O que encontrar no “centro do Centro” quando a noite chega? A resposta parece estar na ponta da língua e nas manchetes dos jornais, entretanto... “Aqui não tem só prostituição, consumo de drogas ou gente que anda sem destino. Acho que aqui é um lugar tranquilo, bom para colocar o papo em dia com amigos e, é claro, jogar truco. É o que eu faço há alguns anos e não é valendo dinheiro, não, viu! É por diversão”, conta o autônomo Marcos Vinícius Gonçalves, que joga truco com os amigos na quadra 7 do Calçadão da Batista de Carvalho.
No outro extremo da via, a reportagem do JC encontrou outra cena inusitada: um happy hour na quadra 1. Isso mesmo. Por lá é possível encontrar ao menos dois bares abertos depois que o comércio fecha, além de uma sorveteria.
A equipe falou com um grupo de amigas que disse não trocar o lugar por nenhum outro. “Eu venho aqui há dois anos. É muito tranquilo e está perto do ponto de ônibus. Saio do trabalho e passo por aqui antes de ir para casa. É muito bom colocar o papo em dia com as amigas”, comenta a doméstica Maria Aparecida Ferraz ao lado de Elizabete Maria da Silva.
E histórias não faltam nas mesas dos bares. A funcionária pública Luciana da Silva, por exemplo, lembra que foi ali que conheceu seu futuro marido: “Aqui achei meu amor. Ao contrário de alguns, eu não tenho medo do Centro à noite, afinal, os policiais ficam aqui pertinho, na praça Machado de Mello”.
Para espairecer
Sem temer os assaltos não distantes do Centro da cidade, a auxiliar de limpeza Graziela Jacinto desembarca do ônibus vindo do Bauru Shopping rumo à igreja que frequenta na Rodrigues Alves, mas antes, ela “batista” pelo Calçadão para, como ela mesma diz, arejar a cabeça.
Assim como Graziela, não é difícil encontrar gente de todas as idades que aproveitam o vazio da Batista de Carvalho para pensar na vida enquanto caminha. O termo “batistar” teria surgido no começo da década de 1920 e ainda hoje nomeia o ato de caminhar tranquilamente por toda a extensão do Calçadão, seja para comprar, encontrar amigos ou mesmo espairecer.
Catadores são frequentadores assíduos
É quando os lojistas e vendedores param de trabalhar que os catadores entram em ação. O casal Maria Aparecida Ângelo e José Fernandes, por exemplo, há anos tira o sustento da família com a venda de material reciclável. Apesar do dinheiro ser pouco, o medo de assalto existe: “A gente não fica até muito tarde, não. Pegamos rápido o que podemos e vamos embora”, conta “dona Maria”.
Antônio Francisco de Melo tem sítio e já trabalhou em diversas áreas. Morador do Centro há 40 anos, ele uniu o útil ao agradável quando montou um depósito de venda de material reciclável. “Ficava tudo sujo e decidi aproveitar esse material. Tenho muitos amigos lojistas que guardam o papelão para mim”, diz Antônio, que chega a recolher 400 quilos de papelão por noite.
Quando indagado sobre morar na região, a reposta é rápida: “É uma delícia morar no Centro. Toda a minha família gosta porque a gente está perto de tudo. Temos tudo nas mãos. Quanto às drogas e violência, isso está em todos os lugares, hoje”, sentencia.
‘De lata em lata’
Se para alguns o lixo é produto de venda, para outros serve de alimento. Não é difícil encontrar pessoas vagando pelas ruas centrais, revirando latas de lixo e ingerindo restos de comida e bebida.
De acordo com secretária do Bem-Estar Social, Darlene Tendolo, são pessoas com algum tipo de problema mental e a prefeitura coloca diariamente uma equipe de serviço de abordagem noturna que oferece alimentos, roupas e assistência social das 18h às 7h nas ruas. “As pessoas podem ir ao Centro de Referência Especializado em Situação de Rua (Centro Pop), às casas de passagem, para o albergue... Temos até um hotel disponibilizado”.
A secretária analisa que o número de moradores de rua caiu. Atualmente, cerca de 50 pessoas são atendidas diariamente. “São sempre as mesmas e buscamos dar consciência de que elas podem sair das ruas, trabalhar e não precisam intimidar as pessoas”.
Presos em casa
Enquanto os “zumbis” do crack vagam pelas ruas centrais, muitos moradores se sentem acuados em casa. O servidor público Francisco Lemos de Almeida vive há 40 anos na rua Rio Branco, e aponta os assaltos e a algazarra como os principais transtornos de viver próximo à linha férrea.
“Os usuários de crack começam a perambular pelas ruas quando o sol se põe e só param de fazer barulho quando o dia começa a nascer. Eles espalham o lixo, chutam portas, disparam alarmes, irritam os cachorros, gritam... Um deles subiu no telhado da minha casa certa vez. Isso sem falar sobre os perigos que rondam a prostituição e a venda de entorpecentes. A revitalização do Centro precisa chegar, e logo. Se isso acontecer e a segurança aumentar, eu acredito que o Centro voltará a ser um bom lugar para se viver”.
Segundo Darlene, as ações de atendimento aos usuários de crack já conseguiu tirar algumas pessoas da rua. “Estamos avaliando a área do viaduto da rua Treze de Maio para abrir um forte atendimento social no local para acabar de vez com a cracolândia. Estamos estudando mecanismos para tirar as pessoas dessa vida degradante, mas é um serviço feito passo a passo”, finaliza.