Penso na dificuldade que um professor teria para explicar a uma criança as ligações entre as palavras acima, imagine, então, em uma daquelas salas com 40 diabretes incontroláveis. Seria necessária uma aula e tanto, um empenho e tanto, um esforço quase sobre-humano. Afinal, coelhos não põem ovos, muito menos de chocolate, embora adoraria que pusessem e que, cada um de nós, pudesse criá-los como lebres, porquinhos da índia ou chinchilas. Seria muito bom, ainda mais nessa época do ano.
Se isso já parece complicado, imagine explicar história e religião. Se para os cristãos páscoa é a ressurreição ? no terceiro dia ? de Jesus, seu misericordioso e poderoso salvador. Para os judeus, é a libertação do seu povo do domínio egípcio. O êxodo ? liderado por Moisés ? do povo israelita à Terra Prometida. Além disso, cronologicamente, a comemoração judaica antecede a celebração cristã. Entretanto, nos dois casos, a palavra páscoa representa passagem. Para o judaísmo, significa a passagem da escravidão para a liberdade. Já para a cristandade, representa a passagem da morte para a vida, através do maior milagre de todas as eras que é a ressurreição do Cristo.
Diz uma lenda que o simpático coelhinho entrou de ?gaiato? no enredo. A estória ou história ? como preferir ? conta que há muito tempo, uma mãe pobre não tinha o que dar de presente aos seus filhos no domingo de páscoa, foi quando, então, cozinhou alguns ovos de galinha e os pintou, depois disso, resolveu colocar em um ninho para que suas crianças encontrassem. Eis que quando a criançada descobriu os ovinhos pintados no quintal, surgiu ali um coelho que fugiu. Bastou para que acreditassem que foi o coelhinho que deixou ali ? como presente ? os ovos de páscoa.
Historicamente, o coelho tem significações e enraizamentos bem mais profundos. Está associado a antigas tradições egípcias e cerimônias pagãs anteriores a história de Jesus, que remetem a deuses, deusas e sacerdotisas das mitologias anglo-saxã, nórdica e germânica. No plano cristão, ele parece representar a missão de propagar a palavra de Deus para todos os povos. Uma metáfora à famosa reprodutividade do bichinho, o que é considerável, visto que a multiplicação dos fiéis é uma missão milenar da igreja. O ovo ? como símbolo religioso em várias culturas ? significa vida e recomeço, daí a empatia com a ressurreição e com o êxodo judeu.
Já a concepção dos ovos de chocolate é de origem francesa e nasceu nos meados do século 18 ? delícia que viria conquistar, posteriormente, o mundo. É, certamente, a característica mais comercial que a data apresenta e, infelizmente, como acontece no Natal, parece suplantar o sentido, o sentimento, o real significado da páscoa. Seja judaica. Seja cristã.
Pensamento da semana: Quisera que toda a família pudesse compartilhar um grande ovo da páscoa. Porém, seria magnífico se você - ao abrir seu ovo de marca famosa lindamente embrulhado - desembrulhasse também o seu coração e sentisse, e entendesse, e vivenciasse esse tempo de amor, renascimento e libertação.
O autor, Anderson Prado de Lima, é vereador em Lençóis Paulista e delegado federal parlamentar do Confep