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Evento traz produtor de vinho a Bauru

Mônica Santos - Especial para o Jornal da Cidade
| Tempo de leitura: 5 min

Divulgação

Entre os feitos de Pato está o primeiro vinho tinto do mundo elaborado com uvas brancas

Figura doce, de amplos bigodes lusitanos e jeito amável, que convida a um bom papo. A primeira impressão que se tem diante de Luis Pato, um dos mais importantes produtores de vinhos de Portugal, condiz com a realidade. Porém, Pato é, antes de tudo, um rebelde curioso, que vive de entreveros com os órgãos que regulamentam os vinhos em seu país e está sempre pronto para surpreender com seus métodos de produção pouco ortodoxos.


Engenheiro químico de formação, ele assumiu a quinta da família localizada na Bairrada - importante região vinícola portuguesa, que se estende entre Águeda e Coimbra até o litoral Atlântico  -  na década de 1980. Em 60 hectares, produz anualmente entre 350.000 e 400.000 garrafas de vinho a partir de castas brancas e tintas, entre elas a baga, uma uva típica da região, de má fama por conta de sua acidez, à qual ele conferiu ares de grande casta.

Nas últimas três décadas, Luis Pato não parou de agitar o mundo dos vinhos. Em 1999, para demonstrar sua insatisfação com as decisões políticas adotadas para os vinhos de sua região, abriu mão da Denominação de Origem Controlada (DOC) da Bairrada e passou a engarrafar seus vinhos da região vizinha.

Nos anos seguintes, entre outros feitos, decidiu colher as uvas da parreira duas vezes em uma mesma safra, produziu o primeiro vinho tinto do mundo elaborado a partir de uvas brancas, lançou um vinho cujo rótulo estampa sua imagem com a língua de fora e colocou no mercado um espumante fechado com tampinha como as que são usadas em garrafas de cerveja. 

Melhor do que saber sobre a trajetória desse ‘enfant terrible’ do mundo dos vinhos é tê-lo como mestre de cerimônias de uma aventura que irá contemplar a prova de sete de seus rótulos em uma única noite.

Promovida pela Associação Brasileira de Sommeliers  -  ABS Bauru com o apoio da importadora Mistral, a degustação marcada para a próxima quarta, a partir das 20h, na sede da Assenag Bauru, reúne vinhos de diferentes estilos, a maior parte acima dos R$ 100,00.

“Conheço pouco do interior paulista”, diz Luis Pato, que já esteve em Sorocaba e em Campinas e dispensa o rótulo de enólogo. “Que enólogo faria duas safras por ano na mesma parreira ou um vinho tinto da uva branca Fernão Pires? Sou um simples winemaker, um criador de vinhos que segue aprendendo a cada safra”.

Jornal da Cidade  -  Por que você ficou conhecido como “o homem que domou a Baga”?

Luis Pato  -  A Baga existia na Bairrada há mais de oito séculos, acompanhando o nascimento do país. Em vez de usar “uvas commodity”, que são produzidas por todo o lado, escolhi ajudar a Baga a se tornar uma referência mundial. Tudo dependia do que eu poderia fazer por essa uva. Os grandes guiões sempre foram um conjunto entre a natureza (solo e clima) e o homem.

 

JC  -  Por que em 1999 você tomou a decisão de deixar a DOC da Bairrada e passou a engarrafar seus vinhos sob a denominação regional Beiras?

Pato  -  Esse foi o meu primeiro gesto de rebeldia. Eu não concordava com a nomeação política do presidente da região da Bairrada. Como não podia mudar o vinhedo de lugar, passei a usar o nome da região mais alargada que incluía a Bairrada e que, na época, se chamava de Beiras.

 

JC - Atualmente a DOC da Bairrada permite castas alóctones (cabernet sauvigon, syrah, merlot e pinot noir), mas você manteve sua vinícola longe desta tendência. Você acha que a introdução destas castas ameaça a identidade dos vinhos portugueses?

Pato - A nossa diferença assenta na nossa riqueza histórica e na nossa diversidade de uvas, que hoje abrange mais de 250 tipos. Não podemos perder essa diversidade para cairmos no caminho aparentemente mais fácil das uvas mundializadas. Temos que ter visão de futuro. Em breve, a China irá invadir o mundo com vinhos feitos a partir dessas uvas e com preços chineses!


JC - Fale um pouco sobre a criação do Fernão Pires, um vinho tinto feito majoritariamente a partir de casta branca.

Pato  -  Criei esse vinho para celebrar o nascimento do meu neto, o Fernão (filho de sua filha Filipa Pato, que também é uma conhecida produtora de vinhos). É o primeiro vinho tinto de uva branca do mundo. Foi uma brincadeira que deu certo. Para atingir a coloração tinta, acrescentei 6% de uva tinta Baga às uvas brancas Fernão Pires, que na Bairrada são conhecidas como Maria Gomes.

 

JC  -  Você apresentará em Bauru o Abafado Molecular Rosado 2009, que faz parte de uma linha de vinhos doces com menor graduação alcoólica. O que o inspirou a seguir por este caminho?

Pato - Eu sou defensor de que a

moda que virá a seguir será a de vinhos com menos álcool, para que o consumidor possa degustar com mais liberdade. Acho que vinho foi feito para acompanhar a comida e não se deve beber em taças pequenas, como as de vinho do Porto!

 

JC - Você promove pessoalmente seus vinhos no Brasil e estará em Bauru pela primeira vez. Qual a sua expectativa?

Pato - Aprendo muito no contato com o consumidor porque ele tem uma cultura diferente da minha, independentemente de ser um iniciante ou de já ter muitos conhecimentos sobre vinhos adquiridos aqui e acolá. Em Bauru, espero encontrar pessoas ávidas por conhecer minhas experiências, muitas das quais não se aprende nos livros.

 

Serviço

Degustação de vinhos com Luis Pato. Dia 10, 20h, na Assenag Bauru (rua Doutor Fuas de Mattos Sabino, 1-15). Ingressos: R$ 40,00 para associados da ABS Bauru e R$ 80,00 para os demais. Vagas limitadas. Inscrições no e-mail abs.sp.bauru@gmail.com.

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