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Conhecemos o inimigo

Paulo Cesar Razuk
| Tempo de leitura: 4 min

Vivemos em um mundo que se torna cada vez mais complexo e alicerçado em infraestruturas ultrafrágeis. Um mundo totalmente dependente da infusão constante de sistemas tecnológicos completamente interligados que sustentam nosso estilo de vida. Nunca antes na história da humanidade a nossa espécie esteve tão vulnerável como agora: as infraestruturas das quais dependemos para a vida de todos os dias - o petróleo, a eletricidade, as redes de abastecimento de água e comida, o sistema financeiro, só para citar alguns ? estão tão estreitamente interligadas que, quando uma espirra, as outras podem rapidamente ficar com pneumonia. Essas redes intricadas que nos ligam uns aos outros amplificam e transmitem qualquer choque. Até mesmo uma falha aparentemente insignificante no tecido da sociedade como, por exemplo, um ataque terrorista, o fechamento de um banco ou o surto de uma doença, pode desestabilizar todo o edifício.

A causa dessa fragilidade é diretamente atribuída à complexidade crescente da nossa sociedade global. Essa complexidade revela-se de muitas formas, por exemplo, na elevada conectividade entre todos esses sistemas que acaba por fazer sentir, em todo conjunto, uma deficiência localizada. Outras vezes, para agravar a situação, a complexidade vem acompanhada de camadas sobrepostas de burocracia e de escuros labirintos. A recente perturbação no setor financeiro se transformou em agitação social em vários países e mais recentemente, em Chipre. Em benefício da clareza, convém mencionar que, uma agitação social pode assumir várias formas: desde manifestações e greves até saques, motins e uma crise política que levaria o país afetado à beira do colapso, isto é, fariam aquilo que se passou em Atenas parecer uma educada conversa. O dinheiro precisa fluir para investimentos que geram empregos e para programas ligados à educação, saúde e segurança, obrigações primordiais de qualquer governo.

Ainda sem qualquer alternativa viável de energia que possa compensar um declínio forte na disponibilidade de petróleo, podemos contar com um mundo muito diferente. Uma redução importante nas viagens longas, a erupção de guerras para assegurar os recursos sobrantes, o definhar da globalização e o desvanecer da economia de consumo são algumas das consequências prováveis do fechamento da torneira da energia barata. A questão não é o esgotamento das reservas, o que importa é saber até quando teremos o suficiente para manter nossa economia moderna em funcionamento. E esse ponto de falência chegará muito antes das bombas de extração ficarem secas.

Quando a eletricidade para, os semáforos apagam-se; os celulares deixam de funcionar; os elevadores ficam presos entre andares; as bombas deixam de bombear água e gasolina; os computadores, geladeiras e televisores desligam-se, em resumo, a vida é reenviada para um nível pré-industrial. Se há qualquer outra infraestrutura que rivalize com a rede de eletricidade no seu impacto nas nossas vidas é, por certo, o sistema que leva água até nossas casas. Podemos viver sem eletricidade; já vivemos sem ela durante milhares de anos. Mas, não podemos viver sem água e a necessidade de água doce está em rápido crescimento em todo o mundo e aqueles que não a têm morrem. É tão simples quanto isso. Preto no branco, vida ou morte. Não há aqui tons de cinza. À medida que o nível de vida nos países desenvolvidos aumenta, a necessidade de água acompanha essa tendência crescente.

O dinheiro, a eletricidade, o petróleo e a água são fluidos, metaforicamente os dois primeiros e literalmente os demais, todos precisam fluir para manter a vida como a conhecemos. Sem o concurso pleno desses "fluidos" e com a instabilidade climática, o crescimento populacional e a intensificação da monocultura a era da comida barata e acessível a ponto de vergar as prateleiras dos supermercados estaria com os dias contados. O importante neste contexto de complexidade em que vivemos é ter sistemas e indivíduos tão adaptáveis quanto possível. Se o futuro é sempre um lugar desconhecido e assustador, hoje em dia é ainda mais desconhecido e assustador do que o habitual. Por isso, desenvolver a nós mesmos e às nossas infraestruturas de modo a possuírem mais graus de liberdade para contra-atacar ou explorar o que lhes vier ao encontro, é uma boa estratégia, mesmo porque, conhecemos o inimigo e ele somos nós.

O autor, Paulo Cesar Razuk, é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru

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