Os "Olhos do Grande Irmão", previstos como sinal de tirania por George Orwell no livro "1984", têm trabalhado em sentido inverso ao preconizado pelo autor. Confirma-se que na sociedade moderna o "Big Brother Zela por Ti", mantendo as pessoas sob constante vigilância, mas no sentido de fazer prevalecer a ordem e a segurança, em benefício do coletivo. A polícia é até a mais vigiada. Os suspeitos de autoria do atentado a bomba em Boston foram descobertos em apenas três dias, graças ao levantamento de imagens das câmeras espalhadas pelas ruas centrais, e mais a colaboração de 1.700 cidadãos presentes na hora das explosões. Eles enviaram milhares de fotos e gravações ao FBI. Postaram as imagens na Internet. O exame acurado desse material levou à descoberta dos irmãos chechenos e ao acompanhamento de cada passo dado pelos suspeitos. Um foi morto no confronto com o aparato de guerra mobilizado na perseguição. O outro está preso, gravemente ferido. Se forem inocentes terá se repetido o fiasco do ocorrido durante os jogos olímpicos de Atlanta, em 1996, quando foi detido um guarda de segurança como responsável de um ataque a bomba, depois inocentado.
Para os ouvidos dos brasileiros, a pronúncia do nome "Boston", pelos habitantes da Nova Inglaterra, tem um som quase escatológico. Chechênia, então, chega ao pornográfico. Trata-se de uma república de maioria muçulmana, pertencente à Federação da Rússia. Com o fim da URSS declarou sua independência unilateralmente, não reconhecida pelos russos. A Chechênia tem importância estratégica pela passagem dos dutos do petróleo exportado pelo Mar Negro. Desde então ocorrem conflitos armados entre separatistas e o exército russo que já mataram 150 mil pessoas. Em setembro de 2004, terroristas chechenos invadiram uma escola, aprisionaram, torturaram e mataram crianças, pais e professores. Com esse banho de sangue, queriam chamar a atenção do mundo para o seu projeto de nação independente. Por ironia, os Estados Unidos sempre foram favoráveis à independência da Chechênia. Os líderes separatistas já declararam que nada têm a ver com o atentado de Boston. Os países muçulmanos também repeliram a atitude extremada e declararam-se solidários com as vítimas. Ainda há muito que desvendar desse atentado. Tanto melhor para a paz mundial que os autores tenham atuado de forma isolada. Barack Obama falou com serenidade e prudência. Republicanos e democratas deixaram de lado suas desavenças políticas para se unirem neste momento de tensão. Desde o 11 de Setembro, os Estados Unidos desenvolveram uma série de estratégias para a guerra contra o terrorismo. O país é mais seguro hoje, do que há 12 anos. Mas o terror político se revela cada vez mais atomizado. Muitas vezes, batalhas são ganhas, como a que levou à descoberta e morte de Osama Bin Laden. Outras são perdidas a altos custos. Um ataque de extremistas em Bengasi custou a vida do embaixador norte-americano e de três funcionários da representação diplomática. Os americanos procuram aprender com as lições de cada ato de violência. Sabem que é preciso recuperar princípios e valores sobre os quais nasceu e cresceu a nação, para se tornar potência mundial graças, em grande parte, à ética calvinista. Eles sabem que é preciso rever atitudes e baixar a bola da pretensão hegemônica. A prisão de Guatánamo é uma das excrescências que deveria ter seus dias contados.
Quanto aos métodos de prevenção e combate, o alerta que vem dos Estados Unidos interessa particularmente ao Brasil, em preparação para uma série de eventos internacionais. O ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, disse outro dia que estamos preparados para as ameaças internas e externas. O primeiro teste será em junho, na Copa das Confederações. Em julho, o País será sede da Jornada Mundial da Juventude, promovida pela Igreja Católica, que deve trazer o papa Francisco pela primeira vez ao Brasil. No ano que vem, será a vez da Copa do Mundo, e, em 2016, da Olimpíada. Em nenhum outro período tão curto de tempo, o País acolheu tanta gente, como ocorrerá a partir deste ano. Preparativos intensos, que se iniciam agora, são decisivos para a preservação de vidas e também da imagem do Brasil. Aqui, o "terror" é espalhado por traficantes de drogas, estupradores, menores e adultos que põem em risco a vida de turistas por um celular ou câmera fotográfica. Fora os crimes comuns ainda temos que lutar contra as deficiências de gestão, atrasos nos cronogramas de obras, serviços de engenharia mal executados, desperdícios e superfaturamentos. A esperança é que todos esses eventos fixem boas experiências, não só nos serviços de inteligência, como também na formação de recursos humanos e de posturas éticas aos olhos da Nação e do mundo.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC