Nós, ex-internos da antiga Sociedade Beneficente Cristã, Casa da Criança, e Sociedade Espírita Rural, de alguns anos para cá, quando passamos por perto de tudo que construímos, para os pobres, isso é claro, com a ajuda do povo bauruense, que sempre confiou na instituição, lamentamos o que está acontecendo com todos os patrimônios que foram construídos em nome dos pobres. As casas e terrenos doados em prol dos pobres foram destruídos para dar lugar a novos investimentos para quem pode pagar. Quem não se lembra das filas de várias famílias carentes com crianças nas calçadas em busca de alimentos que era distribuído pela Dona Anita (em memória).
Quem não se lembra de o próprio Paiva caminhando com as mãozinhas para traz com ar de felicidades entre as famílias carentes. Quem também não se lembra do café que era torrado, aquela fumaça da chaminé subindo o cheiro do café torrado. Nós, ex-internos, tínhamos um prazer de colocar caixas e caixas de legumes e hortaliças produzidos por nós, nas calçadas para serem distribuídos aos pobres. Tudo era produzido pelos próprios ex-internos nas fazendas Leopoldina, Val de Palmas, que foram vendidas, e fazenda Miracema, que atualmente esta arrendada a uma empresa para plantação de eucaliptos.
A fazenda Miracema foi completamente desmatada, vendidas as mais de quinhentas cabeças de gados, inclusive leiteiras. Não tivemos prazos para colheitas, coseguimos recolher apenas umas 180 caixas de mandiocas e os restantes, pomares com frutas e as hortaliças e os prédios onde moravam famílias, foram destruídos e enterrados para dar lugar aos eucaliptos. Os ex-internos, funcionários, as famílias que mantinham vínculo com a instituição, foram expulsos para não surgir interferências no novo destino da instituição, ou seja, "não nos interessa como irão se virar ".
Nós não nos consideramos como uns fracassados em relação o que aconteceu, e sim, simplesmente, como pessoas humildes e sem interesse, no que construímos, afinal, sempre pensamos que a instituição serviu a nós, "seria" para os futuros necessitados e não virar uma empresa de empresários que nunca fizeram nada. Os pequenos gestos de humildade em relação aos necessitados e muito mais era uma rotina comum no cotidiano do Tio Paiva e a Dona Anita (em memória).
Ex-interno Pascoal Gonçalves da Silva