familiares ficaram chocados com a prisão. Conforme o JC apurou, a mãe de Welington passou mal e precisou ser socorrida no Pronto-Socorro Central (PSC). “O nosso filho não desgruda dele. Sorte que ele não viu nada disso”, lamentou a esposa do autor confesso dos crimes. 


Polícia tentará localizar vítimas em outras cidades

Será que o início do rastro de crimes de Welington Santos foi o dia 21 de janeiro de 2013? É essa a pergunta que a Polícia Civil passou a fazer. “Não descartamos mais vítimas. Iremos verificar crimes semelhantes em aberto para tentar traçar um paralelo”, aponta Kleber Granja.

E o rastro pode não ser somente em Bauru. A polícia também vai procurar em outras cidades possíveis vítimas. Os “passos” dele serão refeitos para tentar verificar essa hipótese.

Além disso, o DNA encontrado no corpo de Sandra Maria vai ser confrontado com o de Welington. “Por isso, assim que vencer a prisão temporária, pediremos a preventiva”. 

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