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Aniversário de um julgamento

José Fernando da Silva Lopes
| Tempo de leitura: 3 min

O mal feito costuma deixar rasto. Na história dos povos civilizados não são poucas as ocasiões em que os valores sociais são atropelados, gerando acontecimentos que desonram a espécie humana e suas instituições secularmente cultivadas. Nessas situações força ou voz alguma se levanta com capacidade para impedir a tragédia, mas, recuperada a razão e sensatez, os homens são levados a sentimentos de vergonha que não desaparecem da memória das civilizações porque o estrago é eterno e envergonha a coletividade.

Logo depois da celebração da ceia e num jardim propício para meditações aconteceu a traição comprada com moedas, identificado com desavergonhado beijo o mestre pelo seu discípulo permitindo sua prisão. A ela sucederam-se maus tratos animalescos e simulação de julgamento no qual os acusadores eram também os julgadores. A justa formação de culpa foi desprezada com testemunhos insustentáveis e o silêncio do interrogado foi suficiente para punição pré-programada de blasfêmia. Tudo isso sem qualquer força ou voz que impedisse o tramado desfecho numa sessão ocorrida em plena madrugada quando a lei proibia julgamento. Assim aconteceu, segundo os evangelhos, com Jesus de Nazaré.

A pregação de Jesus não incomodava os dominadores romanos que ignoravam até mesmo sua existência, mas incomodava os lideres de seu próprio povo. Por iniciativa deles e mediante suborno Ele foi identificado por Judas, submetido à imediata prisão e a agressões e gestos de tortura em plena madrugada de uma sexta-feira. Mesmo contra a proibição de lei foi arrastado para o Sinédrio - conselho de anciões - chefiados pelo Sumo Sacerdote Caifás, apressadamente convocado. Ali mesmo sem quorum para deliberação e sem defesa em plena madrugada formou-se, mesmo sem a prática de crime, a culpa através de testemunhos forjados e com desconsideração de interrogatório conduzido ironicamente pelo próprio Caifás. O veredicto assentado em suposta blasfêmia foi a morte por crucificação. Estando a Judéia submetida ao império romano o Sinédrio não poderia executar a pena. Herodes governador romano declinou de sua competência executória e Poncio Pilatos dispensou de cumprir sua missão de autoridade e entregou à multidão insuflada pelo anciões do Sinédrio a prerrogativa de executar a punição, escolhendo entre Jesus ou o ladrão Barrabás quem deveria ser libertado e quem deveria sofrer o humilhante e perverso castigo da crucificação e morte. Antes que a sexta-feira terminasse Jesus de Nazaré foi crucificado e morreu, sem voz e sem gesto algum eficaz que a tanto evitasse.

Este acontecimento que envergonha eternamente a civilização, mesmo praticado contra Jesus de Nazaré, infelizmente não serviu de bom exemplo e de tempos em tempos esse tipo de tragédia ainda ocorre mesmo no mundo civilizado e submetido ao império garantidor da lei. Uma hora com patrocínio de autoridades truculentas e inescrupulosas. Em outra pelo afloramento de paixões em multidões habilmente insufladas e manipuladas. Quase sempre com silenciosa e anônima omissão de pessoas que com dever de impedir a tragédia se omitem em evitá-la. Assim é o homem e assim é nossa civilização.

Ao lado e à margem de milhares de outras tragédias, o aniversário do julgamento de Jesus e seu envergonhado exemplo civilizatório constitui momento de reflexão ? e reflexão profunda ? exigido de cada homem em favor do justo e da sensatez que normalmente existe na razão humana para que na medida da força e da voz de cada um deles não haja incentivo e nem ocorra omissão que possa provocar ou impedir tragédias que envergonham eternamente a civilização. O mal feito deixa rasto, a vergonha é eterna e não desaparece com a possibilidade de perdão.

O autor, José Fernando da Silva Lopes, é advogado

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