Gastronomia

Dias frios, pratos quentes!

Eliane Barbosa
| Tempo de leitura: 7 min

Tenho em casa um belo pé de ora-pro-nóbis que ganhei de um casal adorável. Quando o frio aperta, lá vou eu colher algumas folhas para acrescentar ao refogado de frango que será servido com polenta mole. Caldo-verde, sopa de mandioquinha, ossobuco, galinhada e rigatoni ao ragu também não faltam no meu cardápio de outono.

Estação com dias e noites às vezes até mais frios do que no inverno. Com um céu azul intenso.

As "cris", meus quatro cães ? Juca, Julia, Vladimir e Axel - ficam alvoroçadas com o cheiro dos temperos, das carnes e das ervas. Como é bom cultivar ervas para tê-las por perto quando é preciso. Em casa além do ora-pro-nóbis, temos manjericão de várias cores e tipos (preciso até aparar alguns vasos de tanto que cresceram), orégano fresco, salsa e cebolinha, tomilho, alecrim , erva-doce, cidreira e hortelã, essencial quando o menu pede pratos árabes.

Minha amiga Beth que balança pelas ruas de Arraial d´Ajuda lá na Bahia com seu sorriso encantador, me presentou com uma mudinha de pimenta rosa para complementar meu arsenal de temperos. Achei que de tão pequena não iria vingar, depois de ficar horas dentro do avião da GOL, com pressurização e escalas demoradas, mas sua força e raça baiana, me surpreendeu. A mudinha de uns cinco centímetros cresceu, está forte, linda. A ponto de mexer até mesmo com a sensibilidade de meu marido que deixou por alguns momentos seus livros e jornais de lado para providenciar um vaso maior para abriga-la. Em breve, estará no meio das outras plantas do terreno. Meu pé de jabuticaba que não é assim tão doce como o da casa de minha mãe, do cajueiro que não dá fruto de jeito algum (se alguém souber o porquê, por favor, me avisem), da figueira, da parreira de uva, das pitangueiras, da acerola com seus frutos vermelhos e agora também da romanzeira que cresceu, fortificou-se e já deu seus dois primeiros frutos- um para mim e o outro para o vizinho da divisa de lotes.

Ora-pro-nóbis rogai por nós

Para quem não tem um pezinho em Minas ou na vida mais simples, do campo, lá vai história. A ora-pro-nóbis além de ser usada como cerca-viva e ornamentação também é alimento dos bons. Rico em ferro, essencial para crianças e mulheres. Seu nome científico é Pereskia aculeata mas foi assim batizada pelo costume de ser colhida no quintal de uma igreja, para ser preparada para o almoço, quando o padre iniciava a reza final da missa da manhã. "Rogai por nós", em português, ora-pro-nóbis em latim. Os agricultores de Minas como não conseguiam pronunciar o nome corretamente a chamavam de lobrobó ou orabrobó. Pouco importa, o que interessa é que é muito saborosa, perene, rústica e resistente. Pertence à família das cactáceas e é cultivada não só no Brasil como também na Flórida, Estados Unidos, por sua adaptação fácil mesmo em terrenos áridos.

O céu de abril, lua de São Jorge

Lua de São Jorge

Lua da alegria

Não se vê um dia

Claro como tu

Caetano Veloso

Por conta dos espinhos serve muito bem como cerca viva e como proteção contra predadores. Uma vez por ano solta flores lindíssimas perfumadas, pequenas, brancas, com miolo alaranjado e ricas em pólen e néctar. A floração, inclusive, ocorre geralmente neste mês de abril, que tem um dos céus mais azuis do ano. Paloma Victoria Maria da Graça e Paula Ignez Pillar são minhas flores de abril, nascidas no mês de Jorge da Capadócia, conhecido no candomblé como Ogum, o padroeiro dos guerreiros. Dia desses, deitada em minha cama olhei para o céu e a cor era tão intensa que achei até que era alguma pintura de um prédio próximo. Os risos, claro, foram imediatos. Era a luz de São Jorge que é minha guia, no Brasil de norte a sul!

Coma sem moderação

Muito usada em chácaras, sítios e fazendas nas minas gerais, a ora-pro-nóbis é perfeita para decoração natural de propriedades com muito verde. Pode ser podada e se presta muito bem para as cercas vivas de jardins. As folhas são sua parte comestível. Frescas, secas ou moídas podem ser usadas em diferentes receitas, como sopas, caldos, refogados, omeletes, tortas e muito mais.

Há também quem as use, frescas, em saladas, embora o prato mais lembrado seja a galinha caipira com ora-pro-nóbis, tradicional da culinária mineira. Quando você for a Diamantina, Tiradentes, São João Del Rey, Sabará ou mesmo em Belo Horizonte ou em Oliveira, terra do grande amigo Cabral, peça ao garçom e coma sem moderação.

Rabada com agrião e canjiquinha

*Receita Alex Atala para revista Casa & Comida (Editora Globo)

Ingredientes:

3 kg de rabada

300 g de cenoura

600 g de cebola

100 g de tomate

50 g de alho

5 raminhos de tomilho

1 folha de louro

1 garrafa de vinho branco

Sal (aproximadamente 10 g)

Pimenta-do-reino (aprox.. 3 mg)

500 g de agrião lavado

500 g de canjiquinha

30 ml de óleo de milho

50 g de manteiga

1 l de caldo de legumes

Tire o excesso de gordura da carne. Corte em cubos a cenoura, o tomate, o alho e 2/3 da cebola. Misture as ervas, o vinho, o sal e a pimenta. Junte tudo com a carne e deixe marinar por, no mínimo, 8 horas. Coloque em uma assadeira coberta com papel alumínio e asse por 4 horas e meia no forno a 120º C (até a carne ficar macia).


Canjiquinha

Hidrate os grãos por 4 horas
Pique bem o resto da cebola
Refogue-a quase toda no óleo até murchar. Reserve uma colher (sopa) para finalizar. Acrescente o caldo de legumes pouco a pouco, até o grão estar completamente cozido. Na hora de servir, coloque a manteiga, mexa e acrescente o resto da cebola para dar frescor. Cubra a rabada ainda quente com o agrião e sirva com a manjiquinha.

Bouf à la bourguignonne

Ingredientes

3 g de alcatra ou carne de sua preferência

1 ½ litro de vinho tinto seco de boa qualidade

1 cebola picada

3 folhas de louro

2 ramos de salsão picado

150 g de manteiga sem sal

Água o quanto baste

500 g de cenouras cortadas em cubos

500 g de batatas pequenas inteiras

500 g de champignons

400 g de cebolinhas de cabeça pequena

1 colher de chá de pimenta-do-reino branca
moída

Sal a gosto

Corte a carne em pedaços não muito grandes. Deixe marinar na mistura de vinho, cebola etc. Retire da marinada. Em uma panela aqueça a manteiga, junte a carne deixe dourar. Acrescente o molho da marinada, ½ litro de vinho e ½ litro de água. Cozinhe em fogo lento até a carne ficar macia e o molho tomar consistência. À metade do cozimento, introduza as cenouras, as batatas, os champignons e verifique o sal. Se precisar coloque mais água.Cozinhe as cebolinhas em panela separada e incorpore-as à carne já fora do fogo.

Mocotó

3 patas de boi

1 kg de feijão branco

1 kg de dobradinha

1 kg de linguiça

Tempero a gosto

Coloque o feijão de molho na véspera. Cozinhe o mocotó (patas) em bastante água. À parte cozinhe o feijão só com água. Em outra panela, cozinhe a dobradinha. Retire as patas e reserve o caldo na panela. Retire a dobradinha e descarte o caldo (engordurado).
Corte se quiser as patas, a linguiça em rodelas e a dobradinha. Misture tudo no caldo, na panela grande, aproveitando a gelatina que se desprende da pata. Junte o feijão com a água e tempere com sal, pimenta e deixe ferver até engrossar o caldo (fogo baixo). Sirva bem quente.

Frango com ora-pró-nobis

1 frango cortado pelas juntas (despreze a pele)

Tempero a gosto

Azeite a gosto

2 latas de salsaretti sabor tradicional

Para a polenta mole:

3 xícaras de fubá mimoso

6 xícaras de água

Azeite a gosto, tempero a gosto

Tempere o frango (com alho, cebola, louro, sal, etc)

Refogue os pedaços no azeite de oliva até ficarem dourados. Acrescente o Salsaretti ou molho de tomate a gosto. Deixe cozinhar. Se for preciso coloque água. Depois de cozido, coloque folhas de ora-pro-nóbis e apague o fogo. À parte faça a polentana panela de pressão. Coloque o fubá, a água e os temperos e mexa até começar a ferver e engrossar. Coloque a tampa da panela, abaixe o fogo e deixe cozinhar por aproximadamente 20 minutos.

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