A leitura do cenário maligno da inflação brasileira tem muito a ver com o fato de o governo não ter feito sua parte. Para entender o contexto atual vamos pontuar alguns fatos importantes o da recente história de combate a inflação brasileira. O Plano Real foi alicerçado a partir da constatação que seria importante atacar simultaneamente três importantes frentes que podem ajudar a entender a inflação crônica no Brasil: 1) Indexação da economia; 2) Desequilíbrio fiscal; 3) Problemas estruturais. O fim de parte da indexação veio com a criação da URV, evitando a dolarização da economia, mas estabelecendo um novo referencial de preços que todos os brasileiros assimilaram, segurando a inércia da inflação sem que houvesse congelamento de preços. Menciono parte da indexação porque ainda são permitidos reajustes anuais de contratos, tanto nas concessões de serviços públicos, como em contratos privados. Mesmo com este mecanismo podemos concluir que boa parte dos preços da economia deixou de ter reajustes automáticos de preços.
A segunda frente foi o ajuste fiscal. A política fiscal é composta pela política tributária e pela política de gastos públicos. A ideia foi elevar os tributos, isso foi feito no início do Real e em seguida com inúmeros outros tributos. Basta analisar a relação carga tributária com o Produto Interno Bruto, que saltou neste período de 25% para quase 40%. O que falhou e feito foi à política de gastos. Os recursos das privatizações se perderam na máquina pública. Notadamente no governo Lula os gastos públicos foram potencializados, e o custeio público ficou com a maior parte dos recursos arrecadados, não garantindo recursos para investimentos, necessários para dar sustentação ao crescimento. A terceira frente seriam as chamadas reformas estruturais. Todos somos sabedores que nada ou pouca coisa foi feita. Falava-se da reforma administrativa, tributária, trabalhista, política, previdenciária, entre outras, e a maior parte das importantes decisões não saíram do papel. Quando há um plano e com ele ações que sustentem este plano, e tais ações não são cumpridas, passa-se a utilizar instrumentos que atenuem os problemas. Os instrumentos foram centrados na política monetária. Compulsório elevado, regulação do crédito, juros básicos maiores do mundo, controle na emissão de moeda, foram alguns destes instrumentos utilizados a exaustão.
De um lado a inflação fica contida, mas de outro lado o crescimento econômico é prejudicado. Por isso pinçaram novamente a expressão "voo da galinha", uma alusão ao fato de a economia brasileira não ter sustentação em seu crescimento ao longo do tempo. O governo da Presidente Dilma anunciou o rompimento com este modelo, ou pelo menos a intenção em romper. Não conseguiria atacar no curto prazo as reformas estruturais, adiadas desde aquela época, mas poderia utilizar a política fiscal mais fortemente, aliviando a necessidade de monitorar a economia com política monetária restritiva.Os juros efetivamente caíram, atingindo o menor patamar na história. Houve um movimento junto aos bancos oficiais para que os juros caíssem na ponta, para o tomador final de recursos, enfim, a política monetária foi afrouxada. Faltou o que então? Utilizar a política fiscal em toda sua dimensão, principalmente na política de gastos. Em parte isso foi frustrado em função da crise internacional de 2008, posto que as desonerações fiscais foram necessárias, e a outra parte porque nada foi feito na direção do controle dos gastos públicos. A equação não fecha: menor arrecadação e gastos que não caem. Conclusão: a política fiscal não está sendo executada e a política monetária foi deixada de lado.
Restou o que? Comer pelas beiradas. Para não voltar atrás na decisão de evitar o uso da política monetária restritiva e sem controlar os gastos públicos o caminho trilhado pelo atual governo foi e, está sendo, realizar acordos setoriais, adiando aumentos de preços, reduzindo preços de outros produtos e serviços, derrubando o dólar para trazer produtos importados com preços mais baratos, enfim, atacar parte da estrutura do mercado, tentando, com sua atuação, reequilibrar oferta e demanda, evitando elevação de preços. Não é tarefa fácil principalmente quando alguns produtos estão com problemas sazonais, como boa parte dos preços dos alimentos e ainda há parte dos preços indexados. Percebam que é um momento delicado e para agravar foi dada a partida para as eleições do ano que vem, ou seja, medidas impopulares serão adiadas, o que restringe ainda mais o campo de ação do governo. Diríamos que o governo está em uma sinuca de bico. Como os remédios são conhecidos e devem ser aplicados por quem direito, lembro a frase de Richard Bach "se os problemas existem, é porque você os colocou ali, cabe a você resolve-los". Mesmo com toda herança recebida pelo atual governo, o partido da presidente Dilma está no poder há mais de 10 anos, portanto, nada deve se apresentar como surpresa. Se cada um fizesse sua parte, o todo estaria equacionado. O governo Federal precisa agir na direção correta, fazendo brilhantemente sua parte. É o que se espera.
O autor, Reinaldo Cafeo, é economista, diretor do Corecon e articulista do JC