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Muito além do mensalão

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

O que mais chama a atenção nas histórias escabrosas do chamado "mensalão" não é tanto o que veio à tona no julgamento do Supremo Tribunal, mas o que permanece oculto. De como são custeadas as campanhas políticas, a sociedade brasileira está cansada de saber. Os cidadãos deste país são como aqueles personagens do teatro de Pirandello, a procura de um autor. De vez em quando reflui alguma coisa, como no recente desabafo do condenado ex-ministro-chefe José Dirceu. Considera-se traído pelo ministro Luiz Fux que o "assediou durante seis meses" por seu apoio para ingressar na Suprema Corte. Uma vez sentado na cadeira de espaldar alto, realizado o sonho curricular e garantido pela vitaliciedade do cargo, Luiz Fux deu uma banana para Dirceu. Esqueceu-se da promessa de absolvê-lo. Aliás, quando foi visitá-lo nem se lembrava de que o padrinho era réu no processo do mensalão. Ainda ontem, num lampejo moral decidiu suspender o jantar para comemorar seu aniversário, oferecido por uma conhecida banca de advocacia do Rio. Haviam sido convidados todos os desembargadores cariocas e, com certeza os ministros do STF. Justamente no momento em que o presidente da Corte Joaquim Barbosa acabava de espinafrar representantes da magistratura, pelo conluio entre juízes de advogados.

As expressões "organização criminosa", "peculato", "lavagem de dinheiro" e outras do vocabulário delitivo aparecem por todos os lados definindo o crime dos réus. Por enquanto ninguém foi preso. Espera-se o "trânsito em julgado" da sentença. Enquanto isso José Dirceu tenta "embolar o meio de campo", como se diz no futebol. A suspeição de Fux permitiria embargos à execução da sentença. Mas, e a gênese de tudo? Quem engravidou a honesta donzela republicana, provavelmente, jamais saberemos. O operador do mensalão Marcos Valério conta a história de Lula no exercício do tráfico de influência para levantar 100 milhões de reais do grupo Portugal Telecom, para salvar as finanças do seu partido. Quem pode confiar nas história de um réu condenado a mais de 40 anos de prisão e que só agora resolveu abrir o bico? Ele só fez o parto. O Don Juan sedutor terá sempre a sua identidade preservada. Sabia-se da frágil reputação da donzela. Mas saber que ela vivia num prostíbulo, como se fosse numa catedral, choca até mesmo aos insensíveis. Tento explicar: na organização política do estado, o parlamento é a sacra catedral que faz as leis. No cotidiano da sociedade de consumo, as grandes catedrais são os bancos. Neles, recebemos dinheiro e pagamos contas. Nossa vida está ali, em seus computadores. Por isto, a legislação bancária é estrita, para evitar fraudes, peneirar clientes e impedir que o sistema financeiro sirva ao delito como porta de entrada ou saída. Como foi possível, assim, que fraudes milionárias para corromper parlamentares tenham tido origem em dois bancos, um deles, inclusive, que leva o nome do país, e está sob o controle do governo?

A rígida legislação bancária, inchada por dezenas de controles internos ou cobranças de taxas por qualquer serviço, foi incapaz de descobrir as fraudulentas extravagâncias cometidas pelo Banco do Brasil e pelo Banco Rural para financiar a compra de parlamentares. O Banco Central controlou o quê? Tão exigente conosco, os pequenos correntistas, e tão permissivo, cego e mudo com centenas de milhões de reais desviados à agência de publicidade de Marcos Valério, para alimentar o propinoduto. O diretor de marketing do Banco do Brasil desviou R$ 73,8 milhões do fundo de cartões de crédito, como "pagamento antecipado" por serviços fictícios a tal agência de publicidade. Na fraude grosseira o Banco do Brasil aceitou 41.650 notas fiscais "frias", falsificadas pelo publicitário que alimentava a corrupção. Notas frias, mas por certo, garantidas quanto o pagamento por alguma autoridade de pé quente. Quem autorizou? Milhares de brasileiros, e o próprio Tesouro Nacional são clientes do nosso maior banco público. O BB teria virado uma absurda bagunça? O povo jamais saberá a verdade subjacente neste que é o mais polêmico episódio da política brasileira. De chibata em punho o negro Joaquim Barbosa tenta conter a fome agressiva de um bando de tigres albinos. O conluio precisa acabar em nome dos mínimos padrões exigidos pela moral republicana. De pé e sem economizar adjetivos pode até parecer malcriado, mas funciona.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC

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