Afirmar que viver é um risco pode parecer banal ou lugar comum. Com o ritmo dos afazeres diários e compromissos, mal conseguimos mensurar o quanto. Mas, usando uma canção consagrada na voz de Elis Regina em um novo contexto, vale o alerta: “cuidado meu bem. Há perigo na esquina”.
Buracos em calçadas ou em vias públicas, problemas na sinalização decorrentes de acidentes, vandalismo ou ainda em função de vegetação frondosa capaz de encobrir placas são dificuldades cotidianas que, discretas, trazem com elas o poder iminente de provocar tragédias. Bem dizia Jorge Ben Jor: ‘prudência e caldo de galinha não faz mal a ninguém’.
“Às vezes, a queda no buraco pode até não ser o pior. O pior pode vir quando o motorista se depara com ele e tenta fazer uma manobra evasiva. Pode provocar um acidente, um atropelamento”, avalia o engenheiro de trânsito Archimedes Raia Júnior. De acordo com ele, o motorista pode perder o controle da direção ou, num ato quase instintivo para desviar do perigo, deixar de avaliar outro veículo – seja automóvel, motocicleta ou bicicleta - ou até pessoa.
Risco dessa natureza a reportagem constatou na quadra 10 da Alameda Octávio Pinheiro Brisolla, em frente à Universidade de São Paulo (USP). Os veículos que transitavam pelo local derivavam para a direita ou para a esquerda para desviar de um grande buraco, situado na altura de um ponto de ônibus.
Por conta do risco, o ponto foi sinalizado, mas algum condutor distraído atropelou a lata de tinta com querosene. A sinalização, inclusive, não contempla todas as armadilhas que a cidade apresenta, conforme explica o diretor da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb), Nico Mondelli.
Postes denunciam acidentes
Um problema tão ou mais grave que buracos nas vias ou calçadas, são as placas encobertas por vegetação ou ausentes por conta de eventuais acidentes. Segundo o presidente da Emdurb, Nico Mondelli, cerca de cinco postes com informações referentes ao trânsito são substituídos por semana por conta de acidentes, por exemplo.
“Dependendo do buraco, as pessoas estão acostumadas, conhecem. Nas vias principais, de uma forma ou de outra, são consertados. Permanecem por mais tempo em locais de menor movimento”, comenta Archimedes Raia Júnior. Já a falta de sinalização deixa o motorista menos atento e mais sujeito a acidentes graves.
Na rua Rio Branco esquina com a Elzeario Barbosa, na Zona Sul, a reportagem flagrou um poste torto com placas de rua, sinalizando que foi atingido por veículo. No mesmo local, há cerca de um ano e meio, um jovem morreu num acidente de trânsito justamente naquele ponto. Desgovernado, o carro em que ele transitava com amigos entrou em um imóvel da rua Rio Branco. Não muito distante de lá, a esquina das ruas Engenheiro Saint Martin com João Abo Arrage, próximo ao Bosque da Comunidade, foi palco de um acidente há um mês, aproximadamente. Por sorte, a condutora acabara de deixar seu filho na escola. Além do susto, apenas muito prejuízo.
No entanto, moradores das imediações procuraram o JC para informar que o trecho coleciona casos semelhantes. O poste de sinalização parece denunciar. Para piorar, quem vem da Abo Arrage durante a semana, dependendo do volume de carros estacionados nas imediações, não consegue visualizar o condutor que segue pela Saint Martin. Risco na certa
Verde indesejado
Quando capaz de encobrir uma placa, o verde é indesejado. O problema que mostra a falta de fiscalização da arborização urbana neste aspecto pode ser flagrado na esquina das ruas Alfredo Ruiz com Vivaldo Guimarães. No local, está afixada uma placa com o sentido da via, que exige atenção redobrada do motorista por conta da árvore que a encobre. Com esforço é possível enxergá-la, assim como a placa de Pare situada no cruzamento das ruas José Henrique Ferraz com a rua Fábio Geraldo, no Jardim Solange.
As armadilhas já trouxeram prejuízos à bancária Sandra Maria Fernandes, que teve um carro anterior avariado por conta de buracos. “Com chuva e à noite, os riscos são ainda maiores. O que admira não são só as armadilhas, mas o tempo que elas permanecem nas ruas”, comenta Arlindo Arthuso Júnior, também bancário.
Ele, por exemplo, já conhece as falhas antigas nas ruas da Vila Falcão e sabe como conduzir o veículo para driblar buracos. No entanto, tem quem já tenha perdido a vida por desconhecer por onde passava e cair num grande buraco. A tragédia aconteceu há cerca de uma década, em Bauru. Também corre risco de morte por atropelamento quem deixa de trafegar em calçadas danificadas e se aventura nas ruas.
Casos flagrantes podem ser vistos na quadra 2 da avenida Castelo Branco (bem em frente a um ponto de ônibus) e na quadra 10 da avenida Azarias Leite, quase esquina com a rua 15 de Novembro, no Centro.
Buracos sinalizados
Para evitar acidentes, a Emdurb comumente sinaliza buracos grandes, especialmente em vias preferenciais, onde o fluxo de veículos é maior. A informação é do presidente da empresa, Nico Mondelli. De acordo com ele, a medida pode ser tomada em outros pontos pelos funcionários do Grupo Operacional de Trânsito (GOT), desde que o problema seja comunicado, o que nem sempre acontece.
De acordo com ele, dependendo da necessidade, a sinalização resulta em interdição, com instalação de cavaletes, ou com iluminadores com base em latas de tinta com querosene. Diariamente, uma equipe da Emdurb passa pelos trechos (com sinalizadores com queresone) para acendê-los.
Para alertar motoristas, a empresa conta com a colaboração dos GOTs que trafegam pelas ruas, com denúncias da população, além de informações transmitidas pela Secretaria Municipal de Obras e pelo Departamento de Água e Esgoto (DAE).
Emdurb também faz poda
Caso a Emdurb seja informada de que postes de sinalização estejam encobertos por vegetação, dependendo da situação, seus próprios trabalhadores resolvem a questão, às vezes no mesmo dia. No entanto, diante de circunstâncias que exijam medidas drásticas, é aberto um processo e encaminhado à Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma), informa o presidente da Emdurb, Nico Mondelli.
A empresa, então, aguarda um laudo com autorização e orientações sobre como proceder. O trâmite todo pode levar um mês. Enquanto isso, a sinalização horizontal é reforçada até que a medida seja tomada, explica Nico. Ele ressalta que cada problema é analisado individualmente para evitar danos desnecessários à vegetação
Danos em placas podem ser cobrados
Quem danifica postes ou placas com sinalização em função de vandalismo ou acidente pode ser cobrado pela Emdurb, caso seja identificado. Por semana, pelo menos cinco delas são trocadas, sendo que a maioria dos casos ocorre nos finais de semana.
Legenda: Carros desviam de buraco, situado em frente ao ponto de ônibus, na quadra 10 da alameda Octávio Pinheiro Brisolla.
Serviço
Quem se deparar com qualquer um dos problemas relacionados na reportagem pode acionar a Emdurb pelo telefone: (14) 3233-9000. Também pode enviar mensagem ou imagens no facebook do Jornal da Cidade (http://www.facebook.com/jcnetbauru).