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Entrevista da Semana: Comandante Nelson Garcia Filho

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 7 min

Em seu último dia de farda e depois de 31 anos de trabalho, o tenente-coronel Nelson Garcia Filho, comandante do 4º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4º BPMI), falou ao JC sobre a sensação do dever cumprido no combate ao crime, além de contar suas principais histórias na corporação e projetar o tempo livre que vem com a aposentadoria.


O menino que teve pai militar, nasceu em uma viatura policial, cresceu dentro de um quartel e quase se tornou engenheiro, porém, o desejo de se tornar um oficial falou  mais alto e ele ingressou na Academia de Polícia Militar do Barro Branco (APMBB) ainda muito jovem.


“Já formado, eu trabalhei na Polícia Rodoviária por 19 anos, atuei em São Paulo várias vezes e tive muitas experiências marcantes. Depois, eu tive a sorte de voltar a Bauru e chegar ao comando do 4º BPMI, que é um dos mais importantes do Estado. Como major estive no comando desde 2006 e, como comandante, durante os três últimos anos. No total, eu fiquei na Polícia Militar durante 31 anos e um mês”, soma.


Entre os desafios vividos na profissão, Garcia cita um acidente ocorrido em Bauru quando um avião caiu sobre um carro com uma moça e uma criança dentro e um assalto em um posto de gasolina na rodovia Bauru/Marília. “Os bandidos começaram a atirar e eu senti Deus. Pedi proteção e senti o meu cabelo arrepiar”.


Entre as emoções felizes com a farda, a oportunidade de trazer uma nova vida ainda o emociona: “Já fiz parto na rua e ajudar a vida a surgir é a maior felicidade, assim como poder salvar as pessoas”.


Apaixonado por motociclismo, Garcia cita o direito e a publicidade como possíveis atividades, a partir de agora. E, apesar de não haver planos, não descarta a vida política. Confira.



Jornal da Cidade - Já pensou sobre o que fazer com o seu tempo livre?


Tenente-coronel Nelson Garcia Filho - Eu sou muito elétrico. Não consigo ficar parado. Tanto que o meu apelido é 300 volts, antes era 200 (risos). Até meus amigos dizem que eu preciso arrumar alguma coisa para fazer. Eu sou motociclista e gosto de organizar eventos para ajudar as pessoas. Também gosto muito da área de publicidade. Trabalhando como comandante, como policial, inclusive, você adquire uma certa noção sobre o assunto. Também sou formado em direito e posso trabalhar na área, ou seja, eu tenho algumas coisas já em mente, mas ainda nada definido, além do fato de que vou fazer algo que me dê prazer.


JC - Além do trabalho, o que te dá prazer?


Garcia - A música. Eu gosto muito de rock e de estar junto dos motociclistas. Embora não participe de um motoclube federado, eu sou recebido muito bem por todos os grupos. Você faz parte de uma irmandade, existe ajuda mútua, a questão de ajudar os outros... Participei do primeiro motoclube não federado da cidade, o Lelo’s, em 1978. Eu já viajei muito de motocicleta. Percorri as estradas de Santa Catarina, Paraná, Litoral Norte de São Paulo, Minas Gerais... Hoje, com a família, normalmente as viagens são mais curtas, mas temos muitos lugares bonitos no Interior de São Paulo. O motociclismo é uma atividade que precisa ser mais divulgada, e essa é uma meta minha.


JC - Família.


Garcia - Essencial. Eu acho que a fase mais importante da vida de qualquer pessoa é quando vêm os filhos. Eu tenho quatro e eles são ótimos e tranquilos. Além da minha mãe, eu tenho mais duas mães, a minha sogra e a irmã dela que nos ajudam em casa.


Jornal da Cidade - O senhor conta que nasceu dentro de uma viatura...


Garcia - É verdade (risos). Minha mãe entrou em trabalho de parto e o meu pai, Nelson Garcia Filho, era sargento do 4º BPMI, que ficava em frente à nossa casa e atualmente é o Comando de Policiamento do Interior-4 (CPI-4). Ele chamou ajuda e eles colocaram a minha mãe dentro da única viatura disponível. Não deu tempo de chegar ao hospital e eu nasci no carro.


JC - A PM também faz parte de suas memórias de infância?


Garcia - Sim. Eu e os filhos de outros policiais brincávamos por lá. Eu gostava de ficar perto da cavalaria, pegava chumbo do estande de tiros, brincava de esconde-esconde em um bambuzal que havia no terreno, empinávamos pipas... Tudo dentro do quartel. Como não tínhamos creches, o pessoal sentia segurança em trabalhar e deixar os filhos por perto, tanto meninos, quanto meninas. Sempre tinha alguém de olho nas crianças. Lembro-me também de uma horta no quartel, enfim, eu praticamente me criei nas dependências do quartel e cresci sabendo como é a vida militar.   


JC - Então não houve dúvida sobre qual profissão seguir?


Garcia - Na verdade, já maior, eu fiz um curso técnico em eletrônica e a minha ideia era cursar a faculdade de engenharia eletrônica. Entretanto, um cadete da Barro Branco foi até a escola divulgar a academia e eu decidi que faria a prova. Fiz e fui aprovado. Ainda na polícia fiz cursos como: ações táticas especias e paraquedismo, ambos do Grupo de Ações Táticas Especiais (GATE), motociclismo, técnica de ensino, estágio de salvamento em altura com o Grupo de Busca e Salvamento dos Bombeiros, estágio de salvamento aquático, curso de tiro defensivo/Método Giraldi, estágio de sobrevivência na selva e curso de aperfeiçoamento de oficiais, onde sou mestre em Ciências Sociais em Segurança Pública. Fora da PM fiz curso de direito na Instituição Toledo de Ensino (ITE).

 

JC - Qual foi a sua trajetória depois da Barro Branco?


Garcia - Trabalhei em vários lugares no Estado, mas eu sempre tinha em mente voltar a Bauru, onde está a minha raiz. Eu trabalhei na Polícia Rodoviária por 19 anos, atuei em São Paulo várias vezes e tive muitas experiências marcantes. Depois, eu tive a sorte de poder voltar e chegar ao comando do 4º BPMI, que é um dos mais importantes do Estado. Como major estive no comando desde 2006 e, como comandante, durante os três últimos anos. No total, eu fiquei na Polícia Militar durante 31 anos e um mês.


JC - Como o senhor avalia esse período?


Garcia - Foi uma época muito bacana. Todos os tenentes e capitães de hoje, eventualmente, foram alunos meus. Pegamos essa meninada novinha, eles foram amadurecendo e hoje são os comandantes de Bauru e região. Poder passar a minha experiência é muito gratificante e eu sempre procurei passar a história do 4º BPMI de tal forma que eles possam aproveitar isso na carreira para defender a sociedade, mas também mostrar as tradições da unidade. A gente documenta a nossa história através dos boletins diários e isso fala muito sobre a história das cidades, das pessoas, dos eventos...   


JC - Quais foram as experiências marcantes da sua fase paulistana.


Garcia - Por exemplo, eu conheci o Geraldo Vandré porque ele frequentava o nosso quartel na zona oeste. Ele conversava muito com a gente, contava as suas histórias sobre o Governo Militar. Por muitas vezes eu fiz a escolta do então presidente Fernando Henrique Cardoso, do Ulysses Guimarães, Jânio Quadros e muitos outros políticos. Eu sempre gostei dessa área e me entrosava.   


JC - E o senhor já pensou em uma carreira política?


Garcia - Olha, eu nunca pensei, mas a possibilidade não está descartada.


JC - Quais foram os maiores desafios vividos em Bauru?


Garcia - A queda de um avião sobre um carro com uma moça e uma criança dentro me marcou muito. Eu estava trabalhando e senti uma coisa estranha minutos antes do acidente. Ver as pessoas acidentadas é algo que eu não consigo tirar da mente. É muito triste ver o sofrimento. Outra vez, indo para Marília, presenciei um assalto a um posto de gasolina. Eu estava sozinho na viatura e os bandidos, cerca de 12, começaram a atirar em mim. Naquela hora eu senti Deus. Eu pedi proteção e senti o meu cabelo arrepiar. Instantes depois, em equipe, pegamos os assaltantes.


JC - O trabalho na PM também trouxe muitos momentos de alegria?


Garcia - Muitos. Já fiz parto na rua ao lado de mais dois colegas e o bebê recebeu o nome dos três. Ajudar a vida a surgir é a maior felicidade, assim como conseguir salvar as pessoas. A homenagem feita a mim pelo meu último dia de farda também me emocionou. Quando você mentaliza coisas boas, você consegue alcançar os seus objetivos. Mas alguns obstáculos precisam ser derrubados e, para isso, você precisa estar em constante oração pelas pessoas. Eu sou um homem católico e também gosto muito de sentir as boas energias das outras religiões e aprender com elas.   

 

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