A cirurgiã dentista dizia à criança: vais ganhar uma estrelinha, e o amálgama brilhava com o polimento! Meses depois, opacificava e escurecia pela corrosão superficial. A estrela perdia o brilho, mas dava para recuperar polindo-a novamente. Era normal ter dentes com restaurações escuras.
Ainda hoje, atores e cantores abrem a boca diante das câmeras e percebe-se restaurações de amálgama de prata nos dentes. Esta liga metálica tem grande quantidade de mercúrio, um metal pesado muito tóxico para o homem e animais.
Houve um tempo que o cirurgião dentista misturava manualmente a prata e outros compostos com o mercúrio em grau e pistilo na frente do paciente. Depois, o material ainda gelatinoso, era espremido em pedaço de tecido para remover o excesso de mercúrio, inserindo o produto na cavidade preparada nos dentes afetados pela cárie. Era um ritual: o gral, o pistilo, o espremer a liga e coletar o excesso de mercúrio como bolinhas.
No ambiente do consultório havia uma grande contaminação de mercúrio, mas quase ninguém se importava. As crianças saiam com um pouquinho do mercúrio na mão para brincar, presenteadas pelos profissionais. Era muito divertido; mal sabíamos…
O amálgama foi usado por mais de um século: durável, de fácil utilização, baixo custo e multiuso. Hoje quase ninguém usa mais amálgama nos dentes. Quando se tem fraturas ou cárie, e cada vez se tem menos cárie, restaura-se com resinas e nem percebe-se que o dente foi operado.
Ele contamina!
A preocupação atual com o mercúrio na odontologia está no mercúrio do amalgama que se tira dos pacientes. O mercúrio do descarte de amálgama dentário para o esgoto por clínicas, hospitais e laboratórios vai direto para os rios. Biodisponível para os peixes, o mercúrio pode acumular-se nos seus tecidos com efeitos diretos no equilíbrio da vida de mananciais e indiretos pelo consumo humano de alimentos contaminados.
O peixe é um dos maiores contribuintes para a taxa de mercúrio no corpo humano, pois é mais tóxico na forma de compostos organometálicos. Nos peixes sua capacidade de bioconcentrar-se é 400 mil vezes maior e biomagnifica-se mais ainda na cadeia alimentar. Nos rios da região tem mais mercúrio que o normal como detectamos em uma de nossas pesquisas.
O uso do mercúrio tem seus dias contados até 2020. Em janeiro, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente ou Pnuma, após 4 anos de discussões em Genebra, conseguiu fechar um acordo com todos os países do mundo para abolir o uso de mercúrio na produção, exportação e importação de produtos que o contêm como baterias, lâmpadas fluorescentes compactas, cimento, produtos dentários, sabonetes e cosméticos. Na indústria chega-se a utilizar 340 toneladas anuais de mercúrio, especialmente na produção de plásticos como o PVC. Termômetros e aparelhos de pressão arterial também estão incluídos entre aqueles que devem ser eliminados.
Outras grandes fontes poluidoras de mercúrio a serem controladas são usinas incineradoras, sistemas de esgoto e a mineração. Os representantes dos países aprovaram exceções como o uso de mercúrio em vacinas como conservante e em atividades religiosas ou culturais.
Intoxicação
O mercúrio induz uma intoxicação aguda no homem com náuseas, vômitos, dores abdominais, diarreia, danos ósseos, podendo ser fatal em 10 dias. A intoxicação crônica afeta glândulas salivares, rins e altera funções psicológicas e psicomotoras, além de induzir doenças autoimunes. O mercúrio atua como neurotoxina nos rins, sistemas nervoso, cardiovascular, respiratório, gastrintestinal, hematológico, imunológico e reprodutivo.
Entre 10 e 15 milhões de pessoas enfrentam o risco de exposição ao mercúrio, principalmente na mineração de pequena escala e uso do carvão como combustível. Cerca de 260 toneladas são jogadas em rios e lagos todo ano e nos últimos 100 anos a quantidade de mercúrio nos oceanos dobrou. O índice de contaminação de animais e plantas cresceu dez vezes em 150 anos. A Ásia é o maior emissor mundial de mercúrio com metade dos índices globais.
O amálgama de prata agora faz parte da história e fez “brilhantemente” sua parte na Odontologia. O nome Convenção Minamata sobre Mercúrio homenageia esta cidade japonesa onde a poluição de mercúrio causou sérios danos à saúde; nela o documento será assinado em outubro e entrará em vigor assim que ratificada por 50 dos países signatários.
Sorrir com amálgama nos dentes já era. Ainda bem!
Observatório
Animais de pacientes - Os benefícios da companhia de animais na saúde das pessoas são conhecidos há séculos. Os cães diminuem o estresse, hipertensão arterial, ansiedade, colesterol e possíveis dores de seus donos. Quem tem cães sabe que isto acontece! Pesquisas revelaram: quando crianças e adolescentes são submetidas a procedimentos cirúrgicos com pós-operatório muito doloroso e seus cães são levados para visitá-las, há uma melhora acentuada na percepção da dor. Em clínicas de portadores com Alzheimer com aquários, os pacientes passam a comer mais e ganham peso. Em pacientes cardiopatas, o convívio com um cão ajudou a manter em níveis desejáveis a pressão arterial e a frequências cardíaca e respiratória; o convívio com seus cães aumentavam o tempo de vida em um ano comparando com outros pacientes.
No Hospital - O Albert Einstein é o primeiro hospital da América Latina a conseguir o selo de certificação da Planetree e o 35º do mundo. São hospitais que permitem a entrada de cães, gatos e pássaros para visitar os donos como parte da humanização do tratamento. Antes os cães: 1. são avaliados pelo veterinário que emite um laudo de boa saúde, 2. tomam banho criterioso antes da visita, 3. apresentam documentos de vacinação em dia, 4. são mantidos tranquilos durante a visita, 5. e o médico do paciente deve concordar por escrito. Depois de todas estes procedimentos uma equipe do hospital checa tudo e autoriza a visita. A visita dos cães aos donos pode levar a uma enorme alegria, paz e muito bem estar; ainda promove elevação na autoestima retomando-se a vontade de recuperar e voltar para casa.
Alberto Consolaro é ?professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC.
Email: consolaro@uol.com.br