Vitor Oshiro |
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Welington Albuquerque Santos chocou Bauru após confessar crimes monstruosos |
No dicionário, define-se maldade como “a qualidade daquilo que é mau; malignidade, crueldade, perversidade”. Para especialistas, essa maldade pode ser unicamente o motor propulsor de Welington Albuquerque Santos, 24 anos. Assim, o homem que chocou Bauru após confessar, com muita frieza, crimes monstruosos pode não ser um psicopata. Contudo, pelo perfil, um alerta: há grande probabilidade de que ele realmente tenha feito mais vítimas (leia mais abaixo).
Preso anteontem pela Polícia Civil, por meio da Delegacia de Investigações Gerais (DIG), Welington, em um intervalo de 25 dias, estuprou e degolou uma grávida, estuprou uma jovem de 20 anos e ainda esfaqueou um taxista. “Fica claro que ele é um criminoso em série”, aponta Ilana Casoy, a maior especialista brasileira em assassinatos em série.
Para tentar entender o que se passa na cabeça de Welington, o JC conversou com exclusividade com Casoy, que é especialista em Criminologia pelo Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM), e com Daniel Martins de Barros, o coordenador do Núcleo Forense do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (HC) da Universidade de São Paulo (USP).
Ambos explicam que, somente pelos crimes, não é possível cravar que Welington é um psicopata. “É um erro muito comum. O fato de ser ‘em série’ é um comportamento criminoso. O fato de ser psicopata é um diagnóstico. São pontos distintos. Nem todo psicopata é um criminoso em série. E a recíproca é verdadeira”, aponta Casoy.
Ela explica que algumas literaturas classificam o criminoso em série como aquele que comete três ou mais crimes iguais. “Mas, no caso, parece haver os rituais, o que dá o perfil de um criminoso em série”.
O psiquiatra forense Daniel de Barros afirma que não há um exame específico para detectar psicopatia. “É um diagnóstico que não se baseia no tipo de crime, mas na análise de toda a vida da pessoa”.
Entretanto, se não for a psicopatia, o que leva alguém a cometer crimes cruéis em série com tamanha frieza? A resposta assusta. “A maldade existe. É algo milenar”, destaca Ilana Casoy, que publicou o livro “Serial Killer – Louco ou Cruel?”.
“Na maior parte das vezes, o criminoso não é um psicopata. A verdade é que algumas pessoas são más somente porque elas são más”, complementa Daniel de Barros.
Cura?
Por não poder ser associado determinantemente com uma doença, é difícil falar em cura para criminosos em série. Em alguns casos, a saída é mostrar ao criminoso os prejuízos que aquilo traz para sua própria vida.
“Eu entrevistei o Pedrinho Matador (um ‘justiceiro’ que, de 1968 a 2001, matou 18 pessoas) e ele não achava que era errado matar. O jeito foi mostrar a ele os prejuízos que isso trazia para sua própria vida. Ele foi solto por dois anos e não voltou a matar”, conta a especialista em criminologia em série Ilana Casoy.
Já quando existe a comprovação de psicopatia, o cenário é ainda mais pessimista. “Não há cura. Muitas vezes, a pessoa fica presa a vida inteira”, finaliza o coordenador do Núcleo Forense do Instituto de Psiquiatria do HC, Daniel Martins de Barros.
A reportagem tentou falar com a mãe de Welington Albuquerque Santos ontem. Do portão da casa, uma familiar disse que ela não daria entrevistas. “Todo mundo está sem acreditar no que está acontecendo”, limitou-se a dizer. Já a esposa do assassino confesso disse que o mais difícil é lidar com o filho, de 1 ano, que tem com Welington. “Ele pede o pai o tempo todo”.
Especialista acredita que Welington tenha feito mais vítimas no passado
A especialista em criminologia Ilana Casoy aponta grandes possibilidades de uma hipótese que já fora aventada pela Polícia Civil: o passado de Welington Santos pode acumular mais vítimas.
“Há vários indícios disso. Ele afirma ter começado aos 24 anos. É muito difícil que isso ocorra. Na maior parte dos casos, começa aos 18 ou 20 anos”, afirma.
Casoy destaca ainda que a violência dos crimes descobertos é mais um indicativo. “Geralmente, não se começa com esse grau de violência. Segue uma espécie de escalada”.
O crime que foi cometido em série, o estupro, também pode colaborar para esse passado obscuro de Welington. Casoy afirma que menos de 10% das vítimas registram o crime de violência sexual. “Essa cifra prejudica muito”, finaliza.
A Polícia Civil vai refazer o rastro do assassino para tentar localizar mais vítimas. Conforme o JC divulgou ontem, até a passagem dele por outras cidades será investigada.
Rastro de sangue
O primeiro crime confesso de Welington ocorreu no dia 21 de janeiro, na quadra 21 da Coronel Alves Seabra. Lá, ele estuprou uma jovem de 20 anos. Em depoimento, afirmou que só não matou porque não teve coragem.
Nove dias depois, no Mary Dota, o destino de Welington cruzou com o de Sandra Maria da Silva, 36 anos. O homem estuprou e assassinou a vítima, que estava grávida de dois meses. “Ela disse: ‘não me mata, pelo amor de Deus. Eu estou grávida’. Mesmo assim, eu fiz”.
No dia 15 de fevereiro, o taxista Waldemar Martins de Azevedo, 72 anos, foi atacado próximo ao Cemitério dos Lírios. Welington, o autor da tentativa de latrocínio, cravou a faca no peito da vítima e girou. “Ele reagiu. Tive que fazer aquilo”. Foi por este crime que ele foi pego e o restante descoberto.
Frieza
Apesar do que muitos pensam, a frieza demonstrada pelo assassino confesso não é um sinal de psicopatia. “Ela é apenas uma característica. Não dá para falar se é algo bom ou mau”, afirma o psiquiatra forense Daniel Martins de Barros.
Ele explica que a frieza é necessária em várias profissões. “Um bombeiro, por exemplo, precisa ter muita frieza. É o jeito que a pessoa usa essa característica que conta”.
Tríade
Estudos realizados com criminosos em série na década de 70 definiram uma tríade de sinais que prevaleciam na infância da maior parte dos entrevistados: piromania (desejo de incendiar objetos), crueldade com animais e o costume de urinar na cama mesmo com o passar da idade. Ilana também explica que o fato de ele alegar um abuso sexual na infância não pode ser considerado a causa de tudo.
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