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Dor atômica

Lucius de Mello
| Tempo de leitura: 3 min

Pode parecer exagero, mas, honestamente, não é. A ameaça da guerra entre as Coreias não me assusta tanto, mesmo com o fantasma da bomba de urânio enriquecido rondando o planeta. Por que teria medo do cogumelo atômico, se há anos acompanho a dor de cidadãos brasileiros que perdem seus filhos para a violência? Dor que explode e dizima o coração de pais e mães, todos os dias, com um poder de destruição nuclear.

Cidadãos bombardeados por dentro, implodidos, arrasados, impotentes diante da impunidade institucionalizada que só alimenta a banalização da vida humana. Cidadãos que trabalham, são taxados com altos impostos para viver no próprio país e, mesmo assim, têm que pagar plano de saúde, escola e segurança para conseguir ter e dar uma vida digna as suas famílias. Vida digna?

Cidadãos que, ao saírem de casa para o trabalho, não podem ter certeza que voltarão vivos porque, na verdade, sabem que seguem para guerra de todos os dias, para as trincheiras existentes nesses injustos frontes de batalhas em que se transformaram as metrópoles, as cidades e até mesmo as sagradas portas dos lares nacionais.

Foi na porta de casa que Vitor Hugo Deppman foi assassinado. Como ficar impassível diante da DOR que atingiu a família do estudante de 19 anos, morto em um assalto no ultimo dia 09 de abril, na Zona Leste de São Paulo? O jovem cursava o 3º ano do curso de Rádio e TV e perdeu a vida diante das câmeras de segurança do condomínio onde morava com os pais. Perdeu a vida para um celular. O carrasco foi um menor infrator insano, com passagens pela policia que, mesmo tendo completado dezoito anos três dias depois do crime, vai ser punido pela Justiça com as regalias de um menor de idade.

Infelizmente, para muitas autoridades brasileiras, essa ainda é uma guerra invisível. Mas os números lançam luz sobre o covarde massacre que atinge a nossa população. São 37 mil homicídios dolosos por ano registrados no Brasil. Em número de mortos, já ultrapassamos as regiões mais conflituosas do Terra. Nesse aspecto, é como se vivêssemos uma guerra civil, constatam os estudiosos. Os índices de violência nacional, na região da América Latina e do Caribe, são superados apenas pelos dos vizinhos Colômbia, que enfrenta a guerrilha e o narcotráfico, Honduras e Jamaica.
Só no estado de São Paulo, a violência cresceu nos dois primeiros meses deste ano. Os números da Secretaria de Segurança Pública paulista apontam aumento principalmente nos casos de homicídio. Uma das preocupações é que os índices estão crescendo há sete meses. Em janeiro e fevereiro, os homicídios dolosos - aqueles com intenção de matar - cresceram 15% na comparação com os dois primeiros meses de 2012. As ocorrências passaram de 684 para 787, segundo a Secretaria de Segurança Pública.

É muito triste chegar a essa conclusão: Mas a vida humana e a vida de uma barata valem hoje a mesma coisa. O escritor Franz Kafka profetizou isso em 1912 ao escrever A Metamorfose. Cuidado ao sair de sua casa. No meio do caminho pode ter uma mão disposta a puxar um gatilho com a mesma naturalidade de quem mata um inseto com uma chinelada.

O autor, Lucius de Mello, é escritor, jornalista e pesquisador do LEER ? Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminaçao e do ARQSHOAH, Arquivo Virtual do Holocausto e Antissemitismo, os dois ligados ao Departamento de História da Universidade de São Paulo. Editor do programa Domingo Espetacular ? TV Record ? SP

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